Ser de esquerda ou de direita: pensando a fé na política brasileira

Ser de esquerda ou de direita: pensando a fé na política brasileira
Kenner Terra 11 de fevereiro de 2020

Para certos leitores, falar em direitos, justiça social, democracia, defesa de pessoas fragilizadas, pensar um sistema com melhor distribuição de renda, criticar posturas racistas, homofóbicas, etc. seria sinônimo de marxismo ou estaria no espectro político da esquerda. Apresentarei alguns pontos a respeito desse assunto. Para muitos, o que escreverei é uma obviedade. Mas vamos lá.

1. A tradição bíblica em diversos lugares revela preocupação com as injustiças sociais. A pobreza, a má distribuição de bens, os autoritarismos opressores e a ganância geradora de desigualdades sempre foram criticados pelos profetas. Os Salmos, nessa mesma linha, mostram a pobreza e fome como alvos das preocupações divinas. Isaías 1.1-10, por exemplo, denuncia a religião que se preocupa com a liturgia, mas não se escandaliza com a injustiça social: “aprendei a fazer o bem! Buscai o direito, corrigi o opressor! Fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva”. Na Torah, temos propostas legais que são criadas para gerar melhores condições sociais e diminuírem a desigualdade na sociedade de Israel: rebusca (Lv 19.9-10; 23.22; Dt 24.19-21) e o ano de jubileu (Lv 25.8-34). Ainda, em Is 58 o profeta explica qual o jejum pretendido por Deus: “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?”. Para o profeta, a preocupação social e a comoção pelos que sofrem são atos espirituais. O mesmo Isaías denuncia a sociedade que dá moradia e terra para uns enquanto outros vivem sem nada: “Ai dos que ajuntam casas e mais casas, dos que acrescentam um campo a outro, até que não haja mais onde alguém possa erguer sua casa, e eles se tornem os senhores absolutos da terra!” (Is 5,8). No NT a mesma ideia é preservada. O conceito de Reino de Deus vislumbra o horizonte da consumação futura, mas mostra como seria a vida desejada para o povo à luz da vontade divina (Lc 4.18-19; Mt 11.5). Seguindo, temos as orientações clássicas da carta de Tiago e o próprio Paulo ajudando aos pobres de Jerusalém. Lendo os evangelhos, logo identificamos as pessoas com quem Jesus andava: sempre as mais frágeis. Com esses poucos exemplos, percebemos claramente que a injustiça social, que humilha e desumaniza, é contra a vontade de Pai de Jesus Cristo. Por essa razão, quando se defende questões sociais não se está alinhando, necessariamente, a qualquer partido político, lado direito ou esquerdo, mas trazendo à memória perspectivas bíblicas. Assim, no período das eleições essas preocupações devem perpassar os interesses dos quais intentamos apoiar. Mas isso não significa escolher alguém da direita ou da esquerda, mas sensível às diversas violências, inclusive contra aqueles com os quais não concordamos. Pobreza, fome, desemprego, racismo, feminicídio, violência contra mulheres, contra crianças, contra povos tradicionais, má distribuição de renda, de terra, etc. não são preocupações esquerdistas ou marxistas, mas cristãs. A fé evangélica crê que somente na implantação do Reino em sua plenitude haverá a libertação de todas as coisas, mas o que esperamos para o fim, como vemos nos ensinamentos de Jesus, é nosso modelo de ação e escolha para o nosso “hoje”. Não podemos achar normal ou se aliar a quem não tenha esse tipo de sensibilidade. Isso não significa que o candidato seja evangélico, mas, pelo menos, tenha preocupações mínimas em relação a esses pontos.

Créditos: Martin de Witte

1.1 E mais, historicamente a tradição protestante sempre esteve envolvida em questões da esfera pública a partir da fé evangélica. Thomas Müntzer e a Reforma Radical, por exemplo, denunciaram em seu tempo a má distribuição de renda, militavam pelo direito dos camponeses e contra a pobreza. Segundo Müntzer, essas exigências seriam espirituais e dignas do Reino justo de Jesus. João Wesley, por sua vez, estabeleceu fundos de empréstimos para pessoas que desejassem começar uma empresa familiar ou pagar uma dívida urgente. Para os doentes, fundou um ambulatório e compilou um livro de remédios caseiros. O mesmo Wesley lutou de todas as formas contra o tráfico negreiro, racismo e escravidão. Da mesma forma, William Wilberforce, protestante que era, foi um importante parlamentar e enfrentou crueldades e a escravidão. Hugo Grotius, também protestante e arminiano, foi um grande ideólogo do Direito Natural, germe do que chamaríamos de Direitos Humanos. Comenius, também protestante, escreveu a Didática Magna e defendeu a popularização da educação para os pobres e mulheres, quando essa realidade não era perceptível. Luther King, que todos nós ovacionamos, era pastor batista! Poderia citar muitas outras pessoas aqui, as quais sempre defenderam em seus sermões e práticas a socialização de bens, justiça e direito. Contudo, chamá-los de “esquerdistas” seria, no mínimo, maldade e anacronismo. Ou seja, a fé no evangelho os impulsionava para posições mais solidárias em diversos setores: renda, educação, saúde, terra, gênero, salário, etc.

2 . A relação entre Igreja e Governo precisa ser bem delimitada. Os protestantes, com suas diversas complexidades, são historicamente defensores dessa separação. Entendam: o que chamamos de ética cristã é um conjunto de valores universais, os quais, inclusive, estão nas bases de algumas leis, como justiça, equidade etc. Contudo, há algumas propostas morais, as quais dividem opiniões, que devem ser testemunhadas e não impostas. Se os evangélicos são contra a relação homossexual, por exemplo, eles têm o direito de discordar. Contudo, não devem jamais desejar a eliminação da existência desse grupo e o Estado precisa legislar garantindo-lhes direitos e defesa. Ser a favor da família não é negar o direito desses cidadãos viverem sua sexualidade. Impedir essa liberdade é, na verdade, intolerância. Inclusive, o evangélico conhecedor de sua história deve exigir a proteção de qualquer injustiça. Posso discordar da prática, mas preciso, como cristão, exigir que tenham seus direitos preservados. Não podemos negar, pessoas morrem no Brasil por conta de sua orientação sexual, gênero, cor ou etnia. Isso deveria nos escandalizar. Talvez você diga: “isso é vitimismo”, “mimimi”. Exageros podem acontecer, mas os fatos e os dados precisam ser levados a sério, porque somos seguidores do Deus criador e justo. Por sua vez, essa mesma postura se aplica às outras religiões. Mesmo que não concorde com crenças diferentes das suas, o protestante precisa exigir que tenham liberdade para vivenciá-las – quando éramos um país sob a ordem de um tipo de tradição de fé, nós protestantes sentíamos na pele a dor do tolhimento; vamos cair no mesmo erro?

3 . Sobre ser a favor da família. Precisamos afinar esse conceito. Para a maioria dos evangélicos, a família padrão é formada por um pai, uma mãe e filhos. Contudo, até mesmo entre nós há realidades que não se encaixam nesse modelo: casamentos de divorciados, mães que criam filhos sem pai, avós que são os pais de seus netos, pais solteiros, etc. Por outro lado, a maioria acredita ser, mesmo nessa multiplicidade de possibilidades de modelos, a relação heterossexual o modelo. Contudo, na realidade esse padrão não é seguido por todos e na prática esse não é o único modelo aceito socialmente, mesmo que para os evangélicos, de maneira geral, seja pecado. Então, qual o papel do evangélico diante disso? Militar contra essas pessoas? Pelo contrário, é respeitar sua opção e testemunhar. E o testemunho se dá pela prática e diálogo e não com a força legal do Estado. Se há pessoas defendendo posições que sejam contrárias à proposta cristã tradicional, elas têm o seu direito de pronunciamento, assim como os evangélicos.
3.1 Outro ponto. Ser a favor da família também é desejar que ela se sustente, tenha comida na mesa dos filhos e trabalho para os pais. Qualquer proposta político-social que não se preocupe profundamente com isso, seja de direita ou de esquerda, é contra a família.

4. Pensando em política partidária, porque política é a atuação pública e não necessariamente vinculada a um candidato ou partido, a avaliação em quem votar precisa levar em consideração questões relacionadas a cada cargo do sistema democrático representativo. Isso quer dizer o seguinte: vereadores, prefeitos, deputados ou o presidente têm suas respectivas funções e limites. Por isso, exigir postura democrática e compreensão do seu sistema não é ser de esquerda, mas preservação da democracia.

5. Toda teoria tem seus pontos fortes e fracos. O marxismo (ou marxismos) é uma proposta de interpretação da realidade. Ela tem minúcias e, como qualquer referencial teórico, muitas fraquezas. Tanto o marxismo como outras propostas interpretativas representam análises a respeito da estrutura econômica, política, etc. E, naturalmente, estão ligadas a indicações sociais. Ponto. Demonizar ou divinizar qualquer instrumental de análise seria idolatria ou demonolatria. Por isso, não podemos chamar alguém de marxista ou de “esquerdista” simplesmente por falar em direitos humanos ou justiça. Da mesma forma, é precipitado gritar “fascista!” apenas porque o sujeito tem posições mais liberais. Quando a discussão e reflexão perdem de vista a mínima racionalidade e os termos são usados relaxadamente, as ofensas e monstruosidades afloram.