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Entre tensões e tesões: HIV/aids e Igreja Católica

Entre tensões e tesões: HIV/aids e Igreja Católica

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No início da década de 1980, o surgimento da epidemia de aids fez emergir inúmeras questões para as sociedades. Antes de sua descoberta etiológica, e até mesmo depois dela, a doença serviu de pretexto para a proliferação de concepções retrógradas acerca do corpo e da sexualidade. Antes da epidemia, já vinham sendo questionadas as configurações afetivo-sexuais da tradicional família burguesa, o patriarcado e as violências do machismo, a desigualdade entre brancos e não brancos, o modelo econômico capitalista, entre outras problemáticas evidenciadas pelos mais diversos movimentos, a exemplo dos contraculturais, feministas, negros e “homossexuais”. Lembremos do surgimento dos métodos contraceptivos na década de 1960, que deu às mulheres a possibilidade de escolha acerca de seus direitos reprodutivos e sexuais, e também da chamada “Revolta de Stonewall”, ocorrida em 1969 nos Estados Unidos, e que ajudou a consolidar o que hoje chamamos de movimento LGBTI+.

Diante das transformações sociais pelas quais o mundo vinha passando, o surgimento da epidemia de aids impactou o processo de “liberação sexual”, principalmente o da comunidade gay, que paulatinamente mostrava as suas cores após décadas de escuridão dos armários. As primeiras comunidades mais afetadas pela epidemia foram aquelas historicamente marginalizadas socialmente: gays, trabalhadores sexuais e usuários de drogas injetáveis. E foram elas, pela força da homofobia e do preconceito, que serviram de “estampa” para uma doença até então desconhecida.

Isso porque as instituições sociais buscaram forjar significados para um fenômeno complexo. Em busca de explicar o surgimento e a causa das infecções, parte da comunidade médica criou diversas nomenclaturas, entre elas gay penumonie, gay cancer, Gay-Related Immune Deficienty (GRID) e gay compromise syndrome. A caracterização da aids como uma “doença gay” teve como propulsor a medicina e, posteriormente, foi disseminada pelos veículos de comunicação. Como explica Perlongher (1987), ávida por lucro e espetáculo, a imprensa colaborou para a sensacionalização da temática, explorando, discursiva e imageticamente, a culpa, a vergonha e a debilidade dos corpos atingidos pelo adoecimento.

Na equação da polifonia acerca da aids, entram em cena os setores religiosos, principalmente cristãos, que encontraram na “doença gay” um terreno fecundo para o exercício de seu conservadorismo. Assim, a aids foi utilizada pelo cristianismo como baluarte de uma suposta “degradação” moral oriunda das transformações sociais que vinham ocorrendo em décadas anteriores.

Historicamente as sociedades sempre buscaram constituir significados para as doenças a partir de suas configurações sociais, históricas, culturais e religiosas. A metáfora mais comum que há séculos reveste as epidemias é a imagem da “peste”, geralmente vinculada a algum tipo de punição divina. Lembremos do castigo de Deus contra os filisteus que roubaram a arca do Senhor dos hebreus: uma “peste” que castigou adultos e crianças, ferindo e matando em larga escala os povos do período histórico retratado. A ideia de doença como um castigo divino, concepção bastante vinculada às religiões cristãs, mas não só, sobrevive milenarmente e ganha outros contornos com a epidemia de aids. Em vista da visibilidade que a comunidade homossexual vinha ganhando, os direitos historicamente conquistados pelas feministas, e o questionamento quanto às normas sociais vigentes, logo os setores religiosos encontram na epidemia da aids o sentido da “degradação moral” das sociedades que, como posto, vinham questionando os padrões afetivo-sexuais (SONTAG, 2007). Em outros termos, a “promiscuidade” dos gays, a “deturpação dos valores familiares” e o “desvio da moral e dos bons costumes” foram alguns dos “sintomas” que a Igreja Católica identificou em um mundo que, a partir de sua concepção conservadora, estaria “doente”.

Com o advento do HIV/aids, surge também a popularização do uso de preservativos que passa a ser o estandarte do enfrentamento contra a disseminação do vírus. O uso de preservativos foi historicamente condenado pela Igreja Católica, cuja ideia de sexo perpassa primordialmente a funcionalidade reprodutiva. Aos olhos católicos, mais do que uma ferramenta preventiva, a camisinha representava o rompimento da ideia de sexo como prática exclusiva para a procriação – um “desrespeito” contra a concepção e à vida, portanto. Entre a emergência de uma questão de saúde pública e a defesa de um discurso culturalmente retrógrado, a igreja tendeu a lutar pela segunda opção, ainda que seja impossível afirmar a homogeneidade das ações cristãs perante a aids e as pessoas soropositivas.

A relação do cristianismo com o sexo, o corpo e a reprodução encontrou na aids muitas tensões, a começar pelos impactos da epidemia no seio das comunidades religiosas. O adoecimento e a morte de seminaristas e outras pessoas religiosas, leigas ou não, foi um desafio que a Igreja Católica teve de enfrentar a partir de suas próprias contradições (PAIVA et al, 2013). Mesmo diante de seu evidente posicionamento conservador perante a sexualidade, a Igreja Católica e outras religiões cristãs também buscaram meios para enfrentar a epidemia dentro e fora do âmbito religioso. Há organizações religiosas que desempenharam importante papel na resposta ao HIV/aids, desde o início da epidemia. A Casa Forte Colombo coordenada por freis capuchinhos, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), a ação Apoio, Solidariedade e Prevenção à Aids (ASPA), de estudantes luteranos de teologia, a Fundação Diaconia e a Escola Superior de Teologia (EST) são apenas alguns exemplos de organizações religiosas que desenvolveram ações e projetos em prol dos direitos e da dignidade das pessoas vivendo com HIV/aids e contra a disseminação do vírus (SEFFNER et al, 2008).

O posicionamento católico quanto ao uso de preservativos dividiu opiniões entre os próprios arcebispos. Um nítido exemplo é o posicionamento conservador e moralizador de D. Eugênio Sales, do Rio de Janeiro, e a postura solidária de D. Paulo Evaristo Arns, de São Paulo. Enquanto o primeiro se engajava no ataque contra os grupos mais atingidos pela epidemia, o segundo orientava-se por uma visão pautada nos Direitos Humanos. É válido recordar da posição pública de Pe. Valeriano Paitoni, abertamente favorável ao uso do preservativo e crítico ao posicionamento conservador do Vaticano frente à sexualidade. Também ressaltamos que o posicionamento humanizado partiu dos grupos cristãos, incluindo católicos, evangélicos e protestantes, mais alinhados às ideias progressistas da Teologia da Libertação (PAIVA et al, 2013).

Apesar de suas tensões internas e a pluralidade de concepções sobre a aids por parte dos religiosos, desde a década de 1990 a Igreja Católica tem participado de articulações com o Estado brasileiro. O surgimento da Pastoral da Aids, vinculada à Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), tem suas raízes fincadas em diálogos com o Ministério da Saúde: em 1999, a Pastoral da Saúde criou uma comissão nacional para discutir especificamente a problemática do HIV/aids. O ano seguinte é marcado pelo 1º Seminário “Aids e os desafios para a Igreja Católica do Brasil” e a criação definitiva da Pastoral da Aids. Mesmo diante da institucionalização da pastoral, ela não encontra unanimidade entre as lideranças religiosas, não sendo bem vinda em todas as paróquias, tendo em vista que a instalação de determinada pastoral em dioceses ou paróquias é realizada somente após a consulta e concordância do bispo ou padre (SEFFNER et al, 2008).

De lá para cá, o posicionamento da Igreja Católica encontra alguma moderação quanto ao posicionamento em relação aos preservativos. Ao trazer a pauta para o âmbito de sua instituição, chama a atenção para a sua urgência, ao mesmo tempo que conserva a defesa da castidade para as pessoas solteiras e a fidelidade para os casais. As práticas sexuais com o uso de preservativo são aceitas em determinadas condições e casos, mas ainda são encaradas como desviantes pela moral cristã (TRASFERETTI, 2012). É possível observar a importante transformação da visão da Igreja Católica sobre o HIV/aids, instituição que precisou enfrentar seus silêncios e hipocrisias para promover respostas a uma epidemia que não mais permitia ser jogada para debaixo do tapete.

Se as religiões cristãs, em especial o catolicismo, foram evidentemente responsáveis por muitos dos preconceitos que ainda rondam o HIV/aids, também é necessário considerar a sua contribuição positiva para o apoio das pessoas doentes e a superação do estigma. A epidemia de HIV/aids é um nítido exemplo de como a Igreja Católica não é unânime quanto às suas concepções de mundo e de fé, e de como existe, por vezes, um abismo entre o discurso hegemônico das hierarquias do Vaticano e as práticas pastorais promovidas pelo povo. Da mesma forma que não encontra homogeneidade quanto a outras pautas ainda consideradas “polêmicas”, como a participação de LGBTI+ nos espaços de fé, a posição das mulheres nas igrejas e as percepções sobre a legalização ou descriminalização do aborto.

O moralismo cristão esquece, ou procura esquecer, que religiosos e leigos também exercem a sua sexualidade, seja dentro ou fora das normas. A abstinência sexual é um oásis que o cristianismo tem no horizonte, mas que nem sempre consegue alcançar. E a epidemia de HIV/aids apenas evidenciou a fragilidade desse discurso. Ao reconhecer (ou ao se ver obrigada a reconhecer) a urgência da questão do HIV/aids, a Igreja Católica, enquanto instituição, trouxe para dentro de suas igrejas a espinhosa discussão, mas sempre orientada pelos sins e pelos nãos ditados pela hierarquia católica. Portanto, a percepção católica acerca da aids, e as pessoas afetadas por ela, precisou ser adaptada diante do enfrentamento à epidemia que também atingiu de perto os seus integrantes.

Um breve panorama do HIV/aids, em interface com a instituição católica, nos permite observar um cenário contrastante entre a condenação e a solidariedade, a negação do preservativo e as evidências científicas, o abismo entre a moral cristã e a realidade dos fiéis. A Igreja Católica apostou em pequenas – mas significativas – mudanças quanto ao uso de preservativos. E deveria seguir caminho semelhante quanto a outras questões, a exemplo da legalização do aborto. Se a hierarquia patriarcal do Vaticano ainda não consegue reconhecer o aborto como um respeito ao livre arbítrio e à autonomia das mulheres e de outras pessoas com útero, poderia, ao menos, reconhecê-lo como uma urgente questão de saúde pública, já que, quando realizado de maneira clandestina e ilegal, o procedimento pode colocar em risco a vida das mulheres de suas igrejas. Não é forçoso pontuar que o procedimento de interrupção voluntária da gravidez foi realizado 56% por católicas e 26% por evangélicas, de acordo com a Pesquisa Nacional do Aborto, de 2016 (Anis Instituto de Bioética e Universidade de Brasília – UnB). Ou seja, a maioria das mulheres que abortam no Brasil são de religiões cristãs.

Entre as tensões da moral cristã perante as sexualidades dissidentes, há também os tesões que impulsionam o verdadeiro espírito do cristianismo na construção de uma solidariedade que enfrente o preconceito e afirme a vida e a saúde. Reconhecer que o próprio moralismo pode ser prejudicial à saúde é o trajeto mais importante para uma compreensão de humanidade que reconheça a sexualidade como algo natural e benéfico. Porque tudo é vida longe do pecado.

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REFERÊNCIAS

PAIVA, Vera Silvia Facciolla; FERRARA, Andrea Paula; SANTOS, Mafoane Odara Poli;  PARKER, Richard. Enfrentamento religioso e política: as lições da resposta à Aids. Temas em psicologia. 2013, v. 21, n. 3. p. 883-902.

PERLONGHER, Nestor. O que é Aids. São Paulo: Brasiliense, 1987.

SEFFNER, Fernando et al. Respostas religiosas à AIDS no Brasil: impressões de pesquisa acerca da pastoral de DST/AIDS da Igreja Católica. Ciencias Sociales y Religión/Ciências Sociais e Religião, 2008, v. 10, n. 10. p. 159-180.

SONTAG, Susan. Doença como metáfora, Aids e suas metáforas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

TRASFERETTI, José. Teologia da prevenção no contexto da AIDS. Vida pastoral, jan-fev. 2012, ano 53, n. 282.

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