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Quando eu morrer – Um manifesto teológico prévio contra a homofobia

Quando eu morrer – Um manifesto teológico prévio contra a homofobia

Nas últimas semanas muitos e muitas de nós fomos surpreendidos e surpreendidas com a notícia do falecimento de uma pessoa muito querida e conhecida. Sabíamos que ele vivia com HIV e pensamos que poderia ser algo relacionado a isso. Ficamos consternados e consternadas.

Algum tempo depois soubemos que ele foi assassinado. Foi dito que a divulgação desse fato era precipitada já que o caso estava sendo investigado sob sigilo e pediu-se silêncio para não atrapalhar a investigação. Disseram que se lhe devia respeito, a sua família e comunidade. Ficamos revoltados e revoltadas.

Logo em seguida soubemos pelos meios de comunicação que se tratava de um crime de ódio, que a polícia o qualificou como homicídio agravado e que a autópsia revelou que contra a vítima haviam sido desferidas 17 punhaladas. Ficamos em desespero, com medo, com raiva, com angústia, com dor. Muita dor.

Seguiram-se manifestações pedindo por justiça. Houve uma celebração de ação de graças por sua vida e seu ministério. Tudo meio genérico e meio abafado, como se os gritos estivessem presos e um elefante parado na sala deixasse todo mundo meio desconfortável.

Realmente não sei dos detalhes e respeito profundamente a dor e os motivos de quem esteve próximo a ele e quero crer que tenham o melhor interesse em seu coração em tudo o que fizeram. Por isso não menciono nomes ou outras questões mais específicas, consciente de que não será difícil identificar a que situação particular me refiro. Não é minha intenção de forma alguma causar mais dor ou atrapalhar qualquer tipo de ação que possa ter como fim último a promoção da justiça efetiva, que entendo estar muito além de descobrir os detalhes e punir possíveis culpados ou culpadas.

Muitas pessoas amigas estão envolvidas nessa situação e eu sem dúvida preferia poder ter essa conversa diretamente com elas e, quem sabe, ainda terei. Mas meu incômodo e minha própria dor me impelem a escrever e espero que entendam que esse também é meu direito. Possivelmente serei julgado por faze-lo dessa forma, mas aí já está algo que podem dizer quando eu morrer: eu corri riscos de ser julgado por fazer o que eu achava correto e justo. E vivi com as consequências.

Por isso decidi falar sobre mim. Pensando nele, com quem tive algum contato, e em conversas e comentários de outras pessoas por quem tenho grande estima, me ocorreram algumas coisas sobre como eu gostaria que se lidasse no caso de minha morte. Como não tenho como saber de que forma ele gostaria que se falasse sobre ele ou sobre o que aconteceu em relação a sua morte e a sua vida, pensei que seria mais honesto refletir sobre o que eu gostaria que se fizesse em relação a mim nessa situação.

Tenho consciência de que minha eventual morte poderá não gerar nenhum tipo especial de comoção e que até mesmo nem se torne conhecida para muitas pessoas. Não é por presunção ou arrogância que ouso tecer esses comentários e reflexões. Está aí uma coisa que eu gostaria que desmentissem quando eu morrer: acredito que não sou uma pessoa arrogante, ainda que reconheça que muitas pessoas me veem assim. Prefiro acreditar que muitas e muitos de nós somos vistos e vistas assim simplesmente porque temos opiniões firmes e fortes sobre determinados temas, como nossas próprias vidas. Mas também podem deixar fora essa parte se acharem muito polêmica.

Mas vamos ao que de fato interessa. Se forem dizer algo, comecem dizendo que eu me entendia como homossexual, gay, viado, queer ou algo assim. Talvez até lá isso não faça tanta diferença, mas pelos meus prognósticos acho que ainda fará. Podem escolher a palavra que mais parecer adequada naquele contexto político para que as pessoas entendam do que realmente se está falando. Se quiserem dar detalhes sórdidos, não tem problema. Qualquer coisa eu volto para puxar o seu pé enquanto estiver dormindo, mas só por picardia mesmo.

Eu demorei um certo tempo para “assumir” a homossexualidade (hoje acho que esse é o termo que mais diz o que precisa ser dito e entendido). Mas levei bem menos tempo para entender que essa questão seria muito definitiva do lugar que ocuparia no mundo. Ouvi muitas vezes que eu supervalorizava essa questão, que nem tudo que me acontecia estava relacionado a isso ou mesmo fui questionado sobre porque eu sempre tinha que transformar qualquer questão ou situação em algo que estivesse relacionado com “isso”.

Bem, meus maiores problemas e conflitos – na família, com amigos e amigas, na escola, na igreja, na faculdade e nas pós-graduações, em relação a trabalho e moradia, sem falar em questões mais amplas e gerais de violência e discriminação – estiveram relacionadas a isso. Não é fácil não tornar “isso” o centro da sua vida quando todo o mundo ao seu redor o faz. Tá certo que eu assumi essa questão não apenas como algo individual, mas como objeto de luta política e trabalho acadêmico e pastoral (mesmo não sendo ministro ordenado). De qualquer forma, não esqueçam.

É fácil para as pessoas falarem de suas conquistas, suas virtudes e qualidades e fingir que tudo isso não tem nada a ver com a sua orientação sexual ou identidade de gênero. Qualquer eulogia evidencia facilmente essas questões em relação a quem faleceu, especialmente quando não dizem nada específico sobre isso. Se eu tive conquistas, virtudes e qualidade dignas de serem mencionadas é justamente porque eu sou (ou fui) homossexual, gay, viado, queer.

Outro ponto importante: não deixem de falar de homofobia. Sim, ainda que eu não saiba quando e em quais circunstâncias eu vou morrer, foi a homofobia que matou. Pode ser que seja por um crime de ódio praticado publicamente por conta dos meus posicionamentos e atuação ou pode ser em privado por algum encontro casual que não saiu como planejado. Não importa. Nem façam nenhuma manifestação a meu respeito se não falarem de homofobia.

Porque a homofobia não é só aquilo que aparece num crime de ódio e num assassinato. A homofobia, inclusive aquela praticada na igreja e em nome de Deus, me matou muitas vezes e definitivamente será responsável pela minha morte definitiva. As perdas acumuladas, as violências sofridas, as lutas travadas todos os dias não nos deixam esquecer que nossa orientação sexual e/ou identidade de gênero é o motivo pelo qual nos querem mortos e mortas. A homofobia que terá me matado será a mesma que continuará matando tantas outras pessoas e só isso é suficiente para se dizer isso.

Podem falar também de classismo e desigualdade social, de racismo, xenofobia, machismo e sexismo, capacitismo, intolerância religiosa e tantas outras formas cotidianas de construir barreiras entre pessoas e grupos e provocar mortes. Eu provavelmente não terei lutado suficiente e encontrado a melhor forma de articular todas essas questões, mas eu as reconheço como nossos grandes problemas e para a superação das quais reservo a palavra justiça.

Se a minha morte envolver alguma situação que julgarem constrangedora, podem falar também. Em geral, as pessoas já me colocam em situações constrangedoras, reais ou não, para ver se me constrangem. Me refiro aqui especialmente àquelas mais no campo da moral e dos bons costumes, que é o que as pessoas geralmente acham constrangedor. Podem falar mesmo, expor minha intimidade, meus pecadinhos, pois talvez ajudará algumas pessoas a entenderem que, muitas vezes, não fazemos aquilo que gostaríamos de fazer, mas aquilo que é possível fazer dentro de nossas condições. E não são sempre coisas bonitas, pois bonito não é o mundo que nos coube viver.

Não se preocupem com minha família ou meus amigos e minhas amigas. Eles e elas já estão acostumados e acostumadas e seguramente já se sentiram constrangidos e constrangidas por mim. Se eles e elas não entenderem a necessidade de fazer isso, não terão entendido nada daquilo pelo que vivi e, no máximo, será mais uma oportunidade para entenderem. Definitivamente não se preocupem com nenhuma instituição à qual eu porventura estive ou esteja vinculado no derradeiro momento. Nenhuma delas, por mais bem-intencionada que seja, vale o sacrifício de não dizer.

Jamais digam que eu soube ter paciência e esperar o momento certo para conquistar o que conquistei ou para que tivesse algum tipo de reconhecimento. No máximo, tive bastante sorte e encontrei pessoas que me acompanharam e me sustentaram. Mas nunca tive paciência e esse próprio texto é um exemplo disso. Não sou estúpido e conheço suficiente os processos sociais e institucionais, mas definitivamente não tenho paciência para qualquer forma de violência e injustiça. No máximo digam que peço perdão por todas as vezes que minha impaciência não me levou a agir. E certamente haverá muitas pessoas que identificarão essa minha impaciência – nem sempre como uma qualidade. Tudo bem. Eu as desculpo.

Se for o caso, denunciem e peçam justiça. Melhor: denunciem e peçam justiça! Não apenas pela minha morte (que será o menos relevante nesse caso) ou por mera vingança e sentimento de satisfação de luto. Mas denunciem pela morte de todas as pessoas vítimas de todas as formas de injustiça. Sei que muitas das pessoas que possam de alguma forma se envolver com a notícia de minha morte já terão feito isso ao longo de suas vidas. Mas não deixem passar mais essa oportunidade de pedir justiça. Não pra mim. Eu já terei feito a passagem. Mas para todas as outras pessoas que ainda sofrem pela injustiça. Se minha morte ajudar a avançar essa luta de alguma forma, podem me usar também.

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Mas: não digam que há dois tipos de justiça e que a justiça de Deus é diferente e incompreensível a nós. Eu não teria gastado tanto tempo estudando, escrevendo, ensinando ao lado de tantas outras pessoas se eu não soubesse o que é justiça. E nem precisa estudar, escrever ou ensinar tanto para saber que a justiça é um compromisso nosso, de criar relações e formas de vida que promovam justamente isso: a vida. Em nome da fé ou de qualquer outra filosofia ou sistema ético.

Talvez a justiça não seja necessariamente um ponto de chegada, como aprendemos a pensar no cristianismo como uma salvação fora do tempo e uma escatologia apocalíptica. Mas a desistência de lutar por ela, de denunciar as injustiças, de transformar a dor e o luto em ação certamente não é luta por justiça. Cada pessoa o fará do seu jeito e esse não deve ser um fardo ou uma imposição dogmática, mas uma resposta ao desejo que brota da vida. Se for sincero e consciente, vocês nem vão notar. Mas se não o fizerem, todo mundo vai notar – ou deveria.

Se eu for honesto, diria que eu adoraria que nessa ocasião estivessem presentes muitas bichas, viados, sapatões, bi, travestis, drag queens, homens e mulheres trans e toda a sorte de gente esquisita. Não tenho dúvidas de que, nesse caso, o riso e a celebração, misturados com o choro e a consternação, seriam o nosso próprio alimento para a luta pela justiça. O nosso grito debochado de quem insiste em viver a despeito de tudo. Novas relações e redes seriam formadas e aqui e ali brotaria algo de esperança.

Mas sou realista o suficiente pra saber que talvez isso não seja o mais prudente ou adequado. Não porque eu recomende prudência e adequação. Mas só porque muita gente não entenderia a nossa alegria de estar juntas mesmo num momento difícil e poderia reagir com mais violência, especialmente se envolvesse igreja.

Então, se houver algum tipo de manifestação pública, vejam a melhor forma de faze-lo sem comprometer a sua dignidade e pensem no que é melhor para a comunidade: aquela formada por pessoas excluídas do projeto heterossexual do Reino sem justiça. E se tiver que fazer façam. Eu confio em vocês! Um encontro no bar ou na boate depois de todos os protocolos também serve, afinal, foi lá que eu aprendi muito do que eu sei.

Como falei, essas são só reflexões descabidas de quem não está necessariamente pensando que pode morrer em breve ou mesmo que sua morte possa ter algum significado. Isso sim seria arrogante e presunçoso. Mas como ninguém está livre de que isso aconteça, e alguns e algumas de nós estamos mais suscetíveis a que isso ocorra (e nem estou falando em genocídios pandêmicos e outros projetos de morte em curso), pensei que poderia ser importante deixar esse registro prévio para o caso de alguém ter dúvidas sobre como proceder e eu não ter tempo de dar as minhas sugestões.

E como eu não sei o que a vida ainda me reserva, abro aqui o precedente de que esse testamento está aberto a revisão e não está gravado em pedra. Nesse momento, no máximo, ele poderá nos ajudar a pensar sobre as mortes ao nosso redor e qual o sentido que podemos tirar delas, por mais doloroso que seja.

André S. Musskopf

Juiz de Fora, 14 de fevereiro de 2021