SEJA ASSINANTE APOIADOR(A)

SEJA ASSINANTE APOIADOR(A)

Apoie a produção de conteúdo gratuito

As testemunhas da ceia

As testemunhas da ceia
20 de agosto de 2020 Mateus Pedrini

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Em uma estante de madeira, os santos guardavam os moradores do apartamento 401.

Santa Terezinha, a mais recente, olhava cabisbaixa para o pai se lambuzando de um pedaço de sobrecoxa servido há pouco. Ele não se importava em pegar a carne com as próprias mãos e com os pingos de gordura amarela sujando sua camisa branca. É um rei em seu castelo imaginário. E ao ver o filho tentar pegar o outro pedaço de sobrecoxa, a única restante na caçarola, não se importou em baixar o nível e bater na mão do pupilo, sem dizer uma palavra e mandar o recado ao mesmo tempo. É compreensível a tristeza nos olhos de Santa Teresinha: é como se as flores que carrega em suas mãos fossem oferecidas ao pai.

Nossa Senhora do Silêncio, mesmo de olhos fechados, contemplava o choro do menino. Era manso, daqueles que não quer ser ouvido. Ele decidiu voltar ao celular, ainda triste, para assistir a um vídeo que havia sido interrompido quando tentava pegar um pedaço do frango. Estava com fome, mas sabia que era falta de educação comer sem que todos da família estivessem à mesa. E a mãe, interrompendo um vai-e-vem constante de panelas, copos, pratos e talheres, viu o menino ao celular e o repreende: “é hora de comer, e não de ficar usando essa porcaria”, disse arrancando o celular da mão do filho. Mais um choro engolido por ele. Mesmo em paz consigo mesma, Nossa Senhora do Silêncio rezava, pedindo dias melhores para aquela família e, principalmente, para o menino.

São Longuinho, mesmo pequeno na estante, iluminava o rosto da mãe com sua lanterna, tentando entender sua irritação. Ela nem teve tempo de sentar-se à mesa com a família e vê a comida indo embora aos poucos pela boca faminta do marido. Na última viagem à cozinha, pegou um suco de uva na geladeira, a única coisa que faltava. Ao voltar, não se surpreende de ver que só haviam sobrado pedaços ossudos do frango e que o marido já tinha saído da mesa sem se despedir. Mesmo assim, ela sentou-se, sem forças para tentar confrontar aquela ausência. Ajudou o filho a se servir com o que restava do almoço. São Longuinho buscava iluminar a mesa, ainda tentando entender o que havia naquele rosto.

Naquela sexta-feira santa, os santos eram as únicas testemunhas daquela triste ceia.

SEJA ASSINANTE APOIADOR(A): Apoie a produção de conteúdo gratuito

APOIE A SENSO
Inscreva-se na newsletter da Revista Senso e receba as novidades exclusivas em seu e-mail!