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Pandemia, cloroquina e fé

Pandemia, cloroquina e fé

Qual o sentido de fé? Essa resposta é complexa e problematizada por inúmeros autores e pesquisadores. Abordaremos aqui a fé política, isto é, aquilo que você crê que está submetido às questões político-ideológicas, e, em especial, a infalibilidade do líder. Nesse contexto o individuo não tem autonomia no exercício de sua fé, é preciso obedecer sempre às manifestações da liderança. A fé é reduzida a um instrumento político, a uma utopia social que desperta os fiéis para a militância e engajamento no culto do ao líder. Forma um quadro de seguidores submissos e obedientes. Cria-se uma seita e seus membros fanatizados são intocados pela experiência e pelo argumento. Exige-se lealdade total, irrestrita, incondicional e inalterável. A identificação e conformismo com a seita é total e absoluta. Forja-se uma mentalidade de grupo que não está interessada nos problemas do dia a dia, mas somente nas questões ideológicas que sustentarão o futuro.

O Brasil, há quase um ano, vive numa pandemia viral e ideológica, onde remédios se transformaram em objetos de fé e instrumentos políticos. A cloroquina, ivermectina e hodroxicloriquina se transformaram em alvos de adoração. Uma adoração que se alimenta de dados que não suportam nenhuma análise crítica. Uma solução mágica para a Covid-19 e de negação da realidade. E como isso se relaciona com a fé? Por meio da crença absoluta na liderança, no misticismo, do sentimento de impotência e da ausência do pensar. Percebemos isso nesse trecho: Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fizeram uma paródia da música ‘Florentina’, do palhaço e deputado Tiririca, para incentivar o uso da Cloroquina no tratamento de pacientes com COVID-19. O vídeo viralizou nas redes sociais […]. Estudos apontam a ineficácia do remédio contra a doença. Cloroquina, Cloroquina Cloroquina lá no SUS. Eu sei que tu me curas em nome de Jesus. 1Bolsonaristas fazem paródia de música de Tiririca para exaltar Cloroquina. In.: www.em.com.br Essa mobilização político, ideológica e de fé acontece com um grupo de pessoas que aparentemente são indiferentes e que historicamente pouco participaram da vida política do país. Que ao longo da Nova República brasileira, foram abandonadas pelas estruturas tradicionais de poder. Esse abandono, permitiu a criação de um grupo em busca de representatividade e, isso possibilitou, por meio da introdução de novos métodos de propagada política – Facebook, Twitter, WhatsApp – a retirada desses grupos da periferia política. Estavam colocados a margem do sistema e, agora, são moldados por novos valores. Segundo Hanna Arendt “[…] as massas politicamente neutras e indiferentes podiam facilmente constituir a maioria num país de governo democrático e que, portanto, uma democracia podia funcionar de acordo com normas que, na verdade, eram aceitas apenas por uma minoria.” 2ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. São Paulo: Companhia de Bolso, 2012. p.280

Nessa fé existe o pastor, o rebanho, o objeto de adoração, os seus profetas e os pagãos que duvidam da santidade do ser adorado. Como nos mostra o jornalista Alexandre Garcia: “Na última segunda-feira (27), o jornalista Alexandre Garcia estreou na CNN Brasil e já deu o que falar. No quadro “Liberdade de Expressão” do “CNN Novo Dia”, o apresentador afirmou que o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, é a comprovação científica da cloroquina contra o novo coronavírus. […] “Em todo noticiário que eu ouvi, o meu colega repórter diz assim: ‘Mostrou a caixa de hidroxicloroquina, que não tem comprovação científica’. E o cara está na frente do presidente, que é a comprovação científica que o uso da hidroxicloroquina dá certo”. “Eu não entendo, o sujeito parece que vai para a Lua ou Marte para usar aquele chavão, carimbo, rótulo que estão mandando. Alguém está mandando todo repórter dizer que não tem comprovação científica, e todos os nossos amigos que foram tratados precocemente, todos estão curados, passaram pela Covid-19 em dois, três dias […].3Alexandre Garcia sobre Bolsonaro: “Comprovação científica da eficácia da cloroquina” – istoe.com.br Abraça-se o elixir sagrado em busca de esperança, equilíbrio e sentido para a realidade, bem como da confirmação da sabedoria do líder. Usa-se, portanto, a seita, para fins políticos, criando símbolos de resistência às supostas perseguições sofridas pelo grupo, dando assim coesão ao rebanho. Diante da dureza da vida, a fuga da realidade, é muitas vezes um caminho escolhido pelas pessoas. A pandemia e suas incertezas, o uso dos meios de comunicação de massa e a propaganda fundaram uma seita em busca de sobrevivência pessoal e em torno de remédios comprovadamente ineficazes. Num primeiro momento de desamparo da sua existência, tendem a violência e ao discurso demagógico.

O indivíduo nesse contexto é um mero vetor de uma fé que nem ele mesmo compreende, mas se dedica com afinco e submissão.  Esse culto é alimentado pelo medo, pela insegurança, pelo desespero e pela falta de respostas rápidas e seguras. Um culto cadavérico que perpassa o indivíduo sem encontrar nenhum tipo de resistência. A perda radical do interesse do indivíduo em si mesmo, a indiferença cínica ou enfastiada diante da morte, a inclinação apaixonada por noções abstratas guindadas ao nível de normas de vida, e o desprezo geral pelas óbvias regras do bom senso 4ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. São Paulo: Companhia de Bolso, 2012. p. 284.. E o que explica essa falta de resistência? A sociedade de massas. Ela nos transformou em sujeitos sem vivências comunitárias. “O isolamento das pessoas na sociedade: o isolamento leva à falta de sentido da realidade e à constituição de uma massa amorfa, que se deixa dirigir por um mundo fictício, embora coerente em si.” 5ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. São Paulo: Companhia de Bolso, 2012. p.3 A ausência de interatividade social na comunidade tem criado indivíduos com uma personalidade política e moral frágil e com pouca resistência a esses sentimentos.

Existe nesse processo “A “apropriação” total da pessoa: o movimento apodera-se de cada um, de modo não ser possível a separação entre o espaço privado e o espaço público6ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. São Paulo: Companhia de Bolso, 2012. p.3. Segundo Theodor Adorno, no texto A Educação após Auschwitz, tudo isso se relaciona à uma velha estrutura de autoridade e de identificação cega com o coletivo. Pessoas que se enquadram cegamente em coletivos convertem a si próprios em algo como um material, dissolvendo-se como seres autodeterminados. Isto combina com a disposição de tratar outros como sendo uma massa amorfa7ADORNO, Theodor. Educação após Auschwitz. Trad. Wolfgang Leo Maar. p. 5. In.: rizomas.net.

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A seita de fé da da cloroquina apresenta um componente revolucionário, que subverte as instituições permanentes de Estado em busca de legitimidade do objeto sagrado: O ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, divulgou nesta quarta-feira (20/05/2020) o novo protocolo para ampliar a recomendação do uso da cloroquina por pacientes do novo coronavírus, apesar da falta de comprovação científica de eficácia do medicamento. […] O documento divulgado pelo Ministério da Saúde faz algumas ressalvas. Entre elas, que o medicamento deve ser prescrito por um médico e que ele tem autonomia para decidir ou não sobre o uso. […] O Ministério da Saúde destaca no documento que o objetivo é ampliar o acesso dos pacientes à cloroquina e hidroxicloroquina no SUS.8Governo muda protocolo e autoriza hidroxicloroquina para casos leves de Covid-19 – In.: www.cnnbrasil.com.br

Pra finalizamos essas reflexões usemos Freud e seus escritos sobre Psicologia das massas e Análise do Eu, de 1921, em que afirma que inserido na massa, o indivíduo pensa, sente e age de maneira diferente de quando está sozinho. Os indivíduos da massa compartilham a ilusão de serem amados e defendidos pelo líder, justamente esse que não ama ninguém. São seres humanos, diante da impotência e do desamparo, em busca de proteção. Pertencer a seita cria o senso de universalidade e legitimidade das ideias e ações, bem como enfraquece as responsabilidades individuais. Assim, a seita, assume vida própria, provoca emoções e conduz as pessoas a irracionalidade, tal como usar, recomendar e defender um medicamento ineficaz em plena pandemia.


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    Bolsonaristas fazem paródia de música de Tiririca para exaltar Cloroquina. In.: www.em.com.br
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    ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. São Paulo: Companhia de Bolso, 2012. p.280
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    Alexandre Garcia sobre Bolsonaro: “Comprovação científica da eficácia da cloroquina” – istoe.com.br
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    ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. São Paulo: Companhia de Bolso, 2012. p. 284.
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    ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. São Paulo: Companhia de Bolso, 2012. p.3
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    ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. São Paulo: Companhia de Bolso, 2012. p.3
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    ADORNO, Theodor. Educação após Auschwitz. Trad. Wolfgang Leo Maar. p. 5. In.: rizomas.net
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    Governo muda protocolo e autoriza hidroxicloroquina para casos leves de Covid-19 – In.: www.cnnbrasil.com.br