Agnotologia e a imposição do silêncio às ancestralidades negras – Parte 2

Agnotologia e a imposição do silêncio às ancestralidades negras – Parte 2
Michel Alves Ferreira 22 de janeiro de 2020

Mas então me responda: o diabo são mesmo os outros? E quem são esses outros, mesmo?!

Na parte 1 dessa pequena série apresentamos à leitora e leitor da Senso, uma interpretação do conceito de agnotologia do cientista estadunidense Robert Proctor, que está no texto Agnotology: a missing term to describe the cultural production of ignorance (and Its Study). Tentamos mostrar, a partir do um triste exemplo de um homem negro brasileiro, como a cultura da ignorância sistêmica e política estigmatiza todas as comunidades negras, promovendo uma verdadeira pasteurização social do que deve ser valorado, mantido e, por fim, do que não deve, em uma sociedade (a matriz aqui é a colonialista e branca, não nos esqueçamos).

É a verdadeira morte social a partir da ignorância política/deliberada de uma vida, histórias, culturas, ancestralidades e religiosidades, estes últimos dois pontos, os temas de que trataremos neste texto, também a partir de um exemplo. Seguimos! Mas não sem antes prestar reverência à Èșù, representação divina que está diretamente associada ao movimento do universo, aos cruzamentos que perpassam em nossas vidas e à comunicação que está implícita nesta dinâmica. Este ÒRISÀ sinaliza da nossa responsabilidade (principalmente coletiva) das implicações dos movimentos que trilhamos e, também, do que escolhemos ignorar no decorrer desses caminhos. Laroié, Èșù!

Flickr Marco Castellani

No dia 08 de fevereiro de 2019, a então diretora da Vogue Brasil, Donata Meirelles, promoveu um jantar para comemorar os seus cinquenta anos, evento realizado na cidade de Salvador e que contou com a presença de, dentre outros convidados e convidadas, pessoas com relevância política, para a história da cultura e movimentos sociais e, por fim, de entretenimento do país. Tudo estaria bem, não fossem as imagens deste jantar que circulou nas redes sociais, onde especificamente uma foto de Donata, mulher branca, está sentada em uma cadeira ornamentada e que poderia facilmente ser comparada às cadeiras ornamentadas utilizadas por sinhás no período de escravização oficial do Brasil. Ao lado de Donata, em pé, estavam duas mulheres negras, estas vestidas conforme sua ancestralidade, religiosidade baiana, conforme mostrou a reportagem e a notícia do jornal Online Huffpost Brasil de 09 de fevereiro de 2019 e que pode ser facilmente consultada em qualquer busca online.

O que gostaríamos de trazer especificamente para o debate é a explicação dada por Donata, diante das repercussões negativas da foto veiculada nas redes sociais. Nas palavras da própria em seu perfil público de uma rede social, o Instagram:

[…] Não era uma festa temática. Como era sexta-feira e a festa foi na Bahia, muitos convidados e o receptivo estavam de branco, como reza a tradição. Mas vale também esclarecer: nas fotos publicadas, a cadeira não era uma cadeira de Sinhá, e sim cadeira Emanuelle usadas em todos os lugares do mundo e as roupas não eram de mucama, mas trajes de baiana de festa feitos por elas próprias.

 Interessante percebermos as contradições neste discurso: primeiro ao dizer que a festa não era temática, para num segundo momento dizer que conforme a tradição (e neste caso sequer ela menciona que a tradição à qual se refere é o Candomblé), as pessoas deveriam estar vestidas de branco. Então havia ou não havia um tema para esta festa? Ademais a cadeira, símbolo de uma cafonice estética e da violência contra um passado doloroso de escravização oficial, também poderia ser comparada às cadeiras que Ìyálórìsàs e bàbálórìsàs[1]utilizam em seus ofícios comunitário/religiosos.

É pertinente salientar que, mesmo inconscientemente ou não, Donata desconsiderou saberes do Candomblé e da própria ancestralidade de comunidades afro brasileiras: primeiro ao promover a festa com esta temática (embora diga que não promoveu), descaracterizou saberes ancestrais desta tradição cultural religiosa, que somente são passados conforme toda uma iniciação necessária a quem se dispõe a seguir e a aceitação da comunidade a este/a candidato/a ser pertencente ao Candomblé.

Segundo: ao reduzir símbolos sagrados a uma questão puramente estética, além de promover desinformação sobre saberes, tecnologias e ciências de um determinado grupo social, contribuiu mais para a mercantilização destes símbolos. Aí perguntamos: precisamos destas vestimentas somente nas capas de revistas, editoriais de moda e nas semanas fashion, sem colocarmos em discussão que determinados sujeitos destes grupos sociais sequer têm dinheiro para comprar uma destas revistas ou mesmo uma roupa produzida por uma grife? Quiçá serem convidados a ver um desfile destes, quando estão mais preocupados em ressignificar suas experiências e vivências racistas, misóginas, LGBTfóbicas, classistas e geracionais que presenciam em sua própria cotidianidade?

O exemplo relatado da festa de Donata pode ser visto um caso de promoção de silenciamento e morte social do povo negro e de suas tradições (para sermos mais contundentes em nossas críticas), a partir da ignorância como um sistema, conforme o conceito apresentado no texto 1. Uma vez que se promove a desinformação, a ocultação de outros elementos presentes em uma cultura, e, neste caso em específico, em uma religião como o Candomblé, se conta uma versão hegemônica de quem detém o poder sobre um fato, evento, narrativa.

No próximo texto, buscaremos discutir algumas possibilidades de rompimento desta cultura deliberada da ignorância às nossas vivências, resistências e religiosidades. Afinal, demonizar um grupo social e suas representações é típico de quem está envolto em uma neurose ignorante, dicotômica e, consequentemente, violenta/estigmatizante de ver o mundo e a diferença (o jeito esperto de dizerem que nós, os outros, é que somos o diabo).

Èșù se manifesta justamente para mostrar que há outros modos de enxergar o humano nos divinos, os divinos nos humanos e, principalmente, mostrar as responsabilidades de nossas escolhas, já que o diabo é invenção deles. Bem e mal, céu e inferno, purgatório e paraíso, no Candomblé, por exemplo, é bastante diferente da visão de mundo Judaico/Cristã. Tudo bem em termos visões de mundo e religiosidades diferentes. Não está tudo bem em utilizar de discursos agnotológicos para descaracterizar, violentar, conquistar, roubar e matar um grupo social. Então eles que fiquem, eles que lutem com sua representação de bem e mal e de ver o mundo. Um beijo e até a próxima!

Notas

[1] Autoridades religiosas máximas das comunidades praticantes do Candomblé. Cabe destacar que, tanto a língua Yorubá, quanto o Candomblé estão pautados em princípios da coletividade da comunidade, respeito aos mais velhos como fonte do saber e do conhecimento, da oralidade e observação como elementos centrais de ensino/aprendizado, da interação e relação dialógica com as forças energéticas da natureza representadas pelos Òrisás; os conceitos de bem e mal, morte e vida, anjos e demônios, espíritos e santos, conforme a tradição de religiões monoteístas como o Cristianismo, o Islamismo e o Judaísmo, simplesmente não são aplicáveis ao Candomblé. Para saber mais, é possível consultar o dicionário Yorubá – Português, de José Beniste e da dissertação defendida em 2013 por Dalzira Maria Aparecida Iyagunã, acadêmica e Ìyálórìsà de uma comunidade de Candomblé da cidade de Curitiba/PR. A tese pode ser facilmente encontrada no banco de teses e dissertações da página da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR.