A teologia feminista frente às exigências da religião e da diversidade sexual

A teologia feminista frente às exigências da religião e da diversidade sexual
25 de setembro de 2019 Ivone Gebara

A teologia feminista frente às exigências da religião e da diversidade sexual

Ivone Gebara

A expressão ‘teologia feminista’ é no Brasil, bastante desconhecida, sobretudo nos meios populares e nos meios que têm pouco interesse em relação a questões relativas às religiões. Além disso, para muitos, atribuir a palavra feminismo ou feminista à Teologia parece uma inadequação de sentidos. Este panorama começa a se modificar lentamente quando alguns grupos de intelectuais de diferentes tendências começam a pensar a religião como algo importante na cultura e bastante misturado à política.

Alerta feminista

Da mesma forma, as intelectuais feministas, para além das tradicionais críticas que faziam às religiões, sobretudo de corte monoteísta, começam a se interessar por elas diante da religiosidade das massas femininas e da cumplicidade das religiões em relação à opressão de seus corpos. O mesmo interesse é percebido hoje pela teologia gay e teologia queer frente à expressão pública crescente da diversidade sexual. Muitas perguntas de cunho religioso são feitas para entender as razões do julgamento negativo que lhes é feito sobre suas identidades e escolhas sexuais como sendo contra a vontade divina. Estamos, portanto, em um momento novo da teologia e é preciso tentar entendê-lo.

Sendo feminista de tradição cristã católica romana minha reflexão não nega essa pertença, pois é especialmente a partir dela que farei minhas análises e reflexões. Sem dúvida, outras aproximações religiosas poderão se incluir, porém não o faço diretamente neste texto.

Minha pergunta inicial é: o que a teologia feminista introduz de novo na teologia tradicional feita em nossas igrejas e faculdades de teologia? Teria ela algum alcance nos meios religiosos de forma a contribuir para mudanças qualitativas de comportamento?

A teologia foi quase sempre apresentada como um pensamento sobre a ação, vontade ou os desígnios de Deus sobre a humanidade e a resposta da humanidade a estes desígnios. Estas explicitações são elaboradas e controladas principalmente pelo clero que se auto-outorga à representação divina. Aqui, se situa o problema que temos que enfrentar, ou seja, o da necessária produção plural de sentidos dentro dos chamados monoteísmos. Isto, porque o Ser ou a Força espiritual que chamamos Deus tem um sentido plural e, muitas vezes equívoco na medida em que se mistura a poderes e até fundamenta poderes totalitários. É possível expressar essa Força espiritual de uma maneira mais plural e inclusiva? A teologia feminista aposta nessa possibilidade.

Dizer isso nos convida a afirmar que o Ser que chamamos Deus ou esse ‘algo’ misterioso que chamamos Deus hoje, é fruto de uma longa evolução da humanidade. A palavra Deus tem diferentes significados que acompanham a história humana. Assim, podemos nos perguntar quando, na evolução dos humanos, se começou a falar de deuses e do Deus único.

Cada vez mais, apesar dos avanços das ciências, estamos experimentando o fato de que não temos a posse de todo saber, dos rumos e sentidos da história do planeta e inclusive de nossa história. Essa insegurança para muitos faz apelo à dimensão religiosa como se necessitássemos um sustento e uma razão para nossas vidas para além delas. Embora esse processo que chamamos religioso porque re-liga os diferentes aspectos de nossa vida, hoje nos sentimos perdidas/os mesmo dentro das religiões. Por quê? É porque a religião apesar de mostrar-se como uma segurança imaginária ou espiritual está totalmente imersa na insegurança humana, nos seus limites e confusões de nossa história presente. Quanto mais vemos proliferar mentiras e injustiças mais vemos proliferar discursos sobre Deus, deuses e seu poder. Ao constatar a impossibilidade de mudar as coisas de nosso mundo atribuímos aos deuses os poderes que não temos. Mas todos esses poderes exteriores revelam também seu lado inoperante e enganoso.

O fato é que somos entregues a nós mesmos de maneira individual e coletiva, embora muitas vezes a relação com nossos amigos e amigas nos sustente nos momentos de desespero. É o ‘próximo’, o vizinho, o conhecido que me abre uma porta ou me fecha.

A existência humana é isso aí… Presença, presenças que podem se ajudar ou se combater. Dizemos então que foi Deus que nos ajudou ou que nos castigou! A teologia feminista vai trazer o divino para as presenças que nos sustentam, para as forças da terra, para a inclusão, interdependência e relacionalidade entre tudo o que existe, para uma ética do cuidado e da responsabilidade coletiva. Ela nos convida a recuperar essas dimensões dentro do Cristianismo e afirmar um Mistério Maior em evolução que nos ultrapassa. Essa recuperação nos faz sair das teorias salvíficas metafísicas, das ilusões celestes, dos falsos consolos oferecidos pela religião patriarcal.

Oferecemo-nos ternuras concretas, encontros com sabor de vida real, poesia real, canções reais entoadas por mulheres e homens de carne. Construímos fraternidades e sororidades. Sabemos, com certeza, que isto é bem difícil, pois estamos demasiadamente habituadas a esperar tudo do alto que mantém nossas falsas ilusões. A teologia feminista tem ousado mudar os mapas de nossas relações e de nossas crenças. Ela desafia o dogma cristão estabelecido e por isso mesmo é considerada herética pelos donos do poder religioso.

Uma explicação breve da palavra dogma no seu sentido mais original é necessária. A palavra vem do grego dokeo que significa imaginar, pensar e ensinar aquilo que se crê ser a verdade sobre as coisas. Logo este verbo passou a ser assimilado ao longo dos anos às crenças religiosas e muito particularmente aquelas propostas pela Igreja Católica Romana quando afirmava e decretava as verdades da fé. Isto foi, particularmente, importante em alguns períodos de sua história como na época de Constantino e na Reforma protestante. A palavra dogma foi integrada então aos esquemas de poder religioso. Nesse sentido, as verdades da fé obedecem a uma ordem do mundo, a usos, costumes, sentidos e a moral chamados cristãos e fundados na autoridade divina de Jesus Cristo, Deus encarnado.

Junto com essa palavra não podemos nos esquecer da palavra heresia. Também de origem grega airesis significa escolha, opção. Por isso os heréticos e as heresias são considerados ‘comportamentos’ que dividem as pessoas porque favorecem escolhas individuais, favorecem o pensamento crítico. São condenados pelos representantes do dogma e de sua ordem. E o mais interessante é que dogmas e heresias estão juntos. Há heresias porque há dogmas e há dogmas porque há heresias que significam ameaça ao poder religioso dominante.

O mundo plural em que vivemos provoca contínuas heresias em relação às verdades religiosas consideradas ‘revelações de Deus’. Nesse sentido, a teologia feminista é considerada por muitos uma heresia tomada no seu sentido negativo. Desestabiliza uma ordem, critica dogmas, propõe novos costumes, desvenda intenções e poderes, lê o mundo e os diferentes contextos a partir de um instrumental analítico plural e, sobretudo eleva em nível de cidadania as mulheres nas suas múltiplas identidades assim como outros grupos sociais excluídos ou desconsiderados. A teologia feminista se torna uma teologia herética em relação à teologia tradicional oficial.

Entretanto, temos que admitir que, apesar desse avanço, sua expansão nos dias de hoje tem diminuído. Isso se dá por muitas razões inerentes ao clima conflitual em que vivemos, nos vários campos da religião e da política.

Por isso, como teóloga feminista, cada vez mais penso que deveríamos pensar a teologia não mais como “o que Deus fez ou pode fazer por nós”, mas o que na nossa miséria humana podemos fazer uns pelos outros já que somos todos nós seres limitados e necessitados uns dos outros. E ainda, como podemos aprender a acolher as maravilhas desse mundo do qual somos parte e artífices, somos também mesmo corpo e diversidade de corpos.

Devolver a pergunta sobre Deus ao ser humano é resgatar relações mais imediatas entre nós, relações de eficácia simples, de mínima ajuda possível. O filósofo francês Paul Ricoeur dizia que temos dois tipos de relações: as longas que são as relações institucionais e as relações curtas que são as relações mais diretas. Estamos vivendo uma espécie de deterioração das relações longas, ou seja, nossas instituições dos mais diferentes tipos parecem não funcionar e não conseguimos em curto prazo transformá-las. Sem abrir mão delas o que parece nos restar é em primeiro lugar o imediato, o dia de hoje e quanto muito o de amanhã. E nele a família, as amizades, a vizinhança… Mas, aqui, também estamos vivendo uma liquidez de laços, uma banalização que em certa medida é incentivada pela tecnologia da comunicação e pela violência institucional tão forte nos diferentes âmbitos da vida em sociedade. Estamos sofrendo de solidão e criando, através dos aparatos de comunicação, a ilusão de que estamos sendo carinhosamente acompanhados. Sofrer de solidão é ser capaz de isolar-se com meu telefone em meio a uma multidão que espera o metrô ou em meio a uma multidão que se manifesta politicamente. Solidão de muitas idades e de muitas formas eivada da ilusão da comunicação.

A teologia feminista tem a ver com nossas relações curtas e nossas relações longas. Descobrimos que nós mulheres vivemos cativeiros especiais em nosso mundo. O cativeiro das mulheres se expressa de diferentes formas a partir da consideração hierárquica da superioridade efetiva e simbólica do que chamamos de masculino. Deus é ‘masculino’, um masculino oculto que invade os recônditos dos corpos e almas do feminino. E o invade em forma de Lei, de Intimidade, de Proteção, culpabilidade, de imaginada ternura, de ordem, de submissão, de poder sobre nós. Não é apenas a figura masculina exterior do amante, do amigo, do policial, do governador, do repressor. É algo dentro de nós que se tornou como uma pele interior que nos aperta e impede nossos movimentos. As teólogas feministas propõem a saída desse cativeiro de proporções espirituais e materiais enormes. Elas afirmam que se Deus é masculino então o masculino é Deus! Sair do cativeiro da ordem do masculino que domina até os recônditos da alma. Sair de um domínio que é maior do que a figura masculina de um homem, mas que se tornou um modo de ser, uma ordem divina de existir, uma natureza totalmente desligada da existência real das pessoas.

Ao tentar sair dessa ordem pré-dada, abraçamos uma luta para sair de outros cativeiros culturais, sociais, políticos e econômicos muitas vezes justificados por essa imagem naturalizada de Deus. Uma luta para sair de modelos pré-estabelecidos de normalidade sexual e de conformidade sexual à vontade de Deus. Daí a importância de criticar a pretensão de alguns de se julgarem juízes e representantes de Deus em relação à vida e a sexualidade de outros.

Entretanto, não saímos por decreto e nem de forma definitiva. Na vida há idas e voltas, recaídas… Examinar as próprias crenças, sua relação com o vivido, suas consequências sobre nossos corpos é apenas um começo. E isto porque não basta trocar de roupa como se o corpo fosse apenas um manequim a partir do qual podemos ajustar qualquer roupa da moda. O corpo é minha expressão, meu lugar de visibilidade e de invisibilidade, de presença e de ausência. A partir de meu corpo escrevo minhas crenças; as mais profundas. Escrevo nele mesmo, como se meu corpo fosse composto de páginas que se escrevem de fora e de dentro.

A partir de minha opção feminista de saída dos cativeiros impostos às mulheres, o cristianismo se transforma em ética para a vida de agora e não para a vida depois, para a vida do além, para a esfera celeste. Trago minha crença para a circunstância atual de meu corpo… E por aí vão muitas coisas e novas formulações… Essas novas formulações têm a ver igualmente com a sexualidade humana apresentada de forma natural como binária. Desta forma, todos os que não vivem nessa binariedade natural são considerados anormais, contra a natureza e em estado de pecado. Pecado? O que é mesmo pecado nessa ordem de pensamento?

Sem dúvida, nossa vida social é marcada por agressões mútuas de uns contra os outros, de apropriações, de despossessões, de roubos. Se por um lado as religiões afirmaram seus códigos de conduta em relação à sobrevivência social por outro também serviram a interesses ligados aos poderes políticos e aos poderes religiosos capazes de dominar as consciências. Nos tempos atuais esse poder controlador que enumerava pecados, que impunha confessores, diretores de consciência, que inventou o Inferno como justiça para depois da morte vem se enfraquecendo. Quais são as novas normas capazes de controlar a violência de uns contra os outros? É aí que nos damos conta da falência da antiga ordem que ao tentar impor-se produz ainda mais violência.

A teologia feminista tem aberto novos espaços para a criação dessa nova ordem de respeito e dignidade dos diferentes seres humanos e dos diferentes seres vivos. E esta nova ordem, ainda incipiente e bastante nebulosa, aparece mais como crítica da ordem tradicional da religião do que novidade bem formulada. Não conseguiu direito de cidadania institucional. Gays, lésbicas, transexuais e até as mulheres insubmissas são apenas dignas de piedade, sujeitas de oração de uma Igreja que se julga perfeita, mesmo quando admite sua imperfeição.

Não somos sujeitos da história nas igrejas porque não temos o direito de ser e de pensar de forma autônoma. Pensar é possível, mas apenas dentro da lógica e dos conceitos e interpretações considerados como a ‘ordem’, dentro da teoria teológica ‘querida’ por seu Deus. Preferem essas teorias às vidas de gente simples com seus sofrimentos e alegrias. Preferem discursar sobre Jesus o crucificado que ouvir os lamentos das muitas pessoas que carregam suas cruzes hoje.

Fazemos teologia feminista não para afirmarmos a centralidade das mulheres ou a centralidade de um modelo feminino. Fazemos teologia feminista para dizer que o divino não pode ser a imagem e semelhança de um macho branco e poderoso, que o divino não pode ser um decreto, uma ordem pré-estabelecida, uma orientação sexual, um único modelo de amor, um único modelo de família e tudo o que se apresentar como única vontade de Deus.

Tudo isso novamente me faz afirmar que existem duas frentes de luta para a teologia feminista: uma teórica e outra prática. A primeira frente toca os poderosos da Igreja, aqueles que mantêm suas teorias teológicas para dominar o povo, aqueles que pensam o mundo ‘espiritual’ independente do mundo real, que pensam os seres humanos como ideais irreais, que falam do amor sem senti-lo em suas entranhas. A outra frente é a das comunidades populares que buscam na religião o alívio de seus males, que buscam uma esperança para continuar vivendo. Aí também há que intervir através da ajuda mútua e da independência em relação a um clero que os torna cativos de seus produtos religiosos. Aí também há que ajudar a pensar a vida, a raciocinar, a educar para resgatar a dignidade da vida.

Há muito que fazer… Mas, para isso é preciso pensar pessoal e coletivamente. É preciso estudar, discutir com humildade e aprender um dos outros cada dia. Estas são algumas tarefas que as teólogas feministas têm se proposto na maioria das vezes fora dos espaços religiosos institucionais.

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