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Um mundo sem ar

Um mundo sem ar

Aqui a Cientista da Religião está compartilhando com as leitoras e os leitores da Senso sua perspectiva teológica cristã.

O período de pandemia motivado pelo novo coronavírus levou lideranças pastorais evangélicas progressistas a criarem um movimento chamado “Fraterna – vozes pastorais e comunitárias”. Por meio das redes sociais, o grupo tem o objetivo de ser uma reunião de vozes para atuarem juntas na defesa da democracia, da diversidade e da justiça social. Esse ajuntamento progressista me convidou a colaborar com uma reflexão. Movida por uma recente celebração de Pentecostes e pelos movimentos sociais motivados pelo assassinato criminoso de George Floyd, que acompanho aqui dos Estados Unidos, construí, e fui construída, por esse texto-oração que aqui compartilho.

Photo credit: raquelsantana on VisualHunt.com / CC BY-NC-ND

Muitas de nós ainda estamos ecoando o dia de Pentecostes, celebrado por grande parte da cristandade no último domingo, dia 31 de maio. A descida consoladora da Santa Ruah enche o nosso peito. Ela é vento. Ela é sopro. Ela é ar. Ela é a grande pedagoga da vida, que separa a existência entre o primeiro e o último suspiro. Sua descida impetuosa nos vivifica, mas também nos faz perceber como nos tem faltado o ar. Nossa fragilidade foi escancarada. O vírus sufoca. Ele paralisa o peito. Não há ventilador que resista. Síndrome respiratória aguda grave. O peito desce no sheol, e retorna vazio. O vírus mata por dentro. Entretanto, pior do que o vírus que mata por dentro é o que mata por fora. O contágio da maldade. O corpo sobre o corpo. O joelho sobre o pescoço. A minha cor sobre a sua cor. “Eu não consigo respirar”. O mundo está sem ar. Não há ar em casa – nem quando se brinca – nem na UTI ou na via pública.

O contágio sistêmico do ódio se dá pela falta de ar. O vácuo do aniquilamento. No vácuo o som não se propaga, há só o silêncio, o silenciamento. A respiração boca a boca pode ser a salvação, mas já não querem o toque, nossos fluidos se tornaram, mais uma vez, inimigos. Como, então, nos unir? Como produzir uma massa de ar capaz de devolver o oxigênio necessário à vida? Se minha mão não pode tocar a sua mão, se minha boca não pode tocar a sua boca, o meu coração ainda pode tocar o seu coração. O toque da intenção. Eu toco e sou tocada, sua vida me transforma, suas dores ferem em mim, sua indignação é a labareda de fogo. A unidade entre nós. Há unidade entre nós. Ainda precisamos dela, Santa Ruah, Deusa do ar, que faz que ouçamos em nossa própria língua os gritos de socorro que dizem quase inaudivelmente: “Eu não consigo respirar”.

Na unidade queimo e sou queimada. Afinal, como afirmou Sêneca, “quando o sangue respira o ódio, não pode dissimular-se”. Labaredas de fogo surgiram em resposta ao sufocamento. O ar se tornou denso, pesado. A fumaça negra que sobe do fogo nos lembra da cor silenciada. Combustão. O ato, o efeito de queimar. Nessa reação química exotérmica há grande liberação de energia na forma de calor. Energia liberada. Energia para a luta, para a resistência, para a existência. Energia que queima a minha pele branca e me leva a clamar:

Sopra Ruah
Mas não suavemente
Precisamos da sua impetuosidade
Do sopro que alastra o fogo
Para que leiam os sinais de fumaça

“Cada um os ouvia falar em sua própria língua”
– Nos prometeram –
Mas, isso já não é verdade
Nossas línguas ainda continuam confundidas
Não há compreensão entre nós
Resgatamos os sons da terra
Do povo que conhecia o valor da vida
O perigo se anunciava por fogo e fumaça
Muito se dizia sem as palavras

E muito ainda se diz…
“Eu não consigo respirar”
“Eu não consigo respirar”
Um clamor pela vida quando a palavra não basta

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A fumaça parece muita para quem fala
A fumaça parece pouca para quem é calado
Eles fazem sinais de fumaça
E nós lemos revolta e rebelião

Santa Ruah
Pinta nossa cara branca, mas não com a cor da raça negra
Porque não daríamos conta
Pinta com o rubor da vergonha
Porque apagamos o fogo com a água do apaziguamento

No nosso analfabetismo
Não lemos os sinais
Não lemos a cor
Não lemos a dor
Lemos números
Somos doutores em estatísticas
Menos um, menos mil…

Menos água, Santa Ruah!
Deixa o fogo queimar
Sopra com a impetuosidade das línguas que gritam
Das línguas que clamam por ar
Reaviva o Pentecostes da luta
Com o fogo que consome as estruturas
Estruturas com as quais já não podemos mais lidar