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A live está dead – impressões incômodas sobre o novo anormal

A live está dead – impressões incômodas sobre o novo anormal
12 de julho de 2020 André S. Musskopf

O sinal fica fraco ou instável, a transmissão está pesada e a plataforma não comporta microfones e câmeras. A imagem congela, o som corta, as e os participantes “caem”. A ansiedade, o nervosismo e a irritação tomam conta. Dá uma batidinha, chacoalhadinha, liga, desliga, reinicia e atualiza. Insiste, desiste, deixa pra “entrar” ou ver depois. Há um “delay” nos comentários; e nos comentários dos comentários. O problema é no meu ou no seu? Tenta mais tarde. Vai nas configurações. Desliza o “mouse” na parte inferior e clica no ícone do lado esquerdo para abrir uma janela no canto direito superior. A “live” está “dead” e tudo parece tão a/normal.

Estamos nos encaminhando para o sexto mês disso que tem sido adjetivado de muitas formas, provocado reflexões de todos os tipos e alterado significativamente a “vida normal”. Simplificadamente “isso” recebeu o nome de Pandemia de COVID-19 seguindo diversos protocolos nacionais e internacionais que ajudam a nomear o que está acontecendo, mas, de fato, não conseguem expressar todas as situações e realidades vivenciadas cotidianamente. Seja por parte de quem segue negando que há um real problema de saúde pública com suas variadas implicações para diferentes pessoas e grupos sociais, seja por parte de quem está preocupada e preocupado e tentando seguir os protocolos de prevenção e tratamento, há um universo múltiplo de sentimentos e sensações, de vivências e práticas, de posições e relações que não cabem em nenhum adjetivo ou protocolo que se pretenda total.

É sempre um desafio fazer sentido de algo enquanto está acontecendo – talvez não menos do que depois que aconteceu, apesar de todas as grandes teorias explicativas. Até mesmo porque o início e o fim de algo são sempre muito difíceis de definir e permanecem, eles mesmos, instáveis e em constante processo de definição e redefinição, produzindo sentidos diversos a partir de memórias e novas vivências. Isso não invalida, no entanto, as tentativas explicativas, ainda que provisórias, pois há, também, uma disputa de sentido constantemente sendo travada. Algumas ideias são repetidas e repetidas e repetidas até que se tornem “verdades” assumidas ou naturalizadas, porque parecem fazer sentido, e somente perspectivas dissonantes podem manter um certo grau de consciência que permite não sucumbir ao determinismo trágico ou vanglorista (ou qualquer outra posição entre, em cima, ao redor ou abaixo).

Uma das questões para as quais se busca sentido é sobre a ideia de “normalidade”. Como sempre, tal ideia está em disputa nas reflexões mais ou menos teóricas e acadêmicas, nas afirmações e opiniões que circulam nas mídias ou nas conversas intermediadas pela tecnologia digital, nos posicionamentos e nas decisões de autoridades governamentais e na experiência cotidiana das pessoas, seja qual fora a situação em que se encontrem. Parece que a ideia de “voltar ao normal” está praticamente superada ou indefinidamente suspensa – apesar de todas as persistentes tentativas negacionistas. Ao mesmo tempo, a ideia de um “novo normal” não é menos problemática e, ainda que possa acalmar alguns corações mais aflitos, tem muito mais cara de velho do que de novo.

Nunca é demais explicitar que o “normal” chancelado por toda ordem de instituições hegemônicas e dominantes como governos, igrejas, discursos e práticas médicas e legais (etc.) tem sido sinônimo de injustiça, violência e morte. Desigualdade no acesso aos meios de produção e reprodução da vida (comida, água, terra, moradia, educação, lazer, trabalho, segurança) por questões de classe social, raça, etnia, origem, sexo, gênero e sexualidade, idade e habilidades (etc.) seguem determinando o lugar e as possibilidade de vida de pessoas e grupos sociais. Por esse motivo, também há fortes e potentes movimentos de questionamento e resistência denunciando essa suposta “normalidade”, ainda quando imaginam um normal que não é menos contraditório em sua presunção normativa.

Um dos fenômenos que se fortaleceu nesse período são as “lives” ou transmissões “ao vivo”. De momentos de intimidade ou situações comuns do cotidiano, passando por palestras, debates, reuniões, cultos e celebrações, shows e espetáculos, aulas e cursos até pronunciamentos oficiais e propagandas de todos os tipos, “no conforto de sua casa” é possível assistir a “lives” até a exaustão. Computadores, celulares, tablets e outros aparelhos se tornaram definitivamente extensões de nossos corpos e próteses de comunicação com “o mundo” através de apps, plataformas e sites de todos os tipos, como reflete Ana Ester Freire. Quase tudo está entre aspas nessa disputa de sentidos e realidades. Por esses meios as pessoas têm acesso quase infinito a conteúdos e realidades até então estranhas e distantes para muitas delas.

Não há dúvida de que muitas coisas boas e produtivas têm sido produzidas e ocupado espaço nessa disputa virtualizada. Vozes e perspectivas pouco ouvidas ganham espaço nas “lives”, abrem seus próprios canais de divulgação, aprendem a manejar as ferramentas para colocar-se “no ar”. Circulam experiências e conhecimentos com pouca visibilidade, criam novas possibilidades de reflexão e ação e ajudam a sustentar a esperança e a utopia que não cabe em nenhuma definição de “normalidade”. Perturbam “linhas de tempo” bombardeadas por nuvens de “fake news” e “posts” de ódio e intolerância. Inundam as “bolhas digitais” de quem tem mais restrições com relação a vínculos de “amizade” e número de “seguidores” e “seguidoras”.

No campo da educação, com a paralisação das atividades de instituições de ensino (totalmente ou transpostas parcialmente para atividades “remotas”), essa realidade provoca questionamentos profundos. Não porque necessariamente a educação formal tenha um papel salvífico na construção de um futuro incerto, já que é ela mesma um campo de disputa e, muitas vezes, reprodutora de hegemonias e dominação, mas justamente porque provoca novamente a pergunta fundamental de toda pedagogia: como se aprende e como se ensina. E aqui não se trata apenas de conteúdos, mas muito mais sobre o fazer pedagógico exercitado em metodologias e seus efeitos na construção das identidades de quem participa desses processos. Afinal, os meios também são parte do que determina o tipo de educação que se pretende.

Por um lado, poder-se-ia argumentar que isso que tem sido chamado de “novo normal” virtualizado e digitalizado, além da inevitabilidade contextual, é a prova de que determinadas formas de ensino e aprendizagem estão obsoletas e precisam ser adequadas aos “novos tempos”. Num certo discurso privatista e instrumentalista da educação, aliás, essa perspectiva não é nova, mas tão velha quanto o “normal” que pretende reproduzir. Por outro lado, poder-se-ia argumentar que esse “novo normal”, por força ou conveniência, têm oportunizado a descoberta e desenvolvimento de novas práticas educativas com alto potencial de transformação social não suficientemente exploradas até então por setores progressistas e dominadas por setores obscurantistas e fascistas – explicação, inclusive, para sua ascensão e predominância no atual cenário político, econômico e cultural.

Ainda assim, tanto na educação formal quanto em qualquer espaço ou situação em que são vivenciados processos pedagógicos cotidianamente, a questão central apontada por tantas estudiosas e tantos estudiosos e educadoras e educadores continua válida. Se uma educação transformadora e conscientizadora, ou seja, ensejadora de uma postura crítica e construtiva diante do mundo e seus desafios, é o que se tem como objetivo, há que se perguntar pela possibilidade e efetividade da criação de formas de diálogo (com todas as características implicadas numa acepção freireana) nesse “novo normal”. A pergunta pelo papel das ferramentas digitais na educação (por exemplo, em toda a discussão sobre Educação à Distância), não é nova. No cenário atual, no entanto, ela ganha novos contornos que precisam ser considerados.

A reflexão sobre o distanciamento/isolamento social/físico no contexto de uma crise sanitária vivenciada em meio aos processos de reconfiguração do capitalismo com suas políticas de austeridade em aliança com movimentos autoritários e fascistas – frequentemente identificados com grupos e lideranças religiosas – exige atenção redobrada. A armadilha de trocar palavras para legitimar e perpetuar práticas de uma conhecida “normalidade” pode parecer atrativa e evitar questionamentos mais profundos, como mostra Rita Segato. É necessário perguntar quais são as efetivas possibilidades de diálogo oportunizadas no encontro de nossos corpos mediados pelas próteses tecnológicas e ideológicas. Mudar para continuar o mesmo apenas para suprir o desejo de mudança para uns e umas e acalmar a histeria de quem depende da ideia de que as coisas não mudam – ou não deveriam mudar?

Participar e acompanhar “lives”, vídeos, chats, posts exige mais do que um treinamento no uso de ferramentas tecnológicas que para algumas pessoas não relativamente desconhecidas. Afinal, o treinamento em tecnologias é algo que não se restringe às ferramentas digitais, mas refere-se a todas as formas constantemente inventadas e reinventadas de “manejar” a vida das quais ninguém escapa. Exige, como já dito exaustivamente, acesso tanto às ferramentas quanto às formas de treinamento propriamente ditas. E não faltam “lives”, tutoriais e vídeos explicativos de toda ordem – tudo disponível “online” em links e sites ou “salvas” em alguma could ou drive. Mas exige, também, e antes de tudo, a capacidade de fazer sentido e apropriar-se do que se está “vendo” ou “ouvindo” (considerando, ainda, que se tenha essas habilidades sensoriais) e articula-lo como conhecimento no fazer da vida em suas múltiplas dimensões.

 

Referências

Ana Ester de Pádua Freire, Teologia biônica: contágios pós-humanos decoloniais. Editora Recriar, 2020.

Rita Segato, Es un equívoco pensar que la distancia física no es una distancia social. La Nacion, 2 mai. 2020. Disponível em:

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