O psicopedagogo e a morte na escola

O psicopedagogo e a morte na escola
Kelvinn Modesto Carvalho Barbosa e Maria Jarina de Souza Manoel 6 de janeiro de 2020

© Rodolfo Vargas

A morte é um fenômeno que faz parte da vida humana. São muitos os questionamentos produzidos em torno do fenômeno da morte e sua repercussão na sociedade. A morte seria o fim da existência humana? Como fenômeno que afeta a cultura, a morte não pode ser ignorada. Discussões sobre a morte se tornam necessárias em todos os âmbitos da sociedade. A escola como parte importante da sociedade, não é responsável apenas pela transmissão de conteúdo, mas também pela formação de cidadãos,  e precisa encarar esse tema.

O desenvolvimento deste tema no ambiente escolar é fundamental para nos preparar para o fim de nossa existência. De acordo com Kovács “Frequentamos escolas por mais de vinte anos de nossa existência e assim nos preparamos para a vida social; da mesma forma, deveríamos também nos preparar pelos mesmos vinte anos, para o fim de nossa existência”. Uma educação para a morte é cogitar a possibilidade de criar condições para que as pessoas não sejam surpreendidas ao se deparar com a perda de um ente querido, assim como pode preparar as pessoas no decorrer de sua jornada acadêmica para encarar a finitude.

Apesar de ainda haver certa obscuridade em relação ao assunto, a autora considera que “paradoxalmente, nesse mesmo século, a morte esteve e continua estando, no início do século XXI, cada vez mais próxima das pessoas, em função, principalmente do desenvolvimento das telecomunicações”. Mesmo que a morte esteja cada vez mais em evidência na sociedade, os meios de comunicação não oferecem a devida atenção à temática. No ambiente escolar a psicopedagogia pode ser uma área do conhecimento que pode ser aliada na busca de estudos sobre a morte, bem como na conscientização dos alunos sobre o fenômeno.

A psicopedagogia na escola

A psicopedagogia é uma área de conhecimento que atende a um método que contribui, em conjunto com outras ciências, como a psicologia, a psicanálise, a pedagogia para solucionar ou amenizar os problemas relacionados ao âmbito escolar. Estes problemas podem ser provenientes do ambiente familiar, escolar, cultural, social e econômico. A sua aplicabilidade visa promover a aquisição de conhecimento incidindo no processo de ensino e aprendizagem, facilitando o acesso ao saber a criança. A participação do psicopedagogo na escola fortalece consolida a identidade da criança, suscita a origem da instituição, de acordo com Araújo et. al. (2015, n.p.) “buscando adequar essa escola as reais demandas da sociedade”

É importante que se diga que o conhecimento não é adquirido apenas na escola, e sim em todos os espaços de convívio onde ocorre a interação social, quer seja na família, na escola, na comunidade na qual a criança está inserida. A criança e o adolescente aprendem com o mundo que os cercam.

A atuação do psicopedagogo diante da morte

A morte é um fenômeno que se manifesta nos diversos contextos de inserção do indivíduo. Na escola, ela pode surgir com a perda de um ente querido da criança ou do adolescente. Em outros casos, devemos atentar para os a criança ou o adolescente que esteja vivenciando o luto em decorrência da perda de um amigo, colega ou profissional da escola.

No ambiente escolar existe uma espécie de silencio em relação à morte e seus desdobramentos. Kovács (2005 p.487) observa que “pais que não sabem se devem falar ou não sobre a morte de um parente próximo, professores que se veem às voltas de perguntas insistentes sobre a morte de idosos e de pequenos companheiros”. Situações como essas cada vez mais comuns no ambiente escolar, exigem atenção de educadores e de profissionais da saúde.

A perda de ente querido pode imobilizar alguns indivíduos. Eles permanecem na experiência de luto, sem elaborar a perda do objeto.

O psicopedagogo vai atuar no atendimento acolhendo o aluno, e suas principais dificuldades que podem estar relacionadas a uma disciplina específica ou mais de uma disciplina. Na falta de foco ou atenção nas aulas, em alguns casos pode ser necessário encaminhamento para os psicólogos ou psicanalistas para que o aluno que passa por essa perda, possa atravessar esse processo verbalizando sua dor, colocando em palavras o sofrimento, o que é fundamental para a elaboração do luto.

É inevitável considerarmos que a experiência de perda, ou luto nos acompanha desde nossa constituição. Estando presente em cada pessoa, essa experiência pode passar na vida de um sujeito, que superando suas frustrações recorda de outras situações semelhantes a essa. Como pode permanecer em outras pessoas, que vivenciam a experiência da perda como se estivessem atreladas ao objeto perdido com sua própria vida.

Em Freud, o luto profundo é caracterizado por uma reação à perda de uma pessoa amada, a perda da capacidade de eleger um novo objeto de amor – o que significaria substituir o que foi perdido. É normal que o sujeito supere sua experiência de perda e encarando sua realidade. Está é uma condição natural e inerente ao indivíduo.

Na melancolia uma inibição toma conta do indivíduo. Como uma ferida aberta no âmago do eu, o sujeito tem sua saúde e integridade afetada. Com as relações interpessoais afetadas, o indivíduo se isola em um universo interno e evita contato com outro.

A melancolia é caracterizada por Freud como um “empobrecimento do Eu”. A diferença entre o luto e a melancolia está na redução do investimento. No luto se reduz o interesse pelo mundo, na melancolia se reduz o interesse pelo próprio Eu. O melancólico sente como se fosse medíocre e incapaz, se reduzindo em relação aos outros. Entre as manifestações desse interesse no eu, o sujeito pode recusar se alimentar assim como pode sofrer de insônia.

É preciso estar atento aos sinais que uma criança ou adolescentes podem apresentar no ambiente escolar, tanto no que diz respeito a morte quando os seus desdobramentos. O luto e a melancolia também estão relacionados à morte e suas repercussões, uma vez que dizem respeito a maneira como as pessoas reagem diante de uma experiência de perda. É nessa hora o psicopedagogo deve agir.

Portanto,  cabe ao psicopedagogo o papel de estabelecer estratégias para falar do fenômeno da morte. Destacando que sua atuação com outros profissionais pode contribuir para o melhor desempenho acadêmico dos alunos, reduzindo danos causados pela perda de um ente querido. O que torna evidente a necessidade de discussões sobre a morte e os seus danos no contexto escola. É preciso reconhecer que a morte existe e pode afetar física, psíquica e socialmente a vida de um sujeito. A dor proveniente da perda de um ente querido pode resultar em um luto não elaborado e o agravamento desse quadro em um caso de melancolia, mas conhecida atualmente como depressão.

Referências

ARAÚJO, A. JOVELINO et al. A importância da família no processo ensino- aprendizagem, na concepção da psicopedagogia. In: Encontro de Iniciação à docência da UEPB, 5., Paraíba: UEPB, 2015. Disponível em:< www.editorarealize.com.br> Acessado em 11/07/2019.
BOSSA, NADIA A. Fracasso escolar- um olhar psicopedagógico. Porto Alegre: artes médicas, 1994.
COSTA, Antonio M. Ferreira. O fenômeno da morte na psicopedagogia e no ensino religioso. (2008). Disponível em < cchla.ufrn.br em 10/07/2019.
FREUD, Sigmund (1917[1915]) Luto e melancolia. Tradução, introdução e notas de Marilene Carone. São Paulo: Cosac Naif, 2011. – Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
KOVÁCS, Maria Julia. Educação para a morte. In: Psicologia ciência e profissão. 25(3) p.484-497. 2005. Disponível em: <www.scielo.br> Acessado em 15/07/2019.
SCOZ, Beatriz. Psicopedagogia e realidade escolar: o problema escolar e de aprendizagem. Petrópolis: Vozes; 2002.