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Esperança e fim do mundo: por que temos tanto medo de cair?

Esperança e fim do mundo: por que temos tanto medo de cair?

Nunca pensei que fosse presenciar o fim do mundo. Lembro ter visto em alguns filmes a figura emblemática de um homem que segurava um cartaz de papelão avisando aqueles e aquelas que, afogados em suas preocupações cotidianas, não percebiam que o fim se aproximava. A figura do louco que percebe a novidade escatológica e se ocupa da tarefa de avisar aos demais é carregada de significados. Isso porque a imagem do louco já é, por si mesma, estereotipada. Sujo, confiante e invisível, leva a mensagem de fim escrita no verso de uma caixa de papel aberta. Balançando o cartaz feito às pressas, ele passa pela multidão sem despertar olhares de susto que não sejam pela sua aparência imprópria. Então, eu pensava: como as pessoas não se assustam com o que ele está dizendo? Como passam por ele normalmente, caminham rumo à estação de metrô e se espremem em um vagão lotado, ocupam seus postos, e, ao final da tarde, se tiverem sorte, chegam tranquilas em suas casas enquanto o fim do mundo está próximo?

Hoje, assim como o louco, sinto que compreendi algo e, bastante atrasada, quero balançar meu papelão rasgado com a seguinte mensagem: “Krenak estava certo e a humanidade precisa acabar junto com 2021”. Este ano, que parece uma extensão do anterior, acaba como começou, solto e escorregadio. Vivemos os últimos doze meses mergulhadas e mergulhados num sentimento de apatia e ressaca que só se despediam quando tínhamos raiva ou tristeza. Mas, pela primeira vez, eu consigo me exaltar sem raiva, pois o fim se aproxima assim como sempre se aproximou, e agora a notícia deve ser anunciada com alegria: a humanidade, nesses moldes vividos há séculos, precisa acabar junto do fim do mundo.

O ativista indígena Ailton Krenak, em uma palestra que, posteriormente, se torna o livro “Ideias para adiar o fim do mundo”, inicia suas provocações com a seguinte pergunta: “como é que, ao longo dos últimos 2 mil ou 3 mil anos, nós construímos a ideia de humanidade? Será que ela não está na base de muitas das escolhas erradas que fizemos, justificando o uso da violência?” (KRENAK, 2019, p. 7). Perceber que a humanidade é uma ficção criada para sobrepor determinado povo esclarecido sobre povos que precisavam ser civilizados me faz recordar uma frase de Nietzsche que, apesar de não ser a melhor lembrança para se ter no fim do mundo, sempre me ajudou a pensar como as relação são produzidas. Nietzsche diz: “a ‘humanidade’ não avança, nem sequer existe…” (NIETZSCHE, 2008, p. 626).”

Evidentemente, a crítica de Krenak não fica nos mesmos limites da obra nietzschiana, mas é ilustrativo pensarmos que esta humanidade que buscamos entender para qual rumo se direciona, se expande ou retrai, se cresce ou diminui, se avança ou regride, não expande nem retrai, não cresce nem diminui, não avança nem regride, pois não existe. O projeto de humanidade que se ergue sobre as noções de homem e liberdade respeita apenas aqueles que se enquadram nessas categorias que são, reforço aqui, poiéticas, produções. O autor nos diz que “a ideia de que os brancos europeus podiam sair colonizando o resto do mundo estava sustentada na premissa de que havia uma humanidade esclarecida que precisava ir ao encontro da humanidade obscurecida, trazendo-a para essa luz incrível.” (KRENAK, 2019, p. 7).

Mas as instituições consolidadas neste projeto são falidas desde o nascimento. O que Krenak nos avisa é que não precisamos tentar nos encaixar nessas instituições, ou tentar criar modelos nos mesmos moldes que aceitem que façamos parte da mesma lógica. A lógica de sociedade de consumo consolidada pela modernidade está fadada ao fracasso desde o início. O fim do mundo pode ser compreendido de diversas formas. Para pessoas que são retiradas do campo e de suas comunidades e jogadas nas favelas tentando sobreviver nos centros urbanos que o autor chama de “liquidificador da humanidade”, o fim do mundo pode significar a perda de uma forma de existência, o esquecimento da tradição e a alienação do que é ser. Então, Krenak nos diz que “se [essas] pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos.” (KRENAK, 2019, p. 8).

A produção da noção de modernidade criou um abismo entre o que somos e a natureza. Deixamos de ser parte da Terra e quem insiste em manter uma relação não objetiva com a natureza é percebido ou percebida como louco ou louca. As narrativas que diferem da mesma história que ouvimos ser contada pelo mito da humanidade não são atrativas e logo se tornam parte de uma fábula que, se tem algo a nos ensinar, é que a sustentabilidade é um grande faz de conta instrumentalizado pelas próprias corporações que assaltam a terra. O que é um desenvolvimento sustentável? Ou melhor, é para sustentar o que?

Enquanto a humanidade está se distanciando do seu lugar, um monte de corporações espertalhonas vai tomando conta da Terra. Nós, a humanidade, vamos viver em ambientes artificiais produzidos pelas mesmas corporações que devoram florestas, montanhas e rios. Eles inventam kits superinteressantes para nos manter nesse local, alienados de tudo, e se possível tomando muito remédio. Porque, afinal, é preciso fazer alguma coisa com o que sobra do lixo que produzem, e eles vão fazer remédio e um monte de parafernálias para nos entreter. (KRENAK, 2019, p. 11).

Nesse sentido, aquilo que ainda bate de frente com essa noção cobiçada de humano é visto como sub-humano. São caiçaras, indígenas, quilombolas, aborígenes. Mas essa sub-humanidade choca, assusta. São provas vivas da resistência de um mundo que vive sua destruição há séculos. A perda de sentido que o desprendimento da terra causa, gera uma desorientação, uma alienação do ser. Krenak cita Mujica quando diz que transformamos pessoas em consumidores, não em cidadãos. “Para que ter cidadania, alteridade, estar no mundo de uma maneira crítica e consciente, se você pode ser um consumidor? Essa ideia dispensa a experiência de viver numa terra cheia de sentido, numa plataforma para diferentes cosmovisões” (KRENAK, 2019, p. 13). Nesse sentido, a reflexão sobre que mundo estamos deixando para as próximas gerações, por exemplo, toma um lugar para além de secundário. Nossos hábitos birrentos de consumidores que são ensinados desde cedo que têm sempre razão não permite que analisemos nossas atitudes, embora as inquietações sobre o mundo que nos foi legado pelas outras gerações sejam constantes. Reclamamos que nossos pais e avós não cuidaram do mundo para nós, mas estamos cuidando para os próximos?

Então, anuncio aqui que o fim deste mundo se aproxima. Precisamos cultivar uma dimensão interior que saia dessa lógica de mercado, é preciso que haja uma responsabilização pelos nossos atos. A humanidade precisa acabar, pois ela se construiu a partir da segregação e da exclusão de mulheres, dos negros, da comunidade LGBTQIAP+, dos indígenas e de outros grupos marginalizados. É evidente que transformar nossa percepção do mundo, mudar nossos hábitos e assumir nossa responsabilidade por este fim constitui uma quebra de paradigma. Estamos acostumados com essa ideia de humano e modificá-la é assumir a queda de parte do que nos forma. Mas por que temos tanto medo de cair se estamos caindo há tanto tempo? O mundo não foi sempre o que é, nem sempre estivemos aqui, e pode ser que em algum momento não mais estejamos — seja pelo fim do mundo ou pela morte que nos ganha no jogo. Então, por que temos tanto medo de cair e não percebemos na própria queda uma abertura para mudarmos o que somos e a forma como nos relacionamos com os outros deixando de ser consumidores e assumindo a nossa responsabilidade com as diferenças?

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Referências

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

NIETZSCHE, Friedrich. Fragmentos póstumos. Vol. IV (1885-1889). Madrid: Tecnos, 2008.