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A diversidade religiosa brasileira vista sob a ótica do princípio pluralista

A diversidade religiosa brasileira vista sob a ótica do princípio pluralista

A nossa pressuposição nesta breve análise sobre diversidade religiosa é que no Brasil, apesar de a maioria da população se autodeclarar cristã, há a presença de um número grande de religiões e de expressões de espiritualidades, muito maior do que imaginamos. Além disso, nem sempre o convívio delas no espaço público ou familiar é pacífico. Para perceber mais nitidamente esse quadro de diversidade, temos construído a noção do princípio pluralista.

As últimas décadas do século 20 e as primeiras do corrente desafiaram os/as cientistas da religião, mas também os teólogos e teólogas, em especial pelas mudanças socioeconômicas e culturais e as implicações delas na esfera religiosa. A sedução que as formas de consumo na lógica do capitalismo exercem sobre as pessoas tornou o sistema econômico, especialmente pela sua tendência totalizante, um substitutivo do religioso. Mas, mesmo assim, as religiões “como tais” estão fortemente presentes na sociedade.

O quadro religioso em mudança

De fato, a vivência religiosa no Brasil, assim como em outras partes do globo, sofreu, nas últimas décadas, fortes mudanças. Alguns aspectos do novo perfil devem-se, sobretudo: (i) à afirmação religiosa indígena e afro-brasileira, em suas diversas matrizes, especialmente as formas de Umbandas, Candomblés e Encantarias, e uma série de expressões culturais regionais, em sua maioria híbridas e recompostas, (ii) à multiplicação e maior visibilidade dos grupos orientais, em toda a sua diversidade étnica e cultural, tanto as diferentes expressões de Budismo, de Xintoísmo e de Confucionismo, como  as religiões recém-chegadas o Brasil tais como Seicho-no-Ie, Perfect Liberty e a Igreja Messiânica, e outras como Fé Bahaí e Hare Krishna, (iii) à presença pública, embora minoritária, das diferentes expressões do Judaísmo e do Islamismo, (iv) à força popular do Espiritismo Kardecista e às expressões espiritualistas e mágicas que se configuram em torno da chamada Nova Era, e outras formas em ascensão como Wicca e Rosa Cruz, (v) ao fortalecimento institucional dos movimentos católicos de renovação carismática, e (vi) ao crescimento evangélico, em especial, o das igrejas e movimentos pentecostais. Todas estas expressões, além de outras, formam um quadro complexo e de matizes as mais diferenciadas, ainda mais se forem somadas as formas religiosas seculares e culturais, como as terapêuticas, de autoajuda, econômicas, midiáticas e de entretenimento.

Isto tem levado ao fato dos temas relativos ao pluralismo e à diversidade religiosa estarem ganhando destaque no debate acadêmico atual, mas também em outros setores sociais como as esferas da educação e da cultura, os espaços públicos e as mídias. Em parte, tal ênfase se dá como resposta à realidade sociocultural na qual encontramos nas últimas décadas, como já referido, maior visibilidade da diferença religiosa, no Brasil e no mundo, maior intensidade no debate sobre religião e democracia, especialmente os temas ligados à laicidade do Estado, mas também a ambiguidade de termos, ao mesmo tempo, situações conflitivas e busca de diálogo entre grupos religiosos distintos em diferentes áreas da vida social.

Outro elemento de destaque são as experiências de dupla ou múltipla participação (ou pertença) religiosa. Elas são vivenciadas nas fronteiras e “entrelugares” das culturas. O que temos levado em conta em nossas análises, especialmente quando nos referimos ao princípio pluralista, é a complexidade da realidade, não somente religiosa, mas também sociocultural.  Há um ritmo acelerado das mudanças culturais em curso que engendram novas características no quadro de pluralismo. Os processos de globalização são amplos e diversos e acentuam a velocidade das alterações culturais, e geram certo ineditismo nas mais recentes configurações religiosas e nas crescentes formas de hibridismo, que se fortalecem sobretudo nas áreas fronteiriças das culturas.

As fronteiras se dão também na medida em que as diferentes expressões religiosas no Brasil, assim como a diversidade interna de cada grupo religioso, possuem diferentes e mutáveis compreensões políticas e variadas visões de mundo, muitas vezes até mesmo antagônicas. Além disso, a maioria das experiências religiosas e inter-religiosas no país tem mantido ora um forte apelo de manutenção do status quo e ora é constituída de forte crítica social e estabelece, dessa forma, uma complexa relação entre religião, política e economia. As duplas ou múltiplas pertenças religiosas se dão dentro do quadro destas ambivalências culturais.

Outro aspecto são as formas de trânsito religioso. Elas se dão, não apenas na migração de uma religião para a outra, mas também na recomposição simbólico-cultural de diferentes sistemas de crenças. Isto se dá em diferentes tipos de expressão religiosa: (i) o que afirma determinada pertença e admite experimentar outras expressões religiosas, (ii) o que, por motivos externos nem sempre confessáveis, declara uma religião mas exerce outra, (iii) o que harmoniza e integra relativamente bem mais de uma tradição religiosa, (iv) o que não adere à uma religião específica, mas transita por mais de uma, e (v) aquele que, mesmo mantendo a sua pertença religiosa, articula elementos simbólico-rituais de outras religiões.

O Censo demográfico feito pelo Governo Federal em 2010 por intermédio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) possui uma metodologia bastante apurada e é um instrumento de compreensão da diversidade religiosa brasileira. No entanto, tal metodologia não permite definir com maior nitidez, por exemplo, a pluralidade religiosa dentro de uma mesma família, fenômeno cada vez mais comum e crescente na realidade brasileira. O mesmo ocorre com grupos indígenas, onde a relação entre religião e cultura é complexa e não facilmente descrita e objetivada. Neste sentido, os dados quantitativos não são suficientes para uma análise mais apurada do panorama do pluralismo religioso brasileiro onde as crenças e práticas são mais significativas do que o pertencimento formal ou institucional.

Outro aspecto fundamental para o debate sobre o pluralismo religioso que o Censo não se propõe a aferir são as tendências não explicitamente religiosas, mas que marcam o imaginário e o cotidiano do brasileiro como terapias holísticas, expressões mágicas e místicas particulares e de pequenos grupos, estruturas celulares (“pequenos grupos”) de organização eclesial, estas encontradas especialmente no campo evangélico, e formas variadas de recomposição sincrética de cosmovisões católicas, espíritas, afro-brasileiras e orientais.

Outro dado que se destaca e reforça o pluralismo é o aumento do número de pessoas que se declaram sem religião, oito por cento. Ele somente não está acima dos grupos católicos e evangélicos.

 Eixos verticais que diversificam ainda mais o quadro religioso

São vários os elementos que, de uma forma vertical, incidem simultaneamente sobre as diferentes expressões religiosas, intensificando a diversidade das religiões (distinguidas horizontalmente), que, como visto, já é muito grande. Vamos destacar apenas dois destes elementos:

1. A diferença política e ideológica.

Este é um fator de intensificação da diversidade religiosa, pois reforça no interior das expressões religiosas, mas também na relação entre elas, visões e posicionamentos distintos em relação à variados aspectos da vida. No debate sobre pluralismo e diversidade religiosa e a relação dele com a sociedade, seguimos a compreensão de que toda e qualquer ação ou reflexão sobre democracia e/ou direitos humanos, típicas das visões decoloniais, requer análises mais consistentes e posicionamentos mais nítidos acerca das questões que lhe são mais diretamente relacionadas. A lista não é pequena, mas destacamos o combate aos racismos, ao sexismo e ao homofobismo, a visão ecumênica intra e inter-religiosa, a luta contra formas de obscurantismos e fundamentalismos, em geral violentos e sectários, e, especialmente, a crítica ao sistema capitalista como produtor de desigualdades sociais, violência e pobreza.

Realçamos que não se trata de questões paralelas, uma ao lado da outra, mas, sim, de um amálgama e entrelaçamento sociocultural que necessita de permanente e profunda crítica ao sistema econômico, com foco na reflexão e ação sobre as causas das divisões que acontecem na sociedade. No caso das religiões no Brasil, tanto pelas históricas dificuldades no tratamento de tais questões quanto pela riqueza teológica de vários grupos que reagiram aos processos dominantes e se colocaram francamente a favor do aprofundamento da democracia e dos direitos, esse processo avaliativo, reflexivo e propositivo torna-se cada vez mais imperativo. Ele compõe o princípio pluralista.

Neste aspecto, há o surgimento e o fortalecimento de vários grupos no interior das diferentes expressões religiosas que se alinham contra ou favor das aberturas sociais. No espectro dos ideais das lutas democráticas e da valorização da diversidade e dos direitos, há, por exemplo, grupos como “Espíritas pelos Direitos Humanos”, “Adventistas de Esquerda”, “Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito”, “Cristãos contra o Fascismo”, “Católicas pelo Direito de Decidir”, “Judeus pela Democracia”, além de outros que, com maior ou menor visibilidade e poder de expressão, intensificam o quadro de diferença religiosa

2 . Diversidade sexual e de gênero.

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Outro elemento que ganha destaque como fator de diversificação das diferenças internas em cada religião é a diversidade sexual e de gênero, a qual de forma crescente marca a sociedade. Ele está ligado à dimensão antropológica que motiva e cria novas linguagens religiosas e teológicas, forjadas nas expressões da corporeidade, da sexualidade e dos desejos humanos. Tais linguagens e práticas estão associadas às dimensões místicas e criativas de formas de vida marcadas pela alteridade, pela afirmação da diferença, pela poesia e pelo empoderamento de grupos subalternizados como os LGBTI+, grupos de base especialmente de mulheres, de negros, de negras e de jovens.

Tal visão gera formas de espiritualidades centradas na realidade corporificada no cotidiano, tanto nas dimensões de prazer como nas de dor, incluindo as mudanças e os processos do corpo, da vida pessoal, da autoafirmação e, ao mesmo tempo conectada ao compromisso social e atividade política. Dessas espiritualidades surgem as possibilidades de afirmação do corpo, tanto em seu poder erótico como em seu poder criativo de dar a vida e de ser fonte de novas visões de fé.

O esforço teológico em buscar novas imagens de Deus está centrado nas expressões de fé que estejam preocupadas com as situações de opressão e de violência que marcam a vida de parcelas consideráveis da população, especialmente mulheres. Tal expressão do sagrado, despida de androcentrismos e as consequentes formas de patriarcalismos, sexismos e heteronormatividades, valoriza o corpo, a sexualidade, o cuidado e a proteção da natureza com uma consequente responsabilidade ética pela criação.

No campo cristão, tanto no lado católico quanto no evangélico, há iniciativas significativas nesta direção realizadas por setores das teologias poéticas, ecológicas, feministas e queer, como as produções e iniciativas no campo latino-americano de Ivone Gebara, Elza Tamez, Rubem Alves, Marcella Althaus-Reid, Andre Musskopf, Ana Ester Freire e outras vozes emergentes sobretudo de jovens. No campo prático, são muitos os grupos, parte deles sem a visibilidade devida, mas que atuam em diversas frentes com força significativa. Além do já referido “Católicas pelo Direito de Decidir”, que pauta questões relativas aos direitos reprodutivos e de gênero, há também a “Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT”, Evangélicxs pela Diversidade” e “Evangélicas pela Igualdade de Gênero – EIG”, entre outros.

As reações conservadoras à estas visões são muitas, a maior parte delas com forte organização e apoio institucional, e, agora mais recentemente no Brasil, com apoio do governo federal. Tais práticas e discursos geram ou reforçam um quadro de diferença religiosa bastante polarizado e diversificado.

 E por fim…

 As novas configurações religiosas realçam o quadro de pluralismo e de diversidade, em pelo menos duas esferas. Primeiramente dentro do campo especificamente religioso, tanto nas fronteiras das diversificações internas de cada grupo – o que nos leva a nos referirmos sempre no plural: espiritismos, cristianismos, catolicismos, pentecostalismos, candomblés, umbandas, encantarias, islamismos -, quanto nas fronteiras e interações inter-religiosas, que podem ser conflitivas ou harmoniosas.

A segunda esfera refere-se às interações das vivências religiosas com dimensões públicas e seculares da cultura expressas na vida cotidiana, tais como práticas econômicas, formas de entretenimento, exercícios terapêuticos e de valorização da saúde, espiritualidades não explicitamente religiosas e outras. Tais zonas fronteiriças, somadas à esfera especificamente religiosa, fazem com que o campo religioso se torne cada vez mais complexo e diversificado.

Cada vez mais, percebemos o valor do princípio pluralista.