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A cloroquina das Ciências da Religião: porque a pseudociência é uma ameaça?

A cloroquina das Ciências da Religião: porque a pseudociência é uma ameaça?

De forma geral, quando falamos de pesquisa acadêmica, o problema epistemológico (formas de conhecimento) e metodológico (ferramentas e abordagens) são os pilares que fundamentam a validação científica do conhecimento produzido. Com as Ciências da Religião, essa preocupação assume um caráter multifacetado, ao passo que, sendo a nossa área por essência interdisciplinar, pensamos não em uma, mas várias epistemologias e metodologias para apreensão das manifestações religiosas (ou a “ausência” delas) nas sociedades.

Portanto, um dos primeiros passos e, talvez o mais fundamental nessa trajetória, é assumir um escopo genuinamente científico perante o (s) objeto (s) de estudo. Mas, como garantir essa cientificidade? Quais são os critérios para definição de um trabalho de Ciências da Religião propriamente dito? Se fôssemos tratar de elementos químicos, trajetórias elípticas de astros ou mecânica dos átomos, talvez seria um pouco mais fácil responder essas perguntas.

No decorrer da história do pensamento, a ciência foi produzida a partir da criação, confirmação e refutação de hipóteses. Essas são uma das bases que consolidam o estatuto da ciência enquanto algo refutável (do contrário, não existiria história da ciência). Sendo assim, as cientistas e os cientistas não podem/ou não poderiam ter um “apego” às suas hipóteses, mas sim assumir uma postura de que as teorias produzidas não são um conhecimento acabado, e nisso consiste a importância e necessidade de testar (quantas vezes for preciso) suas suposições, verificando a factibilidade ou não das mesmas.

Quando pensamos em como a ciência é vista pelo senso comum, o cenário é igualmente preocupante. Há alguns anos, os veículos jornalísticos colocavam as cientistas e os cientistas num lugar de adoração e reverência. Então, manchetes como “ciência descobre cura para AIDS”, “ciência finalmente prova que tomar café faz bem à saúde”, corroboraram para uma visão endeusada da ciência, enquanto um conhecimento pronto, acabado, inquestionável e que confirmava o que as pessoas queriam que fosse confirmado.

 Essa concepção endeusada de ciência foi extremamente prejudicial não só porque é falaciosa, mas porque abriu margem para que as pseudociências caíssem no gosto popular, uma vez que não eram refutadas e apresentavam respostas simples para problemas complexos. Nesse sentido, quando alguns pseudocientistas traziam, e ainda trazem, estudos de caráter duvidoso que confirmam hipóteses também duvidosas — como a existência da alma, por exemplo — a população facilmente dava, e ainda dá, crédito à teoria apresentada, enquanto crença inquestionável. Sendo assim, quando alguma teoria científica era refutada (o que acontecia e acontece com frequência, afinal, estamos tratando de ciência), as pessoas que assumiam, e ainda assumem, essa postura que diviniza a ciência, acabam se decepcionando e desacreditando na mesma enquanto forma segura de conhecimento. É exatamente por isso que nós não devemos crer na ciência, e sim entendê-la.

E se tratando de temas como religião, espiritualidade, mística, ateísmo, espiritualidade não religiosa, sincretismo, dupla pertença, crenças, não crenças e etc., essa tarefa se torna mais complexa e até mesmo perigosa. Pois quem não tem clareza do que é ciência pode, facilmente, produzir pseudociências. Sendo assim, retomar a discussão sobre o que é ciência se torna urgente, principalmente em tempos sombrios de negacionismo científico.

Assisti a uma palestra uma vez, em que o professor sabiamente definiu ciência enquanto linguagem. Nesse sentido, assim como o português, ciência é linguagem, mas, mais do que isso, é também uma linguagem construída por mulheres e homens para explicar o funcionamento da realidade material, portanto, a ciência não trata do sobrenatural.

Trazendo para a área das Ciências da Religião, temos inúmeros pontos que precisam ser demarcados para que sejam coerentes com o cunho científico presente no estatuto da mesma. O primeiro aspecto talvez seja diferenciar Teologia das Ciências da religião, ou seja, entender que não cabe a cientista e o cientista da religião, afirmar ou negar a existência do transcendente/sagrado; inserir juízos de valores sobre uma crença/ritual, assim como a validade dos relatos. Por exemplo, a cientista ou o cientista que faz um estudo de campo de x ritual religioso (candomblecista, budista, cristão e etc.) não deve em hipótese alguma, inferir sobre a veracidade/validade daquela prática simbólica, mas sim assumir uma postura de análise (aqui entra a interdisciplinaridade) a partir do que o campo diz a ela/ele.

Nesse sentido, durante a pesquisa em Ciências da Religião (e acredito que em qualquer outra área do conhecimento), devemos ter a cautela de não universalizarmos nossas hipóteses.

Quando estudamos alguma tradição ou comunidade religiosa, trabalhamos com algo específico que se localiza dentro de um grupo maior que dá nome ao segmento religioso ou não religioso. Por se tratar da especificidade das vivências e das doutrinas, não podemos universalizar os relatos que colhemos como uma verdade da comunidade como um todo. Isso porque estudar um grupo específico dentro de uma tradição religiosa não permite a pesquisadora ou ao pesquisador inferir sobre os demais segmentos inseridos nessa mesma doutrina. Ou ainda, a partir de um dado factível, realizar um “salto” que “confirme” uma hipótese fora da realidade. Por exemplo, a partir de um relato em primeira pessoa de um milagre religioso, comprovar que Deus existe.

Acredito que um dos pontos de partida para pensar o fazer científico seja nunca fugir do pressuposto básico de que as hipóteses devem ser fundamentadas e confirmadas na realidade. Por isso, a importância de definir o recorte do seu objeto de pesquisa e, sobretudo, se manter nele.

A tarefa da cientista e do cientista da religião é árdua, de traduzir o fenômeno religioso para dentro da linguagem científica, bem como de manter os pés firmes no chão para de fato, compreender e fazer ciência. Longe de trazer respostas para essas indagações ditas anteriormente, acredito que é importante desconstruir a ideia de que a ciência é um conhecimento acabado e perfeito, pois ela não é. A ciência é feita por nós, mulheres e homens, portanto será passível de erros e refutações (felizmente).


Referências

Attico Chassot – “O Que é Ciência, afinal?”. Bahia: Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, 2012. 1 vídeo (1h18:29 min). Publicado por TV UFRB. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Sqmpk3i3R0I&t=704s. Acesso em: 25/10/2021.

 VEJA TAMBÉM

CAMPOS, Fabiano Victor. Explicar e compreender: a querela em torno do procedimento epistemológico próprio da Ciência da Religião. Interações, Belo Horizonte, v. 13, n. 23, p. 38-72, jan./jul. 2018.

CHALMERS, Alan F. O que é Ciência, afinal? São Paulo: Editora Brasiliense, 1993.

CRUZ, Eduardo Rodrigues. Estatuto epistemológico da Ciência da Religião. In:

PASSOS, J. D.; USARSKI, F. (org.). Compêndio de Ciência da Religião. São Paulo: Paulinas, 2013. p. 37-49.

SENRA, Flávio. Estudos de Ciência(s) da(s) Religião(ões) e Teologia no Brasil: situação atual e perspectivas. Rever, São Paulo, v. 15, n. 2, p. 196-214, 2015.

TIELE, Cornelis Petrus. Concepção, objetivo e método na Ciência da Religião. Rever, São Paulo, v. 18, n. 3, p. 217-228, 2018.