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Arte religiosa como mediadora do diálogo entre as religiões

Arte religiosa como mediadora do diálogo entre as religiões

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Falar de arte na sua gênese diz muito do falar de religião. Diz-se isso pelo fato de que, no rol das grandes manifestações artísticas da humanidade, o aspecto do sagrado está presente na maioria delas. Independente da cor, sexo, classe ou posição social, todas a culturas se valeram da arte para expressar aspectos de sua relação com o sagrado, ao longo da história.

A arte religiosa, por si só, atua como poderosa mediadora do relacionamento entre o crente e a divindade que adora. César Augusto Sartorelli, no Compêndio de Ciência da Religião, pág. 558, diz que “a gênese da arte está diretamente relacionada com a gênese da cultura humana e da religião”. Isso equivale a dizer que a arte, enquanto componente ativo e importante das manifestações religiosas, está intrinsecamente relacionada à mensagem que quer passar uma determinada doutrina, e isso é uma função importante, uma vez que figura como veículo ideológico da própria doutrina.

No atual contexto pluricultural e religioso da humanidade, a arte tem desempenhado um novo papel, esboçado no seio das profundas transformações de cunho socioeconômico, cultural e político surgidas nas últimas décadas, com o advento da globalização: o de mediadora do diálogo entre as religiões. Este novo papel se desenha em função da noção de aldeia global, na qual povos e culturas estão mais próximos entre si, cambiando informações culturais, em virtude dos avanços tecnológicos, veiculadas pelos mais modernos meios midiáticos, com destaque para a Internet. Todavia, só se pode compreender esta relação da arte como mediadora do diálogo entre as religiões, compreendendo-se que o diálogo inter-religioso é, essencialmente, um diálogo intercultural.

Os relacionamentos interculturais, contudo, configuram relações de proximidade que, no aspecto do pluralismo religioso, são complexas. E é neste aspecto que a arte religiosa encontra sua aplicabilidade como mediadora de diálogo entre os diferentes credos religiosos existentes no planeta. Um exemplo disso pode ser verificado no relacionamento existente entre a religião cristã no ocidente e as religiões orientais como o budismo, o hinduísmo e o xintoísmo, no que tange ao intercâmbio de símbolos religiosos.  Atualmente, é comum se observar cristãos que possuem em suas casas estatuetas religiosas ou quadros de divindades hinduístas, principalmente de Ganesh, deus da abundância e removedor de obstáculos ou de Lakshmi, deusa da abundância e da sorte, bem como de Buda, expressão máxima da religião budista. Seja lá por motivos de superstição ou mesmo de crença, ou para garantir a manutenção de boas energias no lar, próprias da prática harmonizadora milenar do FengShui, o certo é que a arte figurada no imaginário religioso do oriente se mistura ao imaginário de santos cristãos e outras divindades. O próprio FengShui alude que a disposição correta de móveis e objetos artísticos religiosos dentro de um ambiente, orientada por sua conexão com os quatro elementos, é capaz de garantir a harmonia e a prosperidade desse.

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Este caráter mediador da arte no contexto do diálogo inter-religioso pode também ser aplicado para dirimir conflitos entre as religiões. Uma prova disso é a capacidade que a arte tem de introduzir simbologias de paz, comuns à credos diferentes, como se pode verificar nas relações de proximidade entre cristãos, judeus e muçulmanos, que possuem a mesma ancestralidade abraâmica. Nas representações artísticas religiosas de ambos os povos, alguns elementos simbólicos são comuns, como por exemplo o ramo de oliveira, símbolo da paz. No santuário de Nossa Senhora do Líbano, em Harissa, que une católicos e muçulmanos de forma harmoniosa no culto à Mãe de Jesus, honrada tanto na Bíblia cristã quanto no Corão islâmico, a arte religiosa presente no edifício remete a isso.

Observa-se que a arte religiosa pode e deve ser cada vez mais utilizada para se propor a missão de diálogo entre as religiões, pois sua mensagem transcende a própria língua falada e escrita, materializando-se no apelo visual, que, por si só, é eficaz para realizar esta mediação. Neste aspecto, deve-se sempre valorizar este apelo visual e estético que só ela possui.

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