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Agasalho Colorido

Agasalho Colorido

Arquivo da autora
Arquivo da autora

Ao pé da Cruz fui apresentada, ainda dentro do útero da minha mãe. Ao olhar de Nossa Senhora fui batizada com água benta, já nos braços de meus pais. Ao sentir Deus fui questionada apenas por ser quem sou, agora já crescida. Mas jamais serei impedida de transformar todas as tradições em uma linguagem única de amor.

Lembro-me de, aos oito anos, me sentar na escada do altar da Igrejinha, para escutar as histórias de Jesus que o Padre contava e de como Ele, Maria e seus amigos puderam mudar o mundo e me recordo da sensação de querer transformar esse mesmo mundo num simples gesto de doar meu agasalho colorido na campanha de inverno na Igreja.

Mas lembro-me também de sentir meu estômago revirar todas as vezes que escutava aquela música “Abençoa senhor as famílias amém, abençoa senhor, a minha também”, porque eu certamente sentia que não fazia parte daquele mundo. Quem seria minha família?

Desde pequena eu sabia que era valioso ter carinho, cuidado, respeito com a pessoa de quem eu gostasse, para construir uma família que iria amar um dia, mas e se essa pessoa, e se essa família for a menina do final da minha rua?

Crescer ouvindo as pessoas que mais amo dizerem que “esse tipo de pessoa” estaria sempre longe de Deus e “esse tipo de comportamento” era repudiável me deixava com medo, assim como eu tinha medo de escuro. A diferença é que para o medo de escuro temos um abajur e um abrigo. Esse medo é um medo que te deixa sem teto, te deixa sem colo, sem chão e no escuro o tempo todo.

É o medo de ser você.

Ele me consumiu por dentro, me fez destruir uma parte valiosa de mim que eu nunca vou recuperar, me fez reprimir, duvidar da minha própria vida e da minha dignidade. E eu era só uma criança, que agora não podia mudar o mundo com amor, porque não me amava mais, não me sentia amada por Deus nem por ninguém.

Me parecia hipocrisia “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, porque eu mal conseguia me olhar sem me punir apenas por achar que estou errada por amar uma mulher, por ser quem eu sou e não atender às expectativas que meus pais tinham sobre mim. Como eu poderia amar alguém se eu não me amava? Como amar a Deus se Ele não me ama? Como transformar o mundo com amor se eu aprendi a me odiar diante das palavras distorcidas que Padres e religiosos dizem para “pessoas como eu”?

Quantas crianças como eu, como nós, vão precisar questionar o valor de suas próprias vidas ao escutarem de um Padre ou pastor que “Deus ama o pecador, mas não o pecado”, “leia Levítico 12:22”, justificando sua ignorância e preconceito?

Quantas crianças como eu, como você, vão se sentar nos altares e esperar Deus falar com elas, esperar um sinal de amor, esperar a felicidade sendo elas mesmas. Quantas crianças precisarão perder suas vidas diante da injustiça e da violência que dentro e fora das Igrejas existem?

Quantos ainda viverão no escuro dos armários de nós mesmxs?

Foi vivendo nesse escuro dentro de mim que encontrei uma pequena luz. Uma luz que apagou com a água do batismo preconceituoso, uma luz que não conhecia mais. Uma Luz chamada Liberdade

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Aquela que tem caminho, verdade e vida. Aquela luz da verdade que te liberta, que te guia a você mesma e te dá vida plena. Uma vida incapaz de renunciar esse amor infinito de Deus e sua própria essência.

Encontrar a mim mesma me permitiu enxergar minha imagem, rescrever uma história linda, escrever capítulos novos para minha vida. Uma história que só EU poderia e posso contar, porque o enredo é sobre como experimentei esse Amor de Deus sendo “pecadora e pecado” como muitos dizem.

Uma história onde eu existo e vivo em minha imagem e semelhança. Que tem um rosto, marcas pelo corpo, afetividade e prazer. Imagem e semelhança de Deus sapatão que ama uma mulher, militante dos direitos humanos e da saúde mental. Deus filha de pais que não a compreendem, mas que são muito amados e respeitados, Deus que não expressa gênero, mas de diversas formas, traços e jeitos.

É a partir da minha imagem e semelhança de Deusa mãe, Filho e Espírito Santo que hoje minha missão de vida é acolher pessoas machucadas pela violência e exclusão da religião, que aprisiona e limita esse Amor Infinito de Deus.

E percebo que meu sonho de transformar o mundo com amor sempre esteve aceso dentro de mim, hoje cresceu e queima meu corpo inteiro e através de uma pequena faísca inflama quem estiver em volta. Quem precisar de calor.

Aquela menina de oito anos sentada na beira do altar que mudava o mundinho dela aquecendo-o com um agasalho colorido, hoje aquece o mundo aqui fora incendiando tudo, apenas por existir, sendo prova de amor.