A indiferença como oportunidade para uma mística da realidade

A indiferença como oportunidade para uma mística da realidade
Diego Pereira 2 de janeiro de 2020

Foto: Hernán Piñera

A injustiça social que vemos está chegando hoje a um extremo que preocupa, especialmente pela indiferença generalizada, não apenas por aqueles que são socialmente reconhecidos como atores do mal, mas para pessoas e organizações internacionais que deveriam atuar a favor do bem e da justiça, mais também a grande maioria da população. Presidentes de nações que agem sem controle contra seu povo, forças militares que, em vez de cuidar deles, o reprimem até a morte, os médios de comunicação que mentem todo o tempo, intelectuais que se dobram para dizer o que lhes convém; fazem que se forme uma nébula densa de incerteza, onde todos nos perguntamos: quem está certo? Em quem acreditar? Em quem confiar? Muitas pessoas optam por ser indiferentes. Vemos fotos e vídeos de pessoas que morrem todos os dias e nos acostumamos. Contanto que eles não nos toquem de perto, muitas vezes os ignoramos. É um momento muito complexo para saber qual é a  posição a tomar, qual caminho seguir. Muitos optam por manter o antigo e estabelecido. O novo trai medo e insegurança. É mais fácil ficar onde você está com medo da mudança.

A indiferença diante da injustiça é real, mas não é toda realidade. A realidade é composta de situações infinitas e devemos descobrir nela as várias oportunidades para renovar nosso pensamento e nossa esperança. Como cristãos, é uma oportunidade de aprofundar uma mística da realidade. Panikkar afirmou: “A mística representa uma contracorrente dentro da cultura; a mística é um contrapeso” [1]. Isso nos impulsa a que, quando tudo no nosso tempo atual se inclina à obviedade e ao costume da indiferença, podemos dizer não, que não precisamos agir da mesma maneira; que quando é proposto um único caminho, podemos criar ou recriar a realidade propondo novas direções para caminhar. Pois a realidade como símbolo de um todo, é “não apenas como é, mas mesmo assim não-é; em tanto pensável e até consciente de que é impensável” [2]. Ali, no fundo dessa cultura de indiferença, está a realidade de uma resposta mais profunda do amor e comprometida com a realidade.

Uma pista possível para conseguir isso é viver com os olhos abertos. Este é a mística de olhos abertos proposta por Metz, para olhar além das aparências e ver. Nas redes sociais e os teleinformativos, não tem só más notícias. Também estão em gérmen as sementes da vida que crescem e resistem em todos os cantos do planeta, na cidade, no campo. Pessoas, movimentos, associações, grupos políticos e religiosos, realizam muitas iniciativas para gerar mudanças em nosso modo de ver, o que traz uma maneira de julgar e uma nova maneira de agir. Diante da indiferença, preocupação e compromisso; diante do ódio e o desprezo, amor e solidariedade. No meio da maré, “ser reflexivo, em virtude de sua dobres sobre sim mesmo, torna-se abruptamente capaz de se desenvolver em uma nova esfera. Na realidade, é outro mundo que nasce” [3]. Quem não se reconhece, entrando em si, a grande necessidade de paz, harmonia, fraternidade? E isso faz parte do que na realidade não é, é precisamente o suporte de uma mudança da própria realidade. É o nascimento de um novo universo.

O capitalismo atroz e a mentalidade consumista tentam nos reduzir a um único pensamento e a um único tipo de subjetividade: vivemos para produzir e consumir. Diante dessa situação, Moltmann disse que “as pessoas estão perdidas na massa. Se vive sem viver a vida, e assim a frieza dos sentimentos e a pobreza das experiências se estendem aos fenômenos de massa” [4]. Mas nessa massa se esconde a realidade das sementes da levadura que o faz crescer, que não podem ser rotuladas ou avaliadas quantitativamente, fica oculta “são realidades na linha do seu dom, da sua entrega a uma causa ou projeto” [5]. Antes do colapso do sistema, as massas estão crescendo e as protestas estão se multiplicando. As protestas no Equador foram seguidos pelo Chile, Bolívia, Colômbia e atualmente são adicionados a França e Hong Kong. Nesses casos, percebemos que o que não é normal na realidade se torna presente e se espalha. Em um mundo de exploração e sometimento, nascem as vozes daqueles que estão cansados ​​e juntos se rebelam. Eles souberam ver, julgar e estão agindo em consequência.

Mas há muito tempo que protestam: os povos originários, os movimentos de libertação, os movimentos eclesiais de base dentro do cristianismo, as mulheres sometidas ao machismo. Eles carregaram as cruzes de tantos irmãos que sofrem de injustiça e estão longe de serem indiferentes. Mas olhando hoje, quantos mortos ainda estão deixando as protestas? Quantos feridos? Quantos perderam a visão no Chile por causa dos disparos dos carabineiros? E, no entanto, eles conseguiram ver e continuar a fazendo-o. Sua sensibilidade à realidade se assemelha à de Jesus que sabia ver o sofrimento de seu povo, o sofrimento de Deus e carrega-lo. Ele experimentou “a unidade entre o amor de Deus e o amor ao próximo: a paixão por Deus como uma com-paixão, como uma mística política da compassio” [6], que o levou a enfrentar com extrema paixão as consequências da defesa da injustiça, frente ao olhar indiferente daqueles que poderiam fazer algo para evitá-lo, e não o fizeram.

Estamos testemunhando um movimento mundial que acolhe todos aqueles que foram historicamente excluídos e maltratados. Portanto, juntamente com o movimento LGTBI, estão unidos com os povos originários, com os pobres do mundo, com o movimento feminista, os campesinos e trabalhadores, os crentes de muitas religiões já cansadas de instituições explotadoras, os jovens e sua ousada sede de mudança, os estudantes buscando novas oportunidades, as avós da Plaza de Maio em busca de seus filhos desaparecidos na ditadura, os negros historicamente reduzidos ao desprezo, junto com tantos outros; que buscam unidade na solidariedade de causas comuns, de libertação de sua situação. Somos participantes de uma obra que é construída desde baixo, daqueles que estão cansados ​​de serem ignorados por não servirem ao sistema. Hoje, a desobediência é a norma possível diante de um sistema que se quebra de várias maneiras, em todas as partes do mundo.

Essa desobediência é desaprovada pelo ordem imposto, mas é um grande sinal dessa época, é se torna a possibilidade de fazer algo novo, mas que exige um olhar místico da indiferença cruel que nos rodeia. Tem a ver com descobrir na obscuridade, as luzes da esperança. Não devemos entender tudo para saber como agir, deixemos que as energias que buscam a mudança fluam. O primeiro passo é a fé em Deus, na transformação, na ação divina que opera dentro de cada ser humano e que devemos despertar. Então a inteligência virá para propor o caminho concreto. Como disse um grande pastor metodista uruguaio: “É porque eu creio que entendo, é porque creio que abro meus olhos para a racionalidade da fé, é porque amo, que posso entender e posso saber, é porque assumo compromissos e jogo que posso ver além deles, seus frutos” [7]. Não esperemos ver pessoas boas, ver conquistas de curto prazo. Trata-se de correr o risco de um salto de fé, sabendo que há uma humanidade que geme a espera de justiça. Como disse um dos grandes teólogos do século XX, Karl Ranher, uma frase que se tornou uma regula para cada um de nós: “no século XXI, os cristãos serão místicos ou não o serão”.

Notas

[1] Panikkar, Raimon, De la mística. Experiencia de la vida, Ed. Herder, Barcelona, 2007, p. 74
[2] Ibidem, p. 77
[3] De Chardin, Teilhard, Himno del universo, Ed. Taurus, 1971, Madrid, p. 105
[4] Moltmann, Jürgen, El hombre. Antropología cristiana en los conflictos del presente, Ed. Sígueme, Salamanca, 1973, p. 53
[5] Libánio, João.B., Discernimiento y política, Ed. Sal Terrae, Santander, 1977, p.33
[6] Metz, Johann. B., Memoria passionis, Ed. Sal Terrae, Santander, 2007, p. 165.
[7] Castro, Emilio, Realidad y fe, Ed. Tierra Nueva, Montevideo, 1972, p. 31