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Construindo uma cultura transdisciplinar para o diálogo: o Observatório Transdisciplinar das Religiões no Recife

Construindo uma cultura transdisciplinar para o diálogo: o Observatório Transdisciplinar das Religiões no Recife

A busca por formas de diálogo e convivência em meio à pluralidade cultural e religiosa brasileira, constitui-se, na atualidade, como um dos desafios centrais para a nossa convivência social e construção de uma cultura de paz. Em um país historicamente marcado por preconceitos e intolerâncias, não raras vezes desumanizantes, as lutas por justiça social passam, necessariamente, pela defesa das garantias constitucionais à liberdade religiosa e o cumprimento das politicas públicas de respeito à diversidade religiosa. No cenário atual, em que se adensam os fundamentalismos políticos e religiosos, é impreterível trazer para o horizonte das lutas a tradução de outras lógicas interculturais e o diálogo com as diferentes semânticas de dignidade humana.

Em razão disso, a temática do pluralismo religioso e a preocupação político-cultural com o diálogo inter-religioso, entram para a ordem do dia. E essa pauta, para além do engajamento social que lhe é próprio, exige também o desenvolvimento de um trabalho crítico e reflexivo diante de um contexto religioso tão diversificado e dinâmico como o brasileiro. As religiões estão se reconfigurando, contrariando os diagnósticos clássicos da secularização que outrora previram seu fim, e essas mudanças precisam ser descritas e interpretadas a partir de uma abordagem que leve em consideração o fenômeno religioso em sua multiplicidade. Para isso, as pesquisas sobre as religiões necessitam, em suas investigações, construir metodologias transdisciplinares e lógicas dialogais que permitam acompanhar os desdobramentos do pluralismo religioso.

É seguindo essa linha que surge, em 2005, Observatório Transdisciplinar das Religiões no Recife, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco. Idealizado e animado pelo professor Dr. Gilbraz de Souza Aragão, o Observatório é um espaço composto por pesquisadores e membros de diversos grupos religiosos, que desenvolvem conteúdos e atividades, presenciais e na internet, com o objetivo de analisar o fenômeno religioso em suas diferentes interfaces. Busca-se o desenvolvimento de métodos e abordagens que contribuam tanto na pesquisa acadêmica como em meios para animar o diálogo entre as religiões. As atividades do Observatório estão vinculadas ao grupo interinstitucional de pesquisa “Espiritualidades contemporâneas, pluralidade religiosa e diálogo” , que conduz pesquisas sobre o diálogo entre as religiões sob um enfoque transdisciplinar, plurimetodológico e não confessional (ARAGÃO, 2015).

Tendo sempre por horizonte teórico articulador desses trabalhos a perspectiva transdisciplinar e complexa de Nicolescu (1999) e Morin (2005), aplicadas ao fenômeno religioso, o Observatório busca estimular a investigação sobre o diálogo inter-religioso, tornando-se, com efeito, um espaço de observação e investigação transversal das diferentes faces do fenômeno religioso. A esse paradigma pluralista, e a consequente necessidade de um contrato epistemológico da administração de controvérsias, corresponde um modelo transdisciplinar de produção do conhecimento: ele não descarta as disciplinas científicas, mas se move entre, através e além delas.

Sob essa ótica, a transdisciplinaridade permite que a análise do diálogo inter-religioso alcance novas lógicas, uma vez que aquilo que aparece divido ou bloqueado para o diálogo num nível de realidade (conjunto de doutrinas), noutro nível de realidade encontra-se interligado (responsabilidade ética ou silêncio místico). Em outras palavras, a multiplicidade e as contradições que compõe o fenômeno religioso não são vistas como um problema em si, mas como possibilidade para a criação de pontes interculturais e uma abordagem integral do diálogo entre as religiões. Isso porque a transdisciplinaridade cauciona-se na lógica do terceiro incluído que, aplicada ao estudo das religiões e das contradições que delas derivam, remete à busca de outro nível de realidade que possa religar crentes doutrinalmente antagônicos em uma fé que se faz ato. Na práxis de inclusão desse terceiro termo “o diálogo entre as religiões e suas contradições pode encontrar seu critério primeiro (no “outro”, excluído) e derradeiro (no mistério divino da realidade), critério de vivacidade e de verificação” (ARAGÃO, 2015, p. 20).

Ao longo dos dezesseis anos de existência do Observatório, várias experiências de pesquisa aplicando esses princípios foram realizadas. Em seu espaço virtual , são disponibilizados vídeos e sites sobre as tradições religiosas e publicações de membros do grupo. Esse espaço virtual se relaciona com outras iniciativas do projeto Observatório, como o Grupo de Estudos sobre Transdisciplinaridade e Diálogo entre Culturas e Religiões, com reuniões semanais desde 2005, para compartilhamento das pesquisas e preparação de publicações; os eventos que procuram fomentar o diálogo, dentre os quais a Peripateia das Religiões, com edições semestrais, e as Sessões do Grupo de Trabalho “Espiritualidades Contemporâneas, Pluralidade Religiosa e Diálogo”, que ocorrem nos Congressos anuais das sociedades de estudos da religião e também em Seminários Nacionais do GT; além do Fórum Inter-Religioso da UNICAP.

Esse Fórum, organizado pelo Observatório, articulou desde 2007 e, por dez anos, uma série de encontros mensais com animadores das tradições espirituais da região, para o reconhecimento humano da fé e exercício do respeito à diversidade de suas expressões, para reflexão sobre a vivência pluralista do sagrado e ensaio de uma mística transreligiosa. Atualmente, reestruturou-se como grupo de assessoria a associações que surgiram desses encontros, como o Diálogo – Fórum da Diversidade Religiosa em Pernambuco e a Rede de Feiras das Religiões nas Escolas. Após estudar as principais religiões no Recife e também aprofundar temáticas transversais às grandes tradições espirituais (“Religiosidade e educação nas escolas”, “Sacrifício e comparações religiosas”, “Tempos pós-modernos, espaços pós-religiosos?!”, “Devoções religiosas comparadas”), o Fórum se debruçou sobre os desafios teóricos, fenomenológicos e hermenêuticos, para a compreensão crítica e engajada da nossa religiosidade, ensaiando intervenções pedagógicas para aprofundar a promoção do diálogo.

Na esteira dessa experiência de encontros e através de estudantes egressos, uma rede de Feiras e Fóruns das Religiões está surgindo em escolas da Região Metropolitana do Recife, bem como surgiu o Fórum Diálogos, uma associação civil convocada pelo Ministério Público, que reúne mais de vinte tradições e visa colaborar para a construção de uma cultura de paz entre as diversas religiões, refletindo sobre os desafios da liberdade de crenças e convicções e articulando a convivência entre as diversas espiritualidades em Pernambuco. Passando para uma fase mais de assessoria do que de articulação, mas transreligiosa do que simplesmente inter-religiosa, o alvo agora é, então, cultivar tempos e espaços destinados à escuta, ao silêncio e à meditação sobre as vivências da fé, inclusive nas suas versões pós-religiosas. O grupo promove exercícios de comunhão com os caminhos espirituais alterativos, no silêncio nutrido pela própria religião e cultura, desejando colaborar para uma atitude transreligiosa que deve se irradiar entre os educadores e religiosos da região.

Ao participar de engajamentos como esses, fornecendo subsídios epistemológicos e assessoramento, o que se quer, no Observatório, não é simplesmente reunir representantes de religiões pelo prazer de estarem juntos, mas para sentir e pensar o que podem fazer cooperativamente pelo mundo, sobretudo pela educação humanista das novas gerações e pela promoção de justiça socioambiental. Nessa nova fase, o grupo do Observatório pretende desenvolver uma série de encontros e documentários sobre “Conviver: o encontro entre as religiões” . Em cada evento, alguns membros de uma religião passam um dia convivendo, comendo junto e celebrando ou observando a celebração de uma religião estranha. Busca-se, assim, tematizar as possibilidades e dificuldades de encontro entre pessoas de crenças bem diferentes, ensaiando a hospitalidade e acolhimento entre e além das crenças, captando os estranhamentos e as surpresas, detectando os desencontros e algum encontro, conversando com sinceridade sobre os sentimentos diante das pessoas diferentes e dos seus ritos.

Por fim, e para além dos muros da UNICAP, o Observatório ajudou a fundar e tem colaborado para a construção do Museu Parque das Religiões de Pernambuco. Esse espaço, iniciativa de um grupo de amigos sonhadores do diálogo, almeja ser um local aberto a todos, com o propósito de apresentar o fenômeno religioso na atualidade e na região, mas também através do tempo e espaço afora, com as melhores técnicas museológicas e os mais avançados estudos em história comparada, procurando educar para a interpretação das linguagens simbólicas e o diálogo entre as religiões e destas com as ciências. Assim vai se desenhando um lugar para acolher jovens que desejem conhecer o desenvolvimento das religiões; seus personagens divinos e palavras inspiradoras; os espaços, calendários e rituais sagrados; as visões da vida para além desta; a vivência comunitária e ética nas tradições; seus conflitos, sincretismos e diálogos místicos e culturais.

Em síntese, o Observatório, por meio de sua prática de pesquisa transdisciplinar e engajamento social, aponta para a busca de uma espiritualidade transreligiosa que fomente, sobretudo, espaços comunitários de educação, o diálogo entre tradições religiosas em nossa cultura pluralista e para o âmbito democrático e republicano em que vivemos. E justamente nessa linha que Observatório nos faz um convite: o de descer da torre cinzenta das teorias sobre as religiões e se aventurar em um passeio transdisciplinar pela natureza verdejante e plural das religiosidades.

 

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Referências

ARAGÃO, Gilbraz. ; SOUZA, Mailson. Transdisciplinaridade, o campo das Ciências da Religião e sua aplicação ao Ensino Religioso. ESTUDOS TEOLÓGICOS, v. 58, p. 42-56, 2018.  Acesso em: 12 mai. 2020.

ARAGÃO, Gilbraz. Do transdisciplinar ao trans-religioso. In: ARAGÃO, Gilbraz; VICENTE, Mariano. (Orgs.). Espiritualidades, transdisciplinaridade e diálogo. Recife: Observatório Transdisciplinar das Religiões no Recife, 2015b, v. 1, p. 17-31.

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2005.

NICOLESCU, Basarab. O manifesto da transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 1999.