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Pandemia como justificativa para a agenda religiosa antiaborto na América Latina

Pandemia como justificativa para a agenda religiosa antiaborto na América Latina

A pandemia tem evocado respostas religiosas que combinam “distintos repertórios simbólicos e explicações racionais, de cunho científico, na procura da organização do caos que a iminente presença da morte desencadeou”. (CARRANZA; CARVALHO; BANDEIRA, 2020, p. 1). Em meio à multiplicidade de posturas de lideranças religiosas acerca da Covid-19 nesta perspectiva de organização da realidade em transformação, é possível observar que os fenômenos da doença e da quarentena tornaram-se pano de fundo para explicações de cunho moral e religioso sobre temáticas como gênero e aborto, em especial nas práticas discursivas de lideranças fundamentalistas na América Latina.

Segundo o pesquisador argentino Pablo Semán1Los grupos ultraconservadores renuevan sus alianzas políticas en Argentina | Ojo Público (ojo-publico.com), um relevante processo vem se materializando na América Latina, em países como México, Argentina e Peru, principalmente, nos quais se observam alianças entre organizações políticas e grupos religiosos ultraconservadores, reforçando a ideologia negacionista e discursos contra a ciência, junto da agenda antiaborto e anti-gênero. Paulo Barrera Riveira, no Seminário: Reações Religiosas à Covid-19 na América Latina (Em: BACCETTO, RAMOS, 2020), indicou que no Peru alguns grupos evangélicos conservadores têm assumido uma posição que destoa de outros grupos religiosos no país em relação à pandemia. Tais grupos, segundo Paulo Barrera, estavam em 2020 alinhados às narrativas de Donald Trump sobre o coronavírus. Riveira aponta uma “laicidade de colaboração” estabelecida a partir de alianças nacionais e transnacionais, com impacto no enfrentamento à Covid-19.

Néstor Canclini (1998), pesquisador da linha dos Estudos Culturais, também aborda estas alianças que têm se estabelecido na América Latina. Ele indica que a região possui frágeis fronteiras entre tradição e modernidade, o que traria alianças entre grupos tradicionalistas, como os fundamentalistas culturais, políticos e religiosos, e grupos renovadores ligados a uma modernização tecnocrática, econômica e de mercado. Tal característica leva ao fortalecimento de valores individuais conservadores, em detrimento de valores que representariam a coletividade, deixando de contemplar grupos sociais minoritários.

Nesse contexto, a pandemia tem sido utilizada como contexto para explicações de cunho moral, fortalecendo narrativas religiosas fundamentalistas que lideram pautas como a agenda antiaborto. No México, a Igreja Batista assim se pronunciou, colocando o aborto entre as causas da Covid-19: “Há outras coisas em que devíamos colocar nossa atenção, como as possíveis causas da pandemia, como por exemplo, o aborto”2Poder, religión y lobbies: los ultraconservadores durante la pandemia en México | Ojo Público (ojo-publico.com). . O fechamento dos serviços não essenciais durante a quarentena foi utilizado como argumento para a suspensão da interrupção legal de gestações. Marcela Vaquera, da Frente Nacional pela Família do México – organização composta por representantes políticos e religiosos(as) –, disse que “se está permitindo que os centros do aborto operem e sigam eliminando cidadãos mexicanos, como se fosse uma urgência”3www.mexicosocial.org. Narrativa similar foi encontrada em Gabriel Ballerini, líder da Frente NOS, uma coligação política de direita com participação religiosa na Argentina, quando apontou: “Os hospitais estão fechados, só abertos para urgências e para abortar. O nível de abortismo neste governo (do presidente Alberto Fernández) é tal, que põe o aborto como uma urgência de saúde pública e isto no meio de uma pandemia”.

Também no Brasil, o fechamento dos serviços não essenciais durante a pandemia e a quarentena foi utilizado como argumento para a suspensão de procedimentos como a interrupção legal de gestações. O Hospital Pérola Byington, de São Paulo, suspendeu o serviço legal de aborto durante uma semana na pandemia, sob a alegação de que o hospital havia se convertido em um local de detecção de Covid-19 e que a suspenção de atenção ambulatória teria como finalidade reduzir a circulação de pessoas e prevenir contágio. Tal argumento, no entanto, não se sustentou. Após pressão pública, os procedimentos de aborto legal e apoio às mulheres foram reativados.

Ao mesmo tempo em que estes discursos são lançados na vida pública, a Câmara e o Senado da Argentina autorizaram legalmente a descriminalização do aborto nas quatorze primeiras semanas de gestação em dezembro de 2020, garantindo que toda gestante poderá ter acesso ao aborto no sistema público de saúde de forma gratuita.

A agenda religiosa antiaborto – embora uma pauta antiga – fortaleceu-se na América Latina a partir de fins da década de 1990, assim como outros pontos ligados à perspectiva contrária à diversidade sexual e de gênero, que vieram à tona a partir do crescimento das Igrejas neopentecostais e do acesso dos grupos cristãos conservadores – católicos e evangélicos – à política, cenário em que foram disputadas, a partir dos anos 2000, algumas proposições ligadas à descriminalização do aborto em casos específicos.

Pensando na complexidade da temática do aborto e nas batalhas jurídicas e de protestos populares que têm ocorrido em torno do tema em vários países latinos em especial nas duas últimas décadas, finalizo este texto, identificando que é preciso repensar o conceito de urgência em saúde. Na estranha lista atual de prioridades em saúde, em que a vacina tem sido contestada de diversos modos, o aborto ainda é tido como um capricho de mulheres que não se cuidaram para evitar filhes, quando tal fenômeno é uma das mais profundas mostras do abandono do Estado em saúde pública. O fato é que com Covid-19 ou sem, estamos profundamente sós, e diante das velhas moralidades que matam.

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Referências

BACCETTO, Lucas; RAMOS, Antonio. Figurações religiosas do movimento conservador. Crônica sobre a Mesa 3 do Seminário Reações Religiosas à Covid-19 na América Latina. Ronaldo Almeida (UNICAMP/Brasil) como mediador, e de Fellipe dos Anjos (UNIMESP/Brasil), Paulo Barrera (UNIMESP/Brasil) e Michel Gherman (UFRJ/Brasil). Laboratório de Antropologia da Religião, UNICAMP, 2020. Disponível em: Figurações religiosas do movimento conservador – LAR – Unicamp. Acesso em janeiro de 2021.
CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas Híbridas. São Paulo: EDUSP, 1998.
CARRANZA, Brenda; CARVALHO, Isabel Cristina de Moura; BANDEIRA, Olívia. Reações religiosas à Covid-19 na América latina [RESENHA]. Ciencias Sociales y Religión/Ciências Sociais e Religião, Campinas, v.22, e020036, 2020.