O zelo destrutivo: extremismo religioso entre fatos, razões e impasses

O zelo destrutivo: extremismo religioso entre fatos, razões e impasses
Victor Breno 14 de janeiro de 2020

O extremismo religioso emerge como uma das principais problemáticas do cenário social e político da atualidade. Por quase todo o mundo, irrompem episódios de violências, conflitos e intolerância motivadas por fatores religiosos. Somente no primeiro semestre do ano de 2019, dois casos internacionais causaram terror: primeiro, os ataques a duas mesquitas islâmicas na Nova Zelândia, deixando 50 mortos e 48 feridos; segundo, os atentados a igrejas católicas e hotéis no Sri Lanka contabilizando 207 mortos e mais de 450 feridos.

Fonte: Reprodução TV Globo RJTV

No Brasil, pode-se citar diversos casos de intolerância religiosa que ganharam a grande mídia: há alguns anos atrás, o episódio do “chute da santa” protagonizada em rede nacional de televisão pelo Bispo Sergio Von Helde, da Igreja Universal do Reino de Deus, em pleno dia 12 de outubro de 1995, data nacional de comemoração à “Padroeira do Brasil”; O caso de vandalismo contra uma Mesquita islâmica no Distrito Federal em 2015, na qual houve depredação do espaço de culto; Em 2017, uma menina de 11 anos, candomblecista, foi apedrejada e recebeu insultos de agressores que utilizavam bíblias e utilizavam expressões cristãs; Recentemente, em 2019, mais um de outros episódios de ataques a terreiro de candomblé em comunidades no Estado do Rio de Janeiro por traficantes que se autodenominam de “evangélicos pentecostais”.

Autores como a escritora britânica Karen Armstrong em seu livro “Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo” (2001), e o filósofo alemão Peter Sloterdijk em “O zelo de Deus: sobre a luta dos três monoteísmos” (2016), apontam para relação nefasta entre fundamentalismo, zelo e violência como elementos estruturantes do extremismo religioso contemporâneo. Esse comportamento extremista de natureza agressiva, composto por inspiração religiosa, é o que queremos denominar como o zelo destrutivo.

O zelo destrutivo é uma forma de conduta religiosa motivada pelo imperativo de retorno aos fundamentos da experiência religiosa “original” e purificação da religiosidade que se compreende, por razões adversas, ameaçada ou perdida. Nesta busca extremada, tal zelo assume formas de violência simbólica e/ou concretas para com quem este entende ser os “infiéis” ou àqueles que apresentam riscos à “ortodoxia”. Este zelo, acaba assim conduzindo à discriminação, difamação e mesmo extermínio do “outro religioso” como uma maneira de realizar, pretensamente, uma devoção radical à determinada fé religiosa.

Por quais razões se dá esse tipo de comportamento religioso extremado? Dentre as várias questões que envolvem a resposta à esta pergunta, fazemos destaque a um destes aspectos: o zelo destrutivo é uma reação negativa à pluralidade religiosa no contexto moderno. Com o aumento da diversidade de grupos religiosos e da consequente concorrência que se estabelece entre religiões no amplo mercado das crenças, há um fenômeno de recrudescimento das identidades fundamentalistas religiosas que faz crescer também os conflitos entre estes grupos. Surge assim, no interior destas religiões, grupos extremistas e radicais, em maior ou menor proporção de religião para religião.

Diante de um mercado religioso competitivo e acirrado, as religiões buscam na conservação das identidades particulares resguardar os elementos próprios que as distinguem e caracterizam.  Essas identidades fundamentalistas costumeiramente tendem a ser tornar exclusivistas e violentas, com pouco ou quase nenhum diálogo com outros grupos religiosos. O recrudescimento das fronteiras identitárias e comunitárias se faz em muitos casos associada ao uso de violência (simbólica ou mesmo física) para com os outros grupos. Nem todos os religiosos de uma religião são necessariamente zelosos radicais, entretanto, algumas formas religiosas podem estimular, com graduações diferentes esse extremismo.

A busca por “fundamentos sólidos” que se contraponham à uma “cultura líquida”, torna-se uma das características desse religioso na contemporaneidade. Diante das incertezas e crises de sentido geradas pelo mundo moderno, há uma busca e retorno ideal às “origens”, um “tempo perfeito” onde encontram-se às referências para se viver diante de tal realidade. O fundamentalismo é basicamente, em partes, uma reação à fragmentação, relativização e pluralização trazidas pela sociedade moderna. O zelo destrutivo de certos grupos extremista no interior das religiões são uma das reações à esse fenômeno.

O fenômeno da intolerância religiosa e do zelo extremista não são necessariamente novos; pode-se ver ao longo da história diversos momentos e casos de perseguição, combate e violência, patrocinados por grupos radicais, em especial sobre as minorias religiosas. O que é novo nessa situação atual é o fato que ela se dá numa sociedade marcada pelo Estado de Direito em que deveria prevalecer o resguardo das liberdades individuais de culto, defesa do pluralismo, tolerância e diálogo, etc.

Na suposta busca por preservar, por meio da violência, os elementos “fundamentais” da tradição religiosa, o zelo extremista acaba por destruir os fundamentos morais elementares da fé religiosa. Nesse sentido, o zelo destrutivo é uma forma religiosa autofágica porque denigre os próprios princípios morais que estruturam genericamente a ética de todas as religiões, bem como também macula a imagens da fé religiosa no contexto de uma sociedade secular. O zelo religioso se torna destrutivo quando perde os componentes éticos fundamentais que estruturam as tradições espirituais das religiões em todo o mundo. Ao substituir os valores genéricos da moral humana e religiosa (como justiça, misericórdia, compaixão, etc.), o extremismo solapa as possibilidades destas mesmas religiões de se apresentarem como alternativa ética aos dilemas e ambiguidades do mundo contemporâneo.

O zelo destrutivo se coloca como um impasse para as próprias religiões e para o Estado por comprometer a convivência democrática dos cidadãos religiosos (ou não) em nossas sociedades em situação de pluralidade religiosa. Dessa maneira, cabe as religiões e aos religiosos reavaliarem à luz do legado ético de cada uma de suas tradições os potenciais de justiça, respeito, misericórdia, amor, que marcam de maneira especifica suas espiritualidades de modo a combater os discursos e práticas de violência que se queiram pretensamente fazer “em nome de Deus” – qualquer que ele seja.