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Vai, mulher: andai com passo firme que é pra não bambear

Vai, mulher: andai com passo firme que é pra não bambear

Uma vez, em conversa sobre experiências religiosas, encontros e rupturas, uma querida companheira me disse que um dos motivos que a fez se tornar uma mulher sem religião foi a falta de um lugar que lhe causasse arrepios ao som do atabaque. Ela me explicou que quem é da umbanda se arrepia quando o atabaque toca, e que não sentir os pelos do corpo se enrijecendo era, para ela, sinal de que algo naquele momento, ou naquele espaço, não a tinha fisgado como deveria, então “suspendeu a religião”. Essas experiências sensoriais, de fato, têm muito a nos ensinar, pois são elas que nos permitem sentir o mundo, e, com isso, apreendê-lo e nos aprender nele. Em um desses momentos de aprendizado anunciados pelo arrepio conheci a música Valente de MC Tha que me fisgou por inteira.

A música que, assim como muitos projetos da cantora, traz símbolos da umbanda tanto na letra quanto no clipe, é ilustrada pelas chaves que MC Tha carrega em seu corpo penduradas no colar e nos brincos. Pensando no significado de carregar chaves, entendo que a cantora tem em seu corpo a possibilidade de abrir e fechar portas, aprisionar e libertar algo, alguém ou a si mesma. E por carregar essa possibilidade, não se contenta em ser livre só, nos chama também para esse movimento logo na primeira estrofe de seu funk: “liberta a tua mente pra ela não desandar, lembra que é valente como as águas do mar, que é tapete de serpente que dão pra nóis pisar, andai com passos firmes que é pra não bambear.”

Hoje comemoramos o dia internacional da mulher, e ouso dizer que a música de Tha, apesar de não ser feita unicamente para mulheres, diz muito sobre nós e para nós. Então, como a cantora nos chama para seguirmos em frente, é com valentia, passos bem firmes, e mentes libertas, que convido vocês para uma reflexão a partir, de Valente, sobre o que é andar nesses tapetes de serpente que nos dão ao longo da vida e a necessidade de nos encorajarmos para seguirmos juntas na luta.

Penso que a data representa um momento propício para essa conversa, e já imagino que muitas mulheres serão chamadas para darem palestras nesse mês de março em empresas que demonstrarão um interesse repentino nas dificuldades e superações das mulheres em diversos setores sociais. Isso é bom para as companheiras que poderão reservar o pagamento das palestras de março para desafogarem as dívidas, já que só as chamarão no outro ano. Essa relação não é novidade para nós que nos encaixamos em alguma categoria minoritária, já se sabe que em abril comemora-se o dia do indígena, embora a guerra contra eles não cesse nem um minuto, em julho os LGBTQIAP+ receberão algum cachê, em novembro se chama alguém para falar sobre a consciência negra e assim por diante.

Esse interesse repentino em falar sobre as dificuldades em ser mulher em um país misógino dura pouco, e quando pensamos que algo será feito para tornar as nossas realidades menos difíceis, a data já passou e o assunto da vez é outro. Nós que continuamos batendo na mesma tecla passamos a imagens de mulheres ressentidas que não trocam o disco. E nisso tenho que concordar, pois, apesar de termos avançado em muitas pautas, é triste perceber que repetimos o mesmo discurso das nossas companheiras mais antigas e mesmo assim não somos ouvidas.

Estaríamos nós falando em línguas estranhas? Não somos boas comunicadoras? Nossos textos são tão difíceis assim de serem compreendidos? Já me demorei muito nessas questões pois não me conformava que meus colegas e professores filósofos, teólogos, cientistas da religião, e por aí se segue a lista das castas que conhecemos quando entramos na universidade, me diziam que não conseguiam entender esses assuntos de feminismo, gênero e raça. As mesmas pessoas que traduziam latim, grego e sânscrito desistiam de tentar compreender que existem desigualdades raciais, sociais e de gênero no nosso país colonizado.

Foi então que MC Tha me ajudou a compreender os motivos dessa dificuldade. Ela nos diz: “Quem eles pensam que são pra te apontar? Não sabem da tua luta, não entendem seu linguajar.” Agora sim fez sentido. Não é que não tenham a capacidade de entender o que estamos falando, é que o nosso mundo, as nossas dores, as nossas lutas, são expressadas através da linguagem, tudo o que sentimos transmitimos pela linguagem e eles não entendem o que falamos porque seus mundos são outros, seus linguajares são outros e não estão dispostos a perderem esse lugar de segurança.

Precisamos pensar como a cantora, antes de gastarmos muito tempo sendo solidárias com quem se recusa a nos enxergar enquanto sujeitas de poder. Quando você perceber que estão duvidando da sua capacidade por ser mulher, ou que algo no discurso dos seus possíveis companheiros de trabalho, ou da vida privada, se transveste de uma violência passiva-agressiva, não volte a questão para você, companheira. Pense: quem eles pensam que são pra me apontar? Firme seus passos para não bambear.

Mulheres, é preciso que estejamos juntas, nos espelhemos nas histórias das nossas semelhantes e escolhamos bem os nossos aliados. O feminismo não pode se tornar um lugar vazio de prática, ou acervo de frases soltas em redes sociais. Feminismo é práxis, a teoria parte de realidade e volta para ela enquanto transformação. Então, precisamos parar de repetir os erros daqueles que dizem que não entendem sobre assuntos de gênero, feminismo e raça — quando sabemos que não querem entender — para não construirmos um movimento que olhe para as mulheres latino-americanas, sobretudo as brasileiras, como se sofressem igualmente as desigualdades do nosso gênero.

A professora Lélia Gonzalez diz que para as amefricanas e ameríndias do Brasil e de outros países da região “a consciência da opressão ocorre antes de tudo por causa da raça. A exploração da classe e a discriminação racial constituem as referências básicas da luta comum de homens e mulheres pertencentes a um grupo étnico subordinado.” (GONZALEZ, 2020, p. 147) É nesse espaço que se organizam em um movimento de resistência e são, muitas vezes, protagonistas. A partir da participação nesses movimentos de libertação, surge a consciência da discriminação sexual. Lélia diz:

nossos parceiros do movimento reproduzem as práticas sexistas do patriarcado dominante e tentam nos excluir da esfera da decisão do movimento. E é justamente por esse motivo que buscamos o movimento de mulheres, a teoria e a prática feministas, acreditando poder encontrar ali uma solidariedade tão cara a questão racial: a irmandade. Contudo, o que realmente encontramos são as práticas de exclusão e dominação racistas (GONZALEZ, 2020, p. 148)

Então as amefricanas e ameríndias lutam e mobilizam duas frentes: os movimentos étnicos e de gênero, sendo que aquele carrega um “clima de maior familiaridade história e cultural” (GONZALEZ, 2020, p. 149) que é ignorado por vezes no movimento feminista. Ignorar que mulheres brancas não sofrem como as mulheres afro-americanas e ameríndias, pois não compartilham a vivência da discriminação racial, retira do movimento feminista a possibilidade de acolhimento e transformação.  Se partimos da realidade para construirmos a teoria, não pode passar despercebido e só compreenderemos as dores das nossas companheiras ouvindo o que têm a dizer. Só assim se conhece a luta de alguém.

Trazendo uma outra reflexão musical para esse dia de orgulho e luta, evoco a oração feita por Linn da Quebrada em sua música de mesmo nome:

Eu determino que termine aqui e agora

Eu determino que termine em mim, mas não acabe comigo

Determino que termine em nós e desate

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E que amanhã, que amanhã possa ser diferente pra elas

Que tenham outros problemas e encontrem novas soluções

E que eu possa viver nelas, através delas e em suas memórias


Referências

GONZALVEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

Linn da Quebrada. Oração. Acesso em: 07 de março de 2022.

MC Tha. Valente. : Acesso em: 07 de março de 2022.