O sagrado em movimento: tendências da religiosidade hoje

O sagrado em movimento: tendências da religiosidade hoje
13 de outubro de 2019 Victor Breno

O sagrado em movimento: tendências da religiosidade hoje

Por Victor Breno

As religiões no Brasil estão em processo de transformação. Tão plural quanto as formas religiosas no país são as dinâmicas que atravessam cada uma delas. Há na atualidade um conjunto de movimentos que perpassam o campo religioso que, em graus e níveis distintos, afetam cada uma destas. Nenhuma tradição religiosa está isenta dessas dinâmicas; entretanto, cada religião relaciona-se de maneira distinta com àquelas.

Nesse cenário, algumas religiões crescem e outras diminuem numericamente; outras ampliam sua inserção no espaço público e outras se recrudescem ainda mais na esfera privada; certos grupos lutam para conservar suas tradições e valores, outros se transformam dando origens a novas formas religiosas. Em ambos os casos, o que se pode afirmar é que não há “uma só cor” tingindo esse quadro religioso, pelo contrário, ele é colorido por muitas matizes e gradações.

Créditos: Matthew Fearnley – Religion Stencil (Edited)

Estas dinâmicas são características da modernidade religiosa e, de uma forma em geral, estão presentes não apenas na realidade brasileira, mas também no cenário global. A seguir, gostaria de indicar e comentar alguns destes elementos que marcam a religiosidade no país hoje.

1 – Desregulação e enfraquecimento da normatividade institucional

As instituições religiosas regulam cada vez menos a vida individual e coletiva dos sujeitos crentes. Isso não significa que estas mesmas instituições não possuam mais nenhum tipo de influência sobre a vida dos seus fiéis, mas sim, que elas deixam de ser a única instituição fornecedora de sentido para as decisões práticas e valorativas na vida cotidiana. A autoridade normativa da tradição, das lideranças e da instituição vão sendo substituídas ou concorrem com outras fontes: individuais, seculares e mesmo de outras religiões. Esse enfraquecimento relativiza o lugar e papel das instituições na vida religiosa individual, fazendo com que estas busquem alternativas de como manter (tanto quanto podem) essa normatividade, seja através de um reforço no rigorismo moral e comunitário sob a conduta pessoal, ou adotando formas de socialização mais fluida, em que se exige menos sujeição dos crentes. No Brasil, país em que se vê uma alta declaração de pertença religiosa, esse fenômeno mostra-se não como um abandono das instituições, mas sim, muito mais com uma autonomização diante dessas, reforçando a escolha e preferencias pessoais acima das normas coletivas.

2 – Individualização das crenças e espiritualidade à la carte

Como produto e produtora da dinâmica anterior, ocorre na modernidade uma individualização religiosa por parte dos sujeitos crentes. O individualismo religioso é um desdobramento do individualismo moderno que transfere, das instituições para a dimensão subjetiva pessoal, a referência normativa e valorativa das condutas e ações sociais. Esta realidade constitui-se como um momento da afirmação radical da escolha pessoal acima de qualquer outro elemento ou critério que venha a se colocar na constituição das identidades religiosas. Sendo assim, não apenas sua identidade passa a ser resultado provisório de trajetórias complexas, mas sua sociabilização comunitária tende fortemente a ser guiada pelo critério do individualismo. Ocorre assim a emergência da “religião do indivíduo”, onde os sujeitos tornam-se auto-responsáveis em suas trajetórias de busca espiritual, sendo sua própria realização o critério de autenticidade. Tal fenômeno desencadeia no cenário brasileiro uma lógica de religião à la carte na qual a ação do sujeito de compor a partir das muitas ofertas religiosas sua própria religião, não mais regulada pelas tradições, elaborando sua crença e pertença a partir dos gostos e conveniências pessoais. Ocorre também uma bricolagem religiosa na qual há uma combinação, justaposição e reelaboração destas crenças e práticas. As religiões funcionam, neste caso, para o sujeito crente moderno, mais como um reservatório simbólico do qual ele recompõe e ajusta suas ideias e formas de adesão religiosas a partir das demandas, interesses e expectativas individuais.

3 – Uma situação de pluralismo e mercado religioso

A pluralização religiosa no Brasil significa paralelamente o movimento de auto-organização das religiões sob a referência do mercado. Emergem diferentes grupos religiosos com propostas e visões de mundo que se diferenciam entre si e passam a conviver num mesmo ambiente. Esta nova situação de pluralismo, de variadas possibilidades, passa a organiza-se a partir da lógica do mercado. Os elementos religiosos passam a ser objeto de consumo e apropriação individualizado do bem religioso. A partir de agora, o ethos de consumo será a lógica organizadora e dinamizadora do cenário religioso. Nesta nova realidade, as organizações religiosas têm de repensarem a si mesmas no intuito de poderem oferecer adequadamente seus serviços religiosos. Passam por um processo de racionalização, burocratizam-se e começam a se comportar de modo que possam produzir bens simbólicos que atendam a demanda do campo. Um cenário religioso plural é resultado de sua secularização. É nesse ambiente de múltiplas ofertas religiosas que as instituições se vêm diante de um grande desafio, de terem que conseguir adeptos no meio de tantas opções. Assim, as religiões são levadas a disputar seus fiéis-clientes assim como acontece com as instituições de mercado secular. A escolha religiosa passa a ser pessoal e as experiências espirituais passam se tornar privados. Agora cada religião quer manter seu cosmos diante de outros cosmos, afirmando sua legitimidade.

4 – Pertenças fluidas, trânsito religioso e as fraternidades eletivas

Dada a desinstitucionalização religiosa e o individualismo das crenças, ocorre também uma tendência à uma comunitarização frouxa e de compromissos provisórios dos crentes para com os grupos religiosos. A pertença exclusiva e duradoura a um grupo vai cedendo à fluidez das adesões temporárias, a múltipla identificação e a pertença sem rígidas fidelidades. Como consequência, se dá o trânsito do sujeito religioso entre grupos e comunidades no qual circula por entre o universo das opções e ofertas religiosas de um campo plural: seja um trânsito espacial (entre grupos distintos) e/ou simbólico (das crenças). Tal realidade estabelece uma identidade religiosa sempre em vias de recomposição que se faz nas diferentes trajetórias de peregrinação pessoal do sujeito pelos mais variados e diferentes grupos. Ainda outra tendência, é a formação de grupos estratificados por segmentos de afinidade. Formam-se comunidades religiosas especializadas na produção de bens simbólicos de salvação para nichos particulares de gosto, classe e estamento: esportistas, gays, classe média-alta, entre muitos outros. Nestas fraternidades eletivas a adesão se dá mediante a escolha individual seguida pelas expectativas e demandas particulares do sujeito crente.

5 – A centralidade da emoção religiosa e do êxtase corporal

Uma última dinâmica seria àquela relacionada ao lugar de proeminência que as emoções e o corpo em êxtase ocupam na economia religiosa contemporânea. Na atualidade, há um certo tipo de diminuição do interesse por formas religiosas que privilegiam aspecto mais racionalizante ou dogmáticas, para uma maior busca de modalidades do ser religioso que centralizem o sensitivo e experimental. Há “surtos emocionais coletivos” em praticamente todas as tradições religiosas, acompanhadas da formação de “comunidades emocionais”. As religiosidades que mais crescem no cenário brasileiro atual são justamente àquelas que enfatizam a sensibilidade emocional intensa, os êxtases pessoais e coletivos. A emoção religiosa e não mais a tradição instituída vai tornando-se o critério central de autenticidade e legitimidade de uma experiência religiosa “verdadeira”. Os pentecostalismos, carismáticos católicos, as religiões afro-brasileiras e ayahuasqueiras, os esoterismos e místicas religiosas diversas são alguns destes casos. Nestas comunidades, há o envolvimento total do corpo e dos sentidos através, das danças, canções, performances, com manifestações físicas e emocionais da presença do sagrado, como choros, lagrimas, visões, presságios, incorporações, entre outros. O êxtase é uma dimensão central da experiência emotiva na modernidade religiosa.

* Trecho adaptado e extraído do livro “Mosaicos do sagrado: olhares em perspectivas sobre religiões e religiosidades no Brasil contemporâneo” (Editora Recriar, 2019).

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