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As testemunhas da ceia

As testemunhas da ceia

Em uma estante de madeira, os santos guardavam os moradores do apartamento 401.

Santa Terezinha, a mais recente, olhava cabisbaixa para o pai se lambuzando de um pedaço de sobrecoxa servido há pouco. Ele não se importava em pegar a carne com as próprias mãos e com os pingos de gordura amarela sujando sua camisa branca. É um rei em seu castelo imaginário. E ao ver o filho tentar pegar o outro pedaço de sobrecoxa, a única restante na caçarola, não se importou em baixar o nível e bater na mão do pupilo, sem dizer uma palavra e mandar o recado ao mesmo tempo. É compreensível a tristeza nos olhos de Santa Teresinha: é como se as flores que carrega em suas mãos fossem oferecidas ao pai.

Nossa Senhora do Silêncio, mesmo de olhos fechados, contemplava o choro do menino. Era manso, daqueles que não quer ser ouvido. Ele decidiu voltar ao celular, ainda triste, para assistir a um vídeo que havia sido interrompido quando tentava pegar um pedaço do frango. Estava com fome, mas sabia que era falta de educação comer sem que todos da família estivessem à mesa. E a mãe, interrompendo um vai-e-vem constante de panelas, copos, pratos e talheres, viu o menino ao celular e o repreende: “é hora de comer, e não de ficar usando essa porcaria”, disse arrancando o celular da mão do filho. Mais um choro engolido por ele. Mesmo em paz consigo mesma, Nossa Senhora do Silêncio rezava, pedindo dias melhores para aquela família e, principalmente, para o menino.

São Longuinho, mesmo pequeno na estante, iluminava o rosto da mãe com sua lanterna, tentando entender sua irritação. Ela nem teve tempo de sentar-se à mesa com a família e vê a comida indo embora aos poucos pela boca faminta do marido. Na última viagem à cozinha, pegou um suco de uva na geladeira, a única coisa que faltava. Ao voltar, não se surpreende de ver que só haviam sobrado pedaços ossudos do frango e que o marido já tinha saído da mesa sem se despedir. Mesmo assim, ela sentou-se, sem forças para tentar confrontar aquela ausência. Ajudou o filho a se servir com o que restava do almoço. São Longuinho buscava iluminar a mesa, ainda tentando entender o que havia naquele rosto.

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Naquela sexta-feira santa, os santos eram as únicas testemunhas daquela triste ceia.