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Religião À Brasileira: diversidade e intolerância no país das contradições

Religião À Brasileira: diversidade e intolerância no país das contradições

O tema da diversidade religiosa no Brasil toca diretamente na nossa formação identitária como povo. Desde os povos originários e suas cosmologias, passando pelo catolicismo dos invasores europeus, pelos rituais trazidos pelos pretos escravizados vindos da África e por tantas outras tradições trazidas pelos diversos fluxos migratórios que vivemos ao longo da história. Somos um reflexo do diálogo, das interações e, também, dos conflitos dessa pluralidade cultural e religiosa que nos perpassa.

Torna-se impossível, portanto, para esta que escreve tratar da diversidade religiosa no Brasil a partir somente de dados e números históricos, demográficos, geográficos, embora os considere absolutamente necessários. Falar de diversidade religiosa é falar de minha própria história e da história de todos nós. Então, peço licença para um breve relato biográfico.

Nasci em Minas Gerais, no fim da década de 1970, em uma família branca de classe média, com antepassados italianos, portugueses e, é claro, indígenas e africanos. Meus avós maternos, do interior de Goiás, eram católicos praticantes e, com eles, sempre fui à missa, aprendi a rezar o terço, a cantar canções da Igreja, participei de novenas, etc. Muito por causa deles, fui batizada e fiz primeira comunhão. Minha avó paterna nunca “se assumiu” publicamente, mas sempre flertou com o espiritismo dito kardecista. Lia os livros clássicos psicografados por Chico Xavier e outros médiuns, às vezes me levava para tomar um passe e foi a principal responsável por eu ter procurado um centro espírita, quando me dei conta de que tinha uma mediunidade muito aflorada. Frequentei e trabalhei como médium em um centro espírita por 5 anos.

Meus pais são artistas e nos mudamos para o Rio no início da vida. Lá, tive contato com todo o tipo de gente e de culturas diversas. Minha mãe sempre foi uma buscadora espiritual e, com ela, tive a oportunidade de frequentar e conhecer diversas práticas e tradições: o Santo Daime, a Self-Realization Fellowship (instituição fundada por Paramahansa Iogananda, onde se pratica técnicas de meditação e ioga), o Mahikari (movimento religioso moderno japonês, baseado no budismo), o movimento Hare Krishna, a astrologia, o tarô, o I Ching (oráculos milenares de diferentes tradições e filosofias)… Meu pai se diz ateu, mas tinha sido coroinha da igreja católica na infância e, já adulto, frequentava o candomblé. À nossa volta, as pessoas viviam suas experiências espirituais de forma muito livre e, hoje, paro e percebo a beleza disso e, também, o quanto tudo mudou nos últimos 40 anos, em especial, a partir dos anos 2000.

É claro que, naquela época, os episódios de intolerância religiosa aconteciam e que esse paraíso da diversidade em que eu vivia, era um recorte sócio-econômico-cultural envolto de muitos privilégios. No entanto, percebo claramente o quanto essa liberdade espiritual que se tinha há tempos atrás de transitar entre as diversas tradições que compõem nossa identidade, não existe mais ou, pelo menos, não é mais tão evidente. Mas, por que será que isso aconteceu?

 

Liberdade religiosa x fundamentalismo religioso

Segundo Cláudio Ribeiro (2019), a diversidade religiosa ou o pluralismo religioso, no Brasil, estão diretamente associados ao “que se denomina usualmente como ‘dupla’ ou ‘múltipla pertença religiosa’, de difícil compreensão e análise”, pois trata-se de experiências que “em geral são ocultadas e, por isso, muito pouco avaliadas”. (p.13). E isto se dá, muitas vezes, pelo fato dos próprios sujeitos não se sentirem de fato inseridos nesta categoria, que está diretamente relacionada a uma “simbiose” entre os diversos elementos que compõem historicamente nossa formação cultural e religiosa. No campo acadêmico, essa experiência foi classificada por alguns teóricos de “religião à la carte”. Expressão inadequada a meu ver, pois denota um certo desprezo por tais experiências que podem ser tão ricas e profundas, ou mais, do que a experiência de se ter uma só religião ao longo de toda a vida. Além de demarcar um território importante da liberdade religiosa.

O fato é que essa fluidez religiosa começou a se enrijecer quando a religião passou a ser cada vez mais orientada por uma lógica mercadológica que disputa fiéis como quem disputa mercado consumidor. Essa lógica veio acompanhada, não por acaso, por uma crescente aproximação entre instituições religiosas e partidos políticos. No caso brasileiro, essa aproximação deu-se em grande parte entre igrejas neopentecostais e partidos da direita e da extrema direita, o que culminou com a eleição de Jair Bolsonaro à presidência da república, em 2018. 1Ver CUNHA, Magali do Nascimento. A ascensão da direita religiosa no Brasil contemporâneo. In: LELLIS, Nelson; RIBEIRO, Claudio de Oliveira (Orgs.). São Paulo: Recriar, 2019, p. 23-35. Ora, tal lógica não pode ser bem-sucedida dentro de um cenário de múltiplas pertenças e de diversidade religiosa, pois torna-se necessário um acirramento de posições, uma polaridade que possa demarcar o território e, assim, eliminar o “concorrente”.

Essa lógica mercadológica, portanto, associada à relação com as esferas do poder político, fomenta o fundamentalismo religioso e, com ele, a intolerância religiosa. No caso brasileiro, os atos de intolerância têm ainda como pano de fundo o racismo estrutural que permeia as relações sociais desde o período da escravidão. Por isso, as religiões de matriz africana tem sido as mais atacadas e atingidas, mas não são as únicas. A intolerância e o preconceito acontecem e aparecem de diversas formas e em várias direções. Assim, como aqui na França (onde vivo) e nos países ditos “do norte” de forma geral, há uma generalização do Islã como sendo uma religião de radicais fundamentalistas, o mesmo acontece no Brasil com relação aos evangélicos. Há, também, o preconceito com relação àqueles que se dizem ateus e ateias ou sem religião.

Mas, como podemos romper este ciclo e reestabelecer a pluralidade da nossa riqueza identitária cultural e religiosa?

A atitude pluralista e o príncipio pluralista

Quando fui buscar a pós-graduação em Ciências da Religião, não fazia a menor ideia de que o “pluralismo religioso” e o “diálogo inter-religioso” eram conceitos, temas de pesquisa, disciplinas do campo dos estudos da religião. Então, percebi ali uma forma de compreender essas diversas vozes que sempre conversaram dentro de mim e ao meu redor. Não por acaso, comecei a pesquisar a obra de Raimon Panikkar (1918-2010), um autor que declara sua múltipla pertença e que pensa a interculturalidade como método para as Ciências da Religião. Proposta esta que estou pesquisando, neste momento, no meu doutorado.

Outra proposta interessante do autor catalão sobre o assunto é o que ele chama de “atitude pluralista”. Trata-se do reconhecimento de que somos capazes de apreender, apenas, uma parte do mistério que envolve a realidade, – que podemos chamar de Deus ou de qualquer outro nome que faça sentido para nós -, e aceitar que outras pessoas apreendem outros pedaços, outras nuances, sentem outras texturas e outros relevos deste mesmo mistério. O problema está quando acreditamos ser os detentores do conhecimento sobre esse “mistério”. Ao reconhecermos que a nossa perspectiva é uma das possíveis visões daquilo que vai além do que a nossa visão alcança, talvez (mas, não necessariamente), alcancemos um “espaço comum”, onde essas diferentes perspectivas pudessem se encontrar. Assim, podemos “[…] ouvir e respeitar o discurso dos outros, entrar em diálogo com eles”. (PANIKKAR, 1996, p. 247). Seria preciso reconhecer que o próprio ser humano é pluralista e não tem como conhecer toda a verdade, mas enxergar, respeitar e estar aberto ao pluralismo inerente ao outro também. Dessa forma, a atitude pluralista nos auxiliaria, então, a descobrir nossa própria identidade, nossa própria visão de mundo, seja ela religiosa, cultural, filosófica ou política, ao reconhecermos a diversidade que existe dentro de nós, na nossa própria complexidade.

Consideramos esta uma abordagem pertinente, principalmente, para nossa prática cotidiana, porque enxerga uma harmonia na diversidade. Não se trata de abrir mão de suas próprias visões de mundo para aceitar a do outro, mas de reconhecer que sua perspectiva não é a verdade absoluta e estar aberto ao relacionamento com quem pensa diferente. Nos parece uma visão pertinente, também, para a situação atual na política brasileira, para as questões de igualdade de gênero, de liberdade sexual, etc.

Destacamos, também, a abordagem, desenvolvida por Cláudio Ribeiro (2020), o “princípio pluralista”, que se constitui em um método hermenêutico, ou seja, um instrumento de análise e de interpretação que pode ser utilizado tanto pela Teologia quanto pela Ciências da Religião e suas subdisciplinas. Trata-se de uma abordagem com grande potencial de bons resultados, tanto no ensino quanto nos estudos da religião, dentro de um ambiente de complexidade multicultural, como é o caso brasileiro e latino-americano. Tal princípio tem como “pilares conceituais” a teologia da alteridade ecumênica e a perspectiva decolonial e apresenta possibilidades de uma aplicabilidade bastante concreta na prática de diálogos inter-religiosos e interculturais.

Assim como Panikkar, Ribeiro destaca a importância de se considerar “as particularidades, as singularidades e a concretude das vivências”, mas amplia esta concepção – a partir do pensamento de autores e autoras como Homi Bhabha, Boaventura de Sousa Santos, Kwok Pui-Lan, entre outras e outros – ao reconhecer a formação de “novas culturas híbridas”, que ocorrem nesses “entre-lugares”, o que inclui as múltiplas pertenças mencionadas anteriormente. O que Ribeiro nomeia de “alteridade ecumênica” evoca: “as possibilidades de aproximações inter-religiosas”, a superação dos paradigmas, “a visão de que cada expressão religiosa tem sua proposta salvífica e de fé, que devem ser aceitas, respeitadas, valorizadas e aprimoradas”. (RIBEIRO, 2020, p.22).

Os dois conceitos enriquecem-se mutuamente e, bem articulados, podem ser um excelente instrumento de análise para os estudos das religiões, não só no contexto latino-americano, mas também europeu e norte-americano e diria que uma chave fundamental para a aplicabilidade em diálogos inter-religiosos e interculturais. Um estudo mais aprofundado dessa articulação estará no livro que será lançado ainda neste semestre, O Princípio Pluralista em Debate, também organizado por Cláudio Ribeiro.

 

Considerações Finais

Ao olhar para trás para a minha própria história, penso que tenha sido fundamental para a minha formação como cientista da religião, mas ainda mais como ser humano, a exposição a diversas tradições e culturas. Inclusive para que eu pudesse fazer minha opção por uma prática espiritual não-religiosa, mas que com toda certeza traz influências dessa experiência plural.

O que fica claro, a meu ver, com relação à diversidade religiosa no Brasil é a necessidade de que a informação e a educação estejam em consonância com esta diversidade. Ou seja, quanto mais consciência se tem das diversas nuances que compõem nossa identidade cultural e religiosa, mais se tem instrumentos de combate à intolerância e ao preconceito. Tais instrumentos não são armas, mas argumentos, gestos, palavras e, principalmente, ações. Agir em defesa da diversidade religiosa e contra a intolerância e o preconceito. Enxergar as teias que compõem as relações de poder que nos aprisionam a atitudes engessadas no radicalismo e no fundamentalismo são consequências deste processo de conhecimento. Pois, conhecer outras religiões e outras visões de mundo é conhecer a nossa própria história, a nossa identidade plural, ainda que tenhamos fincado raízes em uma só tradição.

 


Referências

GRASSI, Rita. A atitude pluralista de Raimon Panikkar e suas possíveis aproximações com o princípio pluralista. In: RIBEIRO, Cláudio de Oliveira (Org.). O princípio pluralista em debate. São Paulo: Recriar, 2021.

GRASSI, Rita; PANASIEWICZ, Roberlei. Cristofania na realidade cosmoteândrica: cristologia de Raimon Panikkar e implicações para o Diálogo Inter-religoso e Intercultural. Pistis & Praxis. Curitiba, v. 12, n.1, p.92-116, jan./abr., 2020.

RIBEIRO, Cláudio de Oliveira. Dupla e múltipla pertença religiosa no Brasil. In: RIBEIRO, Cláudio de Oliveira; TOSTES, Angélica (Org.). Religião, diálogo e múltiplas pertenças. São Paulo: Annablume, 2019.

Notas

  • 1
    Ver CUNHA, Magali do Nascimento. A ascensão da direita religiosa no Brasil contemporâneo. In: LELLIS, Nelson; RIBEIRO, Claudio de Oliveira (Orgs.). São Paulo: Recriar, 2019, p. 23-35.