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Pandemia como justificativa para a agenda religiosa antiaborto na América Latina

Pandemia como justificativa para a agenda religiosa antiaborto na América Latina
8 de março de 2021 Clarissa de Franco

Photo credit: Jeanne Menjoulet on Visualhunt / CC BY

A pandemia tem evocado respostas religiosas que combinam “distintos repertórios simbólicos e explicações racionais, de cunho científico, na procura da organização do caos que a iminente presença da morte desencadeou”. (CARRANZA; CARVALHO; BANDEIRA, 2020, p. 1). Em meio à multiplicidade de posturas de lideranças religiosas acerca da Covid-19 nesta perspectiva de organização da realidade em transformação, é possível observar que os fenômenos da doença e da quarentena tornaram-se pano de fundo para explicações de cunho moral e religioso sobre temáticas como gênero e aborto, em especial nas práticas discursivas de lideranças fundamentalistas na América Latina.

Segundo o pesquisador argentino Pablo Semán[1], um relevante processo vem se materializando na América Latina, em países como México, Argentina e Peru, principalmente, nos quais se observam alianças entre organizações políticas e grupos religiosos ultraconservadores, reforçando a ideologia negacionista e discursos contra a ciência, junto da agenda antiaborto e anti-gênero. Paulo Barrera Riveira, no Seminário: Reações Religiosas à Covid-19 na América Latina (Em: BACCETTO, RAMOS, 2020), indicou que no Peru alguns grupos evangélicos conservadores têm assumido uma posição que destoa de outros grupos religiosos no país em relação à pandemia. Tais grupos, segundo Paulo Barrera, estavam em 2020 alinhados às narrativas de Donald Trump sobre o coronavírus. Riveira aponta uma “laicidade de colaboração” estabelecida a partir de alianças nacionais e transnacionais, com impacto no enfrentamento à Covid-19.

Néstor Canclini (1998), pesquisador da linha dos Estudos Culturais, também aborda estas alianças que têm se estabelecido na América Latina. Ele indica que a região possui frágeis fronteiras entre tradição e modernidade, o que traria alianças entre grupos tradicionalistas, como os fundamentalistas culturais, políticos e religiosos, e grupos renovadores ligados a uma modernização tecnocrática, econômica e de mercado. Tal característica leva ao fortalecimento de valores individuais conservadores, em detrimento de valores que representariam a coletividade, deixando de contemplar grupos sociais minoritários.

Nesse contexto, a pandemia tem sido utilizada como contexto para explicações de cunho moral, fortalecendo narrativas religiosas fundamentalistas que lideram pautas como a agenda antiaborto. No México, a Igreja Batista assim se pronunciou, colocando o aborto entre as causas da Covid-19: “Há outras coisas em que devíamos colocar nossa atenção, como as possíveis causas da pandemia, como por exemplo, o aborto”[2]. O fechamento dos serviços não essenciais durante a quarentena foi utilizado como argumento para a suspensão da interrupção legal de gestações. Marcela Vaquera, da Frente Nacional pela Família do México – organização composta por representantes políticos e religiosos(as) –, disse que “se está permitindo que os centros do aborto operem e sigam eliminando cidadãos mexicanos, como se fosse uma urgência”[3]. Narrativa similar foi encontrada em Gabriel Ballerini, líder da Frente NOS, uma coligação política de direita com participação religiosa na Argentina, quando apontou: “Os hospitais estão fechados, só abertos para urgências e para abortar. O nível de abortismo neste governo (do presidente Alberto Fernández) é tal, que põe o aborto como uma urgência de saúde pública e isto no meio de uma pandemia”.

Também no Brasil, o fechamento dos serviços não essenciais durante a pandemia e a quarentena foi utilizado como argumento para a suspensão de procedimentos como a interrupção legal de gestações. O Hospital Pérola Byington, de São Paulo, suspendeu o serviço legal de aborto durante uma semana na pandemia, sob a alegação de que o hospital havia se convertido em um local de detecção de Covid-19 e que a suspenção de atenção ambulatória teria como finalidade reduzir a circulação de pessoas e prevenir contágio. Tal argumento, no entanto, não se sustentou. Após pressão pública, os procedimentos de aborto legal e apoio às mulheres foram reativados.

Ao mesmo tempo em que estes discursos são lançados na vida pública, a Câmara e o Senado da Argentina autorizaram legalmente a descriminalização do aborto nas quatorze primeiras semanas de gestação em dezembro de 2020, garantindo que toda gestante poderá ter acesso ao aborto no sistema público de saúde de forma gratuita.

A agenda religiosa antiaborto – embora uma pauta antiga – fortaleceu-se na América Latina a partir de fins da década de 1990, assim como outros pontos ligados à perspectiva contrária à diversidade sexual e de gênero, que vieram à tona a partir do crescimento das Igrejas neopentecostais e do acesso dos grupos cristãos conservadores – católicos e evangélicos – à política, cenário em que foram disputadas, a partir dos anos 2000, algumas proposições ligadas à descriminalização do aborto em casos específicos.

Pensando na complexidade da temática do aborto e nas batalhas jurídicas e de protestos populares que têm ocorrido em torno do tema em vários países latinos em especial nas duas últimas décadas, finalizo este texto, identificando que é preciso repensar o conceito de urgência em saúde. Na estranha lista atual de prioridades em saúde, em que a vacina tem sido contestada de diversos modos, o aborto ainda é tido como um capricho de mulheres que não se cuidaram para evitar filhes, quando tal fenômeno é uma das mais profundas mostras do abandono do Estado em saúde pública. O fato é que com Covid-19 ou sem, estamos profundamente sós, e diante das velhas moralidades que matam.

Notas

[1] Disponível em: Los grupos ultraconservadores renuevan sus alianzas políticas en Argentina | Ojo Público (ojo-publico.com). Acesso em janeiro de 2021.

[2] Disponível em: Poder, religión y lobbies: los ultraconservadores durante la pandemia en México | Ojo Público (ojo-publico.com). Acesso em janeiro de 2021.

[3] Disponível em: https://www.mexicosocial.org/poder-religion-y-lobby-los-ultraconservadores-durante-la-pandemia/. Acesso em janeiro de 2021.

Referências

BACCETTO, Lucas; RAMOS, Antonio. Figurações religiosas do movimento conservador. Crônica sobre a Mesa 3 do Seminário Reações Religiosas à Covid-19 na América Latina. Ronaldo Almeida (UNICAMP/Brasil) como mediador, e de Fellipe dos Anjos (UNIMESP/Brasil), Paulo Barrera (UNIMESP/Brasil) e Michel Gherman (UFRJ/Brasil). Laboratório de Antropologia da Religião, UNICAMP, 2020. Disponível em: Figurações religiosas do movimento conservador – LAR – Unicamp. Acesso em janeiro de 2021.

CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas Híbridas. São Paulo: EDUSP, 1998.

CARRANZA, Brenda; CARVALHO, Isabel Cristina de Moura; BANDEIRA, Olívia. Reações religiosas à Covid-19 na América latina [RESENHA]. Ciencias Sociales y Religión/Ciências Sociais e Religião, Campinas, v.22, e020036, 2020.

Internet

Los grupos ultraconservadores renuevan sus alianzas políticas en Argentina | Ojo Público (ojo-publico.com). Acesso em janeiro de 2021.

Poder, religión y lobbies: los ultraconservadores durante la pandemia en México | Ojo Público (ojo-publico.com). Acesso em janeiro de 2021.

https://www.mexicosocial.org/poder-religion-y-lobby-los-ultraconservadores-durante-la-pandemia/. Acesso em janeiro de 2021.

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