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Milagre da multiplicação no lixo

Milagre da multiplicação no lixo
27 de outubro de 2020 Mateus Pedrini

Photo credit: Chaval Brasil on Visualhunt.com / CC BY-NC-ND

Quando uma senhora que passeava no calçadão, no último dia do ano, jogou uma lata de cerveja no contêiner em que eu estava, mal percebeu que tinha acabado de acertá-la na minha cabeça. Não a culpo por isso: ela nem me viu. Na verdade, eu também nem queria ser visto, por que um milagre da multiplicação no lixo acabara de acontecer. Ao invés de latas e garrafas vazias, trocadas por moedas e pois de um longo dia de coletas, encontrei um banquete em meio às sacolas pretas de lixo.

Alguma família rica daqui da região deve ter jogado fora metade da comida feita no dia anterior. Era um tesouro em meio aos restos. Com os dedos, ainda sangrando depois de colocar a mão em um cesto de lixo, comi os restos de ossos das asas de uma galinha, seguido por um punhado de arroz, agarrado pela outra mão. Tudo isso era regado pelo resto de vinho caro, deixado pela metade em uma garrafa, cujo rótulo havia sido arrancado por alguém.

Em minha companhia, meu cachorro Isac dividia aquele momento, pegando parte da comida que ele via no contêiner. Ao contrário dos 12 apóstolos que Jesus fez questão de dividir naquela fatídica noite, eu me contentava com apenas uma companhia: era o único ser que confiava em toda minha vida.

Faltavam cinco segundo para a queima de fogos e eu não queria ver nada daquilo. Não havia o que comemorar, pelo menos para mim. Queria apenas a companhia do meu cachorro e da comida, daquele milagre da multiplicação em meio ao lixo.

E quando ouvi alguém chutando o contêiner com força, fui levantado pelos braços, seguido de uma porrada, vinda de um cacetete. Eram policiais, fazendo seu honorável serviço: “Ei, não pode ficar aí, não. Circulando, vai”. Mas eu não queria sair de lá. Afinal, não é todo dia que encontro comida no lixo ao invés de latas.

Em meio aos fogos, luto e reluto para me manter ali, naquele banquete que haviam me proibido de ter comigo mesmo. Um dos policiais me dá uma gravata, mas Isac morde sua perna. O homem me solta, sentindo as dores da mordida: “Vira-lata dos infernos!!!”, foi o que eu consegui ouvir enquanto corria em meio à multidão comemorativa.

Consegui despistá-los, correndo mais de cinco quarteirões a dentro na cidade. E quando eu vi a porta de uma igreja fechada, escondi lá até tentar me sentir seguro. Mas os fogos do fim do ano faziam meus olhos se acalmarem diante do caos que haviam me colocado. Fiquei um bom tempo olhando para eles, enquanto acariciava Isac, pensando em como seria o próximo milagre da multiplicação no ano que vem.

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