A profecia da Amazônia: o Bem-viver ecocósmico

A profecia da Amazônia: o Bem-viver ecocósmico
Marcelo Barros 26 de novembro de 2019

Nesses tempos mais recentes, mais do que nunca antes, a Amazônia tem sido centro de atenção de toda a humanidade. De um lado, isso se deveu às notícias alarmantes em relação a queimadas e à destruição da floresta. No entanto, durante dois anos, as comunidades da região, principalmente, os grupos ligados às culturas e tradições de povos originários se tornaram sujeitos de uma ampla consulta e de diálogo fraterno na preparação do Sínodo dos Bispos católicos, ocorrido em outubro de 2019, sobre a Amazônia e seus desafios para a missão das Igrejas. Pela primeira vez, na história, um Sínodo de Bispos em Roma se ocupou da Amazônia. Pela primeira vez, o seu documento foi preparado por cristãos de diversas Igrejas e em diálogo com outras culturas e com as religiões ancestrais da região panamazônica.

Foto: Omer Bozkurt

Por trás de toda essa mobilização está a preocupação de toda a humanidade consciente com a crise ecológica. De fato, na América Latina, subsistem dezenas de biomas e ecossistemas diversos. Todos eles são interdependentes e complementares. Se no Centro-oeste brasileiro, se destrói o Cerrado, imediatamente se afeta o regime de chuvas no sul e se prejudica o bioma dos pampas e na bacia do rio da Prata. No entanto, tanto por sua dimensão, quanto pela riqueza de sua diversidade, a região do mundo, cuja destruição pode mais afetar o equilíbrio de toda a Terra é a Amazônia.  Por isso, mais ainda do que em outros biomas do mundo, a Ecologia integral é um desafio indispensável para a proteção da Vida e o equilíbrio do ecossistema da Amazônia e de todo o planeta Terra.

1 – Uma rápida visão da Panamazônia.

A Amazônia é um território que se espalha por nove países. Tem quase 8.000.000 de Km 2 que formam um bioma, isso é, um sistema vivo de interações orgânicas, essenciais para o equilíbrio do planeta. Conforme os cálculos dos cientistas, somente o rio Amazonas deposita no Oceano Atlântico 750 milhões de litros de água por segundo. No sub-solo da Amazônia, há o Aquífero Alter do Chão, uma bacia de água subterrânea que pode ser comparado a um mar de água no seio da mãe Terra.

Além da grande bacia de rios imensos que irrigam a superfície e do mar de águas doces e transparentes que forma o aquífero subterrâneo, a grande quantidade de água em forma de vapor cria o que, na Amazônia, se chamam de rios voadores, imensos lençóis de água doce que se depositam sobre as nuvens e são levados pelos ventos até o sul. São esses rios voadores que garantem as chuvas em grande parte do planalto central brasileiro, em diversas regiões do sul e mesmo em outros países. Esse bioma regula a distribuição de chuvas por todo o território brasileiro e pelo Uruguai, Argentina, Paraguai e mesmo Bolívia. Alguns cientistas acreditam que esse bioma é responsável pelo equilíbrio do clima de toda a Terra. Outros ecossistemas do planeta dependem da preservação da floresta amazônica e de seus rios. Essa imensa diversidade de vida garante aos povos que ali habitam alimentos, medicamentos, azeites e outras dádivas que nem se podem calcular.

Essa região que chamamos pan-amazônica tem 35 milhões de habitantes, espalhados pela floresta, pelas margens dos rios, campos e grandes cidades. Quase três milhões pertencem a povos originários que falam 340 línguas diversas. Eles se relacionam harmoniosamente com a natureza, com os outros humanos e com Deus.

Na conjuntura atual, todos esses povos (indígenas, ribeirinhos, comunidades negras remanescentes de quilombos e colhedoras de coco) se sentem agredidas em sua relação vital com a mãe Terra, em sua ligação amorosa com as águas. O modelo de desenvolvimento depredador instalado na região os destrói, assim como destrói o próprio sistema de Vida no planeta. Agride as comunidades tradicionais, em seus valores culturais e espirituais. Os povos em sua sabedoria, criaram sistemas produtivos rentáveis, sem derrubar a floresta (açaí, cupuaçu, castanha, peixes, etc). O Capitalismo vem e com a monocultura da soja, com a implantação de gado (pecuária) e com projetos de mineração e madeireiras destroem a natureza, tiram dos povos tradicionais os seus meios e instrumentos de sobrevivência e criam uma desigualdade social e humana cada vez mais grave e danosa. A sobrevivência dos povos amazônicos em sua diversidade depende de que se detenha o modelo de desenvolvimento depredador. O que destrói o bioma é a monocultura (soja, gado, mineração). Também não serve o chamado “Capitalismo verde” que se rege pelas leis do mercado e transforma em mercadoria o que a natureza nos dá de graça.

2 – A novidade do Sínodo: caminho ecumênico e trans-religioso

Na Igreja Católica, a principal novidade do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia convocado pelo papa Francisco foi o processo sinodal de escuta e diálogo que ele provocou e que, mesmo depois da realização do Sínodo em Roma, continua se realizando em toda a região amazônica e mesmo em outras partes da América Latina. Esse processo tem revelado um novo modo de viver a missão cristã. Na concepção colonialista que vigorou durante séculos e até pouco tempo, a Igreja considerava sua missão converter ao Cristianismo os povos da Amazônia. A partir desse Sínodo, ficou mais claro: a missão da Igreja não é converter a Amazônia (no sentido tradicional que se dava a esse termo) e sim as Igrejas cristãs se converterem à realidade da Amazônia e se colocarem a serviço dos povos da região.

Essa perspectiva foi aberta em Roma pelo sínodo da Igreja Católica, mas desencadeou um processo de revisão da missão e provocou um caminho ecumênico também nas Igrejas evangélicas históricas que atuam na região. O novo Pacto das Catacumbas, assinado em Roma, pelos bispos e missionários católicos como sinal de compromisso com os povos e a terra da Amazônia está sendo proposto ao CONIC para que esse mobilize pastores e missionários/as de outras Igrejas que aceitem assiná-lo.

Esse Sínodo dos bispos católicos serviu mais do que tudo como instrumento de escuta e valorização das culturas tradicionais amazônicas. Católicos tradicionalistas se escandalizaram ao ver o papa Francisco receber no Vaticano a imagem da Pachamama, a Mãe Terra, divindade dos povos andinos. O papa foi acusado de cometer o pecado da idolatria e cair na heresia. No entanto, o que se deu foi uma mudança de paradigmas de uma concepção exclusivista da fé cristã para uma compreensão pluralista da Salvação e da atuação do Espírito de Deus, do qual diz o livro da Sabedoria: “O Espírito de Deus enche o universo, está presente em toda sabedoria humana e se manifesta em todas as culturas” (Sb 1, 7).

A Teologia cristã e as Ciências da Religião precisam aprofundar o deslocamento hermenêutico da noção de Idolatria de forma que fique claro que Deus é Mistério e aceita os mais diversos nomes e figuras com os quais os diversos povos e culturas o nomeiam, desde que sempre signifiquem Amor e Justiça. Assim sendo, a idolatria está no uso do nome de Deus nas células de dólar, nas paredes de banco e na ideologia capitalista, assim como nos slogans de governantes fascistas que disseminam ódio e violência, à medida que gritam: Deus acima de todos.

3 – Do Sínodo a uma Ágora dos Habitantes da Amazônia

 Estamos vivendo agora o processo pós-sinodal e as duas decisões mais importantes do Sínodo se tornam tarefas de toda a humanidade: ouvir o grito da Terra que na Amazônia tem sua vida ameaçada e ouvir o grito dos pobres que na Amazônia são vítimas do sistema capitalista que assassina os pobres e destrói a vida. Essas duas tarefas se tornam uma só missão e para que ela seja cumprida é urgente a valorização e a defesa das culturas e religiões ancestrais dos povos. Se durante os 500 anos de colonização, as espiritualidades indígenas e afrodescendentes foram capazes de ajudar os povos a resistir e a sobreviver a esse sistema, essas mesmas tradições espirituais poderão ser nossas mestras e poderão nos conduzir nessse tempo de resistência e de reconstrução da vida.

Nesses anos mais recentes, o processo sinodal fortaleceu a instituição que já existia do Fórum Panamazônico. Para 2020, está marcada uma nova sessão desse fórum que reúne povos tradicionais e seus aliados, assim como os amazonenses das cidades e todas as pessoas que se sentem chamadas a essa luta pacífica e processual. Temos o direito de desejar que esse processo do Fórum pan-amazônico se amplie mais e mais até formar a imensa Ágora dos Habitantes da Terra na Amazônia, em defesa dos bens comuns da humanidade, no reconhecimento da cidadania de todos os seres humanos e direitos de todos os seres vivos contra a mercantilização da vida e em nome de toda a humanidade.

Entre as lideranças indígenas que o papa Francisco recebeu em preparação ao Sínodo, uma das mais importantes foi o cacique Raoni Metuktire. Trata-se de um líder indígena brasileiro da etnia caiapó. Vive no Xingu e tem 89 anos e é conhecido internacionalmente por sua luta pela preservação da Amazônia e dos povos indígenas. Nesses dias, o cacique Raoni assim se pronunciou:

“Por muitos anos, nós, os líderes indígenas e os povos da Amazônia, temos avisado vocês, nossos irmãos que causaram tantos danos às nossas florestas. O que você está fazendo mudará o mundo inteiro e destruirá nossa casa – e destruirá sua casa também.

Temos deixado de lado nossa história dividida para nos unirmos. Apenas uma geração atrás, muitos de nossos povos estavam lutando entre si, mas agora estamos juntos, lutando juntos contra nosso inimigo comum. E esse inimigo comum é você, os povos não-indígenas que invadiram nossas terras e agora estão queimando até mesmo aquelas pequenas partes das florestas onde vivemos que você deixou para nós. O presidente Bolsonaro do Brasil está incentivando os proprietários de fazendas perto de nossas terras a limpar a floresta – e ele não está fazendo nada para impedir que invadam nosso território.

Pedimos que você pare o que está fazendo, pare a destruição, pare o seu ataque aos espíritos da Terra. Quando você corta as árvores, agride os espíritos de nossos ancestrais. Quando você procura minerais, empala o coração da Terra. E quando você derrama venenos na terra e nos rios – produtos químicos da agricultura e mercúrio das minas de ouro – você enfraquece os espíritos, as plantas, os animais e a própria Terra. Quando você enfraquece a Terra assim, ela começa a morrer. Se a Terra morrer, se nossa Terra morrer, nenhum de nós será capaz de viver, e todos nós também morreremos.

Por que você faz isso? Você diz que é para desenvolvimento – mas que tipo de desenvolvimento tira a riqueza da floresta e a substitui por apenas um tipo de planta ou um tipo de animal? Onde os espíritos nos deram tudo o que precisávamos para uma vida feliz – toda a nossa comida, nossas casas, nossos remédios – agora só há soja ou gado. Para quem é esse desenvolvimento? Apenas algumas pessoas vivem nas terras agrícolas; elas não podem apoiar muitas pessoas e são estéreis.

Você destrói nossas terras, envenena o planeta e semeia a morte, porque está perdido. E logo será tarde demais para mudar.

Então, por que você faz isso? Podemos ver que é para que alguns de vocês possam obter uma grande quantia de dinheiro. Na língua Kayapó, chamamos seu dinheiro de piu caprim, “folhas tristes”, porque é uma coisa morta e inútil, e traz apenas danos e tristeza.

Quando seu dinheiro entra em nossas comunidades, muitas vezes causa grandes problemas, separando nosso pessoal. E podemos ver que faz o mesmo em suas cidades, onde o que você chama de gente rica vive isolado de todos os outros, com medo de que outras pessoas venham tirar seu piu caprim. Enquanto isso, outras pessoas passam fome ou vivem na miséria porque não têm dinheiro suficiente para conseguir comida para si e para seus filhos. Mas essas pessoas ricas vão morrer, como todos nós vamos morrer. E quando seus espíritos forem separados de seus corpos, seus espíritos ficarão tristes e vão sofrer, porque enquanto vivos fizeram com que muitas outras pessoas sofressem em vez de ajudá-las, em vez de garantir que todos os outros tenham o suficiente para comer, antes de alimentar a si próprio, como é o nosso caminho, o caminho dos Kayapó, o caminho dos povos indígenas.

Você tem que mudar a sua maneira de viver porque está perdido, você se perdeu. Onde você está indo é apenas o caminho da destruição e da morte. Para viver, você deve respeitar o mundo, as árvores, as plantas, os animais, os rios e até a própria Terra. Porque todas essas coisas têm espíritos, todas elas são espíritos, e sem os espíritos a Terra morrerá, a chuva irá parar e as plantas alimentares murcharão e morrerão também.

Todos nós respiramos esse ar, todos bebemos a mesma água. Vivemos neste planeta. Precisamos proteger a Terra. Se não o fizermos, os grandes ventos virão e destruirão a floresta. Então você sentirá o medo que nós sentimos. [1]

[1]  midianinja.org