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A parte que falta: o que é a espiritualidade?

A parte que falta: o que é a espiritualidade?

Espiritualidade não é religião. Desde que direcionei meu tempo e meu desejo à compreensão de como as pessoas vivenciam a espiritualidade, e o lugar que essa busca ocupa em suas vidas, essa frase me acompanha como uma amiga presente: espiritualidade não é religião. Apesar de serem tomadas popularmente como sinônimos, a religião ocupa um espaço diferente na vida de quem se sente pertencente à determinada tradição institucionalizada. Trazendo consigo não só os símbolos, ritos e experiências religiosas, a religião é um lugar de pertencimento à comunidade e à instituição. Nesse sentido, quando uma pessoa se declara católica, evangélica, umbandista, ou pertencente a quaisquer outras religiões, é necessário levar em consideração o pertencimento que se faz presente em sua fala e o reflexo disso em sua vida e em suas decisões guiadas por um sentimento ético e moral que parte dessas instituições.

A espiritualidade, por sua vez, se distingue pontualmente da religião ao passo que não é, necessariamente, vinculada à uma instituição, seja essa religiosa ou não. Ela é o ímpeto de busca de sentido e a vivência do percurso desta busca. No livro O que é religião? de Rubem Alves, o autor nos fala sobre uma ampla percepção da religião e de como ela é vista dentro de algumas linhas de pensamento, mas também fala sobre a necessidade humana de se estabelecer no mundo e de se situar dentro de um sistema de significações, assim como da capacidade de criar e ressignificar os símbolos. Essa busca se enraíza no fato de que, diferente dos animais, não somos nosso corpo, mas o temos. E ele, o corpo, é sujeito a mudanças e marcas no mundo da mesma forma que se modifica e marca o exterior.

O que impulsiona a busca por significações é a ausência. Não somos completos, a natureza não marca em nós o instinto animal da mesma forma que marca nos lobos ou nas formigas. Buscamos por sentidos diversos e encontramos, no caminho, pedaços simbólicos. Nos abraçamos com essas partes encontradas, e elas começam a nos constituir, fazem parte da produção de sujeitas e sujeitos, que é sempre em relação com os outros e com os símbolos de sentido que encontramos em muitos setores da vida, seja na arte, na música, na religião, na poesia, dentre outros.

Recordo do dia em que li pela primeira vez o livro ilustrado de Shel Silverstein, A parte que falta. Uma rocha, em formato de queijo partido, saía rolando pelo mundo em busca da fatia que lhe faltava. O livro começa com a seguinte frase: “Faltava-lhe uma parte. E ele não era feliz.”, em seguida: “Então partiu em busca de encontrar a outra parte.”. Confesso que esperava menos do livro, talvez por ser uma obra de desenhos simples, quase que primários, de uma rocha em formato de pacman buscando a parte que lhe faltava. No caminho, a rocha se divertia muito enquanto cantava “Oh, busco a parte que falta em mim, a parte que falta em mim. Ai-ai-iô, assim eu vou, em busca da parte que falta em mim”.

Como faltava uma parte, não era redonda, rolava devagar. Tão devagar, que podia parar e conversar com a minhoca. E a borboleta podia pousar nela, esse era o melhor momento. Às vezes ultrapassava o besouro, e às vezes ele a ultrapassava. Subia montanhas acima, rolava montanhas abaixo. Enfrentava a neve fria, que era derretida pelo sol quentinho. Depois de muitas buscas, frustrações, perdas e aprendizados, a rocha encontra uma parte que a completa, e, finalmente, poderia cantar “Achei a parte que faltava em mim”. Mas, inteira, rolava rápido demais. Tão rápido que a borboleta não podia mais pousar nela. Mal dava para ver o besouro, não conversava mais com a minhoca. “‘Ah’, pensou, ‘então é assim!’. Então parou de rolar, e, com cuidado, pôs a parte no chão, e rolou devagar para longe”. Enquanto rolava para longe, cantava: “Oh, busco a parte que falta em mim, a parte que falta em mim. Ai-ai-iô, assim eu vou, em busca da parte que falta em mim”.

Trago esse exemplo para situar melhor o lugar da espiritualidade, e como ela, apesar de poder se vincular à religião, não se constrói, necessariamente, nesse território. Na analogia, a espiritualidade não é a parte que falta, mas o ímpeto de buscar. Não existe uma parte que falta, mas uma ausência. O espaço vazio é o que nos permite pendurar quadros, decorar nosso interior e o nosso exterior. Assim como nos permite retirar os quadros postos, e mudar a decoração. Vimos que temos nossos corpos, diferente dos animais que são seus corpos. Os sentidos que encontramos e apreendemos nas nossas trajetórias não são desassociados dos nossos corpos, como também das realidades que eles nos insere. Ao falar sobre espiritualidade e bioética, o cientista da religião Carlos Frederico Barboza de Souza nos diz que

associar a espiritualidade exclusivamente às religiões ou ao espírito/alma e desvinculá-las da corporeidade e das lutas sociopolíticas, por exemplo, transforma essa rica dimensão da existência humana em algo limitado e restritivo. Da mesma forma, associá-la apenas a práticas como meditação, oração e silêncio, a vivências interiores restritas a alguns momentos e ambientes e não percebê-la na vida cotidiana da profissão e dos relacionamentos, empobrece-a. (SOUZA, 2013, p. 139).

A espiritualidade denota uma percepção da realidade e a vontade de viver uma vida com consciência das relações éticas e pessoais que desenvolvemos com o outro. Traz a reflexão existencial para o cotidiano e coloca em movimento o pensamento sobre o novo como chave de entendimento das situações em que nos vemos, sem nos fazer estagnar na conformação, mas também trazendo à baila a realidade de cada um, pois é também um desenvolver subjetivo. Portanto, quando falamos de pessoas que vivenciam uma espiritualidade não religiosa e se encontram nessa vivência, o assunto não pode ser visto no campo do absurdo ou do ridículo. As religiões não são ofendidas nesse debate, apenas não ocupam mais o lugar central de gerenciamento de sentido na vida dessas pessoas.

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Referencias

ALVES, Rubem. O que é religião? São Paulo: Loyola, 2009.

SILVERSTEIN, Shel. A parte que falta. São Paulo: Companhia das letrinhas, 2018.

SOUZA, Carlos Frederico Barboza. Espiritualidade e bioética. Revista Pistis & Praxis: Teologia e Pastoral, Curitiba, v. 5, n. 1, p. 123-145, jan. /jun. 2013.