Teu samba é uma reza! Por verdades que primem por uma ética das diferenças e desvelamentos de discursos àìmọ̀tológicos

Teu samba é uma reza! Por verdades que primem por uma ética das diferenças e desvelamentos de discursos àìmọ̀tológicos
Michel Alves Ferreira 20 de abril de 2020

Começamos este diálogo prestando ìdọ̀bálẹ̀ (reverência) aos compositores do samba-enredo 2020 da escola de samba carioca Estação Primeira de Mangueira, senhores Luiz Carlos Máximo, Manu da Cuíca e, também, ao intérprete Marquinho Art’samba, este último quem deu vida à música que inspirou o título deste texto: A Verdade Vos Fará Livre. Verdade esta tecida na canção em forma de prece à uma divindade cristã que valoriza as diversidades e diferenças de cada grupo social, especialmente os estigmatizados por seus fenótipos, costumes, tradições, vestuários, territórios, afetividades e linguagens.

O samba-enredo de 2020 da Mangueira, bem como o desfile realizado no sambódromo do Rio de Janeiro no fim da noite de 23 de fevereiro, é um exemplo materializado de busca por uma ética que enxerga as diferenças entre grupos sociais como apenas diferenças. Nunca como opositores negativos frente a um determinado grupo social produtor de poder que deseja simplesmente aniquilar a existência de outro grupo para manter o seu domínio. Ora, uma vez aniquilando as diferenças, se oferece uma narrativa politicamente reduzida e, consequentemente, uma pasteurização de visão de mundo, como bem argumentou Thiago Teixeira no sexto capítulo do livro Inflexões Éticas, publicado no fim de 2019 pela Editora Senso.

Do mesmo modo, quando a letra do samba mangueirense diz que o rosto do Filho Amado dos cristãos pode ser, também, de um homem negro, de uma mulher, uma pessoa LGBTI+ ou mesmo indígena e, ainda, um favelado, simplesmente se desvelam ditas narrativas hegemônicas religiosas que usurpam para si como as únicas detentoras de uma verdade, utilizando de todos os artifícios discursivos para justificar atos de violências e intolerâncias, a verdadeira banalização da violência reiterada na cotidianidade das relações sociais: destruindo espaços sagrados de Candomblé, agredindo mulheres negras em bares tradicionais de Curitiba e, ainda por cima, deslegitimando/estereotipando os discursos da vítimas e seus comportamentos, vestes, tradições. Afinal, quem mandou essas pessoas frequentarem esses espaços, não? Elas não são dali, mesmo que deixem seu suor laboral do aqué (dinheiro) nosso de cada dia.

Assim como a tragédia anunciada pela pandemia do Covid-19, uma vez que esta enfermidade não escolhe quem irá atingir, mas escolhe quem é mais propenso a morrer: não somente a partir de doenças pré-existentes e/ou baixa imunidade, mas também por condições sócio econômicas degradantes a qualquer sujeito, mas que estão naturalizadas em nossa cotidianidade simplesmente porque estes sujeitos são os outros, os não sujeitos, os periféricos, conforme textos de Judith Butler sobre a morte como condição social preponderante do capitalismo, assim como os limites deste sistema[1].

Aqui se apresenta a àìmọ̀ (ignorância), a partir do que esta palavra representa para nós na cultura/língua Yorubá: não se trata apenas de ser yòpe (ignorante no sentido de não ter instrução sobre algo), mas no sentido de uma promoção de uma cultura para a ignorância coletiva, uma deliberação de determinar o que se deve dizer, como se deve dizer, o que se deve esconder e, por fim, para quem se deve dizer coletivamente. Ou seja: a ignorância é um sistema, é ideologia dominante, é uma ciência, é um estudo.

Subverter essas universalizações narrativas é dar consciência ao que se determinou aconsciente, abjeto, a este que a todo instante é lembrado de que ele/ela é o/a diferente da norma, o/a que é humilhado/a cada batida policial só pela cor da sua pele, ou pelo seu cabelo, suas roupas, seus símbolos religiosos, seu jeito de falar, sua localização territorial e sua condição econômica, tomando estas reflexões a partir do que Achille Mbembe discorre sobre as necropolíticas em seu belo e profundo ensaio, publicado/traduzido no Brasil em 2018 e reimpresso em 2019[2]. Ou aquele/a que não se vê representado nas representações artísticas do Filho do Deus Cristão, daí a crítica genial da Mangueira[3], especialmente dos responsáveis pelo samba-enredo, no verso a seguir:

 Mas será que todo povo entendeu o meu recado? / Porque, de novo, cravejaram o meu corpo / Os profetas da intolerância / Sem saber que a esperança / Brilha mais na escuridão

Ora, também estamos nesta incursão reflexiva, caras e caros pacienciosas/os leitoras/es, buscando uma inflexão ética dos significados “consagrados” da filosofia (etimologicamente falando), para refletir conjuntamente a partir de nossos saberes e ancestralidades, daí o jogo de palavras/conceito usado no título do texto (yorubá + latim/grego): àìmọ̀tológico!

Desvendar a àìmọ̀tologia automaticamente está relacionado a ver as diferenças como um elemento fundamental para nossa sobrevivência enquanto humanidade e ruptura de um sistema que provoca mais segregação e naturalização da morte. Basta observar a diversidade presente na natureza, queer por excelência em sua variedade de espécies, territórios, cores, sexualidades, comportamentos, interrelações.  Ou seja, que só podemos falar em verdades (sim, é no plural mesmo que deve ser) com o Outro, pelo o Outro e nunca somente para o Outro. Assim, essas verdades só podem nos fazer livres a partir das diferenças. Um beijo afetuoso! A dúpé!

Notas:   

[1] Tradução do texto original de Artur Renzo para o blog da Boitempo. Link: <https://blogdaboitempo.com.br/2020/03/20/judith-butler-sobre-o-covid-19-o-capitalismo-tem-seus-limites/>; Texto de Butler publicado no El País: <https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/27/cultura/1543350943_401404.html>

[2] MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: N-1 Edições, 2019.

[3] MÁXIMO, Luiz Carlos; CUICA, Manu da. A verdade vós fará livre. In.: Sambas de enredo das escolas de samba 2020. Rio de Janeiro: Universal Music, 2019, faixa 1.

 

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