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Pilatos tirou férias

Pilatos tirou férias

Ainda acho fascinante o que os vivos fazem com é nelas. É neles que os julgamentos acontecem, tomam forma, assumem a vida dos vivos e levam outras mãos, em arrastão. Tudo começou naquele dia com Pilatos, lavando as mãos ao lado do homem que tinham acabado de condenar naquela praça em Jerusalém. Só que não era o homem, cansado, humilhado, ajoelhado nas escadas, que marcava aquele momento para o sempre.  A reação da multidão que lotava a praça naquela manhã é marcante até hoje: torcer pela morte do outro é um espetáculo maior que a própria morte. E tudo começou com as mãos.

Tem vezes que eu sinto que os vivos são mais parecidos com Pilatos do que a imagem e semelhança do Deus Vivo. Afinal, é também com as mãos que eles apontam o culpado antes mesmo de julgá-lo. É com a mão que a arma surge na briga de trânsito e silencia o problema antes mesmo dele começar. E é com as mãos que a juíza pega o martelo de madeira e diz a sentença para a mãe, que pegou, também com as mãos, uma caixa de leite sem pagar, em busca de um alimento o filho recém-nascido. Curiosamente, essa cena é sempre adornada com aquele homem, humilhado na praça em Jerusalém, agonizando em uma cruz no alto da parede. Nunca irei entender isso.

Ao lavar as mãos, Pilatos tirou férias e jogou o ofício para a plateia. Já não era problema dele, mas da praça lotada. Nada mais humano do que isso. Tirou o sangue das mãos que começava a jorrar naquele dia. Foi ali que os vivos descobriram como condenar é um ato que cabe nas próprias mãos. Mais tarde, fariam brinquedos de metal, plástico e wi-fi para treinar os julgamentos com os dedos. Muito mais prático que lotar uma praça. Muito mais prático nas mãos.

E acompanhei o pobre coitado durante todo o calvário. E as mãos da multidão o sustentaram naquele momento, apontando a ele os erros que jamais cometeu no caminho até a cruz. Fiquei tentado em ajuda-lo, acabar logo com aquela agonia. Mas sabia que não era e meu momento ainda. E olhar dele parecia mais vivo do que nunca quando cedeu a vida, no alto da cruz e de braços abertos, após as preces para o céu que começava a escurecer. Não me contive em perguntar ao ver aqueles olhos:

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– Me diga: como eles fazem tudo isso somente com as mãos?

O silêncio dele dizia muita coisa. E o de Pilatos, enquanto lavava as mãos, mais ainda.