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À querida Romi

À querida Romi

À querida Romi,

Olá Romi, estivemos poucas vezes juntos, mas, talvez, nunca tenha me sentido tão próximo a você como nesses dias. Na verdade, eu pensava em escrever sobre outras coisas em minha estreia como colunista na Revista Senso, mas nem sempre podemos fazer o que queremos. Ao ver o que estão fazendo acerca da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021, não pude estrear minha coluna como cientista da religião. Preciso iniciar como teólogo de formação católica. Mais do que isso. Quando fui me dar conta do que está acontecendo, tive que recorrer ao menino do interior, que nos anos de 1993, na escola ouviu pela primeira vez falar de campanha da fraternidade. Nossa professora, Tia Ineida, apontava para nós, crianças, que muita gente não tinha onde morar…. ainda me lembro da musiquinha “onde moras é o grito, que a nós todos desafia…”. A campanha seguinte, que me recordo, foi a que nos levava a ver Jesus no rosto das pessoas em privação de liberdade…. “Eras tu, Senhor?”. Uma boa surpresa que tive foi a primeira campanha ecumênica… imagina, que legal, muitas igrejas cristãs refletindo sobre um mesmo tema? Isso, para mim, era muita novidade. Dessa me recordo da música “para que o mundo creia, na justiça e no amor, formaremos um só povo, um só Deus e um só pastor. De mãos dadas a caminho, porque, juntos somos mais”. A campanha é, talvez, uma de minhas memórias religiosas mais antigas e, talvez por isso, sejam tão importantes em meu caminho religioso.

Mas, minha querida pastora, parece que esse sonho de Jesus “que todos sejam um”, ainda está bem distante de acontecer. Há pessoas na minha tradição cristã, a católica, que parecem atuar como deuses, sabe. Pensam que a tradição do cristianismo se encerra em suas práticas, que em uma Idade Média que somente existiu (ou existe) em suas cabeças é que era um tempo bom. Vivem a gritar “Viva Cristo Rei” e se esquecem que esse rei vivia no meio do povo. Esquecem-se que a conversão exige mudança de mentalidade e de ação; que Jesus sempre esteve ao lado das pessoas que a sociedade desprezava.

Mas, o bom é que, graças a Deus, não são todas as pessoas da minha igreja que são assim. Fico pensando nas pessoas simples do interior, com as quais compartilhei bons oito anos de caminhada, pessoas simples, de coração generoso, estão, neste momento, reunidas, meditando sobre a importância de construirmos sororidade e fraternidade em tempos tão difíceis. Quero crer que há uma minoria barulhenta que abusa do direito à liberdade de expressão e liberdade de crença para atacar a liberdade dos outros.

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Não quero lhe dizer “deixa pra lá!”, não ligue. Quero lhe dizer, estamos juntas nesse caminho de construção de um mundo novo, no qual todas as pessoas possam viver bem, em paz e com dignidade. Não vou lhe dizer “ame a sua cruz”, vou lhe dizer que estamos aqui para partilhar desse momento.

Querida Romi, conte conosco.