Now Reading
Esterilidade no mundo antigo: Ensaio acerca da violência religiosa sobre o corpo e o prazer femininos

Esterilidade no mundo antigo: Ensaio acerca da violência religiosa sobre o corpo e o prazer femininos

Falar da esterilidade no mundo antigo é falar obrigatoriamente sobre terra e sobre a figura da mulher. A terra fértil é uma terra boa. E ela é boa e fértil por ter sido abençoada por Deus. A promessa dada a Abraão é sobre uma terra fértil, que mana leite e mel. Por outro lado, uma terra que não dá o seu fruto, era interpretada como uma terra amaldiçoada por Deus por causa do pecado de uma tribo ou de um povo específico.

Quando se fala de mulher, não é muito diferente. A mulher que gera filhos é uma mulher bem-aventurada. Por outro lado, a mulher que é estéril ouve da comunidade algo corriqueiro: Deus cerrou, fechou seu ventre. A mulher no mundo antigo que fosse considerada estéril, era vista como um ramo seco, presença morta.

Uma mulher que não gerasse filhos por si, tinha uma saída: pegava sua escrava e a entregava ao seu marido. Essa relação era muito comum nos tempos antigos. Talvez uma das narrativas mais conhecidas e mais potentes sobre essa relação vem da casa de Abrão e Sarai. Sarai era idosa e estéril, mas tinha uma escrava egípcia chamada Agar. Abrão tem relação com Agar e ela gera Ismael. Só depois, segundo a narrativa, Deus informa a Sarai, que depois será chamada de Sara, que ela daria um filho a Abraão por si mesma. Daí, nasce o Isaque.

Logo em seguida, o texto de Gênesis registra o caso de outra mulher: Raquel, que também é estéril. Em Antiguidades Bíblicas, de Pseudo-Fílon, Penina cita que Jacó não permaneceu com Raquel por causa da sua formosura, mas porque ela, depois da bênção de Javé, gerou filhos. Para quem não está familiarizado com a história, Penina é uma das esposas de Elcana. Ela gera filhos para seu marido enquanto Ana, a outra mulher, embora formosa e muito boa esposa, é estéril.

Portanto, ao falarmos da questão da esterilidade, não estamos apenas abordando a violência simbólica sobre o corpo da mulher do mundo antigo, mas também das sensações, dos prazeres que às mulheres eram negados à luz de uma teologia marcadamente patriarcal e dominadora.

 

Pois bem… algumas questões que precisam ser apontadas. A primeira delas é a importância do filho para o povo judeu. A mulher nessa relação é importante para: gerar e educar. Mesmo com essas funções, ela ainda é coisa, ainda é propriedade do marido. Só um exemplo: quando, no Decálogo, se fala para não cobiçar a mulher do próximo, a mulher está elencada entre o gado e a terra do homem. Ou seja, ela é posse.

 VEJA TAMBÉM

Voltando… é importante que a mulher gere filhos para o homem porque essa, dentre outras coisas, é a maneira em que o judeu continua vivo na terra. Sem essa descendência, ele é esquecido.

Outra questão: ao nascer o filho de uma mulher que antes era ou era apenas considerada estéril, esse filho é compreendido nos textos sagrados como um “milagre”. E existe uma fórmula bíblica em que esse filho, quando está em apuros, se apresentará a Javé. Ele dirá: “Senhor, sou teu servo, o filho da tua serva” (Sl. 116,). Alguém que foi escolhido para determinada missão. Essa serva quase sempre não tem nome. No caso desse salmo em especial, não tem nome porque ele é utilizado na comunidade por justaposição.

Uma curiosidade: as mandrágoras. Raphael Patai afirma que as mandrágoras continuaram sendo utilizadas como remédios nos séculos XIX e XX d.C. para prevenção e cura da esterilidade por mulheres árabes na Transjordânia e na Síria, além de mulheres sefarditas em Jerusalém. Em Jerusalém, além de serem consumidas, as mandrágoras eram atadas ao corpo com o intuito de engravidar. No séc. XVII d.C., as samaritanas costumavam colocar mandrágoras embaixo de suas camas para engravidarem. Há um texto ugarítico de Ras Shamra, datado do séc. XV ou XIV a.C., que se refere a um culto de fertilidade. Esse culto começava com as seguintes palavras: “Plantem mandrágoras (dim) na terra…”. Agora, no caso de Raquel, que tinha sua irmã Lia (ou Leia) que já havia gerado filhos para seu esposo, ela pede mandrágoras. Perceba: ela pede mandrágora para Lia, que já tinha filhos. Muitos pesquisadores se perguntam qual a finalidade das mandrágoras para Lia. Alguns entendem que pelo fato dela ter parado de gerar, as mandrágoras poderiam fazê-la retornar a gerar filhos. Mas, as mandrágoras, além de possuírem atributos alucinógenos, analgésicos, narcóticos, também são afrodisíacas. E dentro da narrativa, poderia haver, inclusive, um jogo de palavras, porque no livro de Cânticos 7,14, existe uma relação etimológica com a palavra “amor”. Cheiros e sabores são elementos fundamentais no mundo do desejo e da sexualidade, independentemente se esta tem fins reprodutivos ou não. O que sugere que esse livro discute seriamente a ideia do prazer feminino. Não resta dúvidas, portanto, que a Bíblia, embora seja um texto carregado de informações do mundo antigo, não retrata apenas a cultura dominante, mas por ali também buscam respirar grupos que reagem às violências teológicas que alcançam corpo e sensações.