Hineini e Toevá: A identidade LGBT entre textos e ética no judaísmo

Hineini e Toevá: A identidade LGBT entre textos e ética no judaísmo
25 de setembro de 2019 André Liberman

Hineini e Toevá: A identidade LGBT entre textos e ética no judaísmo

André Liberman

Abraão, Moisés, Jacó, Samuel, são personagens que aparecem em momentos diferentes na Torá. O que os une são os momentos em que D’us entra em contato com cada um deles. Todos, ao serem chamados por Ele, respondem com uma mesma palavra: Hineini. “Eis-me aqui”.

Créditos: Alejandro Linares Garcia

Como cita Shoshana Rozenberg, colunista do site de conteúdos judaicos Daf Aleph:

Na Torá, cada palavra é usada deliberada e propositalmente. Se houver uma palavra usada duas vezes, haverá diversos comentários para buscar os possíveis sentidos de cada uma delas. Se uma palavra for escrita com uma pequena variação, os comentaristas encontrarão uma lição a ser tirada dela. Diversas são as interpretações que podem ser obtidas de um único termo (ROZENBERG, 2016, tradução minha).

Hineini é uma palavra usada para se apresentar; mostrar prontidão. Mostrar que estamos sempre a postos para o alcance de D’us. Outra interpretação possível é a de que o termo seria uma forma de autoafirmação. Se mostrar presente para D’us como somos, como estamos e que podemos oferecer nossa contribuição para Ele e para a sociedade, sempre que necessário, afirmando e amando nossa identidade.

Há quatro anos, me apresentei a minha família, amigos e sociedade em geral. Me assumi LGBT. Uma identidade que sempre esteve presente em mim, mas nunca antes exposta. Na vida de um LGBT, esse momento pode ser tanto de alívio, quanto de inquietação, acompanhado de mudanças avassaladoras. Sempre me considerei uma pessoa que sente a necessidade de expressar a minha espiritualidade. É algo que considero um pilar importante na minha vida. Como judeu, tive de conciliar sexualidade com minhas tradições religiosas, principalmente com as escrituras sagradas. No livro de Levítico, dois versículos declaram que o ato sexual entre dois homens consiste não só uma abominação (toevá em hebraico), mas também um pecado mortal. O que fazer quando o texto mais sagrado do seu povo chama parte central de sua vida de “abominação” e que seus ancestrais, um dia, consideraram suas ações como passíveis de morte? Talvez essa seja uma das principais dificuldades de um judeu ou judia LGBT, ou seja, a de lidar com esse choque entre suas duas identidades. Então como me apresentar, como dizer “hineini”? Como ter orgulho de quem sou?

Muitas vezes nos contentamos com uma interpretação pronta e literal dos nossos textos sagrados. Porém, na tradição judaica, não é assim que funciona. Eles são nossas fontes de ética e o elo que mantém o povo judeu unido. Não podemos simplesmente desconsiderar suas palavras ou apenas abraçar o que nos convém. Entretanto, o judaísmo é uma religião que funciona a base de perguntas. Temos uma filosofia de interpretação e reinterpretação que nos permite, a partir desses textos, trazer novos olhares sobre os mais diversos aspectos da vida espiritual, da nossa convivência em sociedade e sobre nossa relação com o divino.

Ao contrário de outros credos, o judaísmo não crê numa relação vertical entre o divino e o ser humano, em que D’us estaria acima de suas criaturas; mas sim numa relação horizontal. Para o judaísmo, D’us é a unidade que dá origem ao cosmo e suas criaturas são copartícipes no processo da criação, sendo cada uma responsável pela continuidade do universo e portadora de parte do divino. Sendo assim, nossas descobertas e avanços como humanidade também são consideradas dádivas, e se assim provadas como verdadeiras e justas – mesmo não alterando nossos textos que um dia pertenceram aos nossos ancestrais – trazem novos olhares sobre a realidade do hoje em nossas interpretações sobre as escrituras sagradas.

A naturalidade das diversas orientações sexuais e identidades de gênero, depois de diversas pesquisas, é uma realidade reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e por mais que muitas vezes algumas pessoas ainda tentem usar trechos das escrituras para negar este fato, a própria Torá nunca proibiu a homossexualidade.

Homossexualidade é uma característica atribuída aos seres vivos que se sentem atraídos emocionalmente por um outro ser vivo que possua o mesmo sexo biológico ou o mesmo gênero que o seu. Essa maneira de ver os atos sexuais era desconhecida tanto para a Torá quanto para o Talmude. Onde a Torá fala de atos sexuais, não há nenhuma concepção de que esses atos estejam relacionados à identidade pessoal ou ao amor. Pelo contrário, o judaísmo tem uma tradição que incentiva o amor e a relação saudável entre indivíduos, portanto não faria sentido o judaísmo proibir uma relação que traz amor mútuo e ainda faz parte da própria natureza humana. A proibição em questão é ao ato sexual.

A proibição do ato sexual na Torá demonstra ser bem enfática. Podemos encará-la de duas formas. Numa visão sócio-histórica, podemos levar em consideração a formação do povo hebreu no período histórico em que os historiadores denominam “Idade Antiga”, quando diversos povos, principalmente da região do mediterrâneo, estavam em formação, criando suas próprias culturas e tradições, de forma a se diferenciarem de outras nações. A Torá enfatiza a reprodução com ênfase ao crescimento da população hebraica, daí porque o ato sexual entre dois homens tardaria esse processo. Ademais, duas características que diferenciavam os povos, eram a religião e sua forma de culto. Uma grande parte dos historiadores acredita que, provavelmente, cultos de fertilidade que ocorriam em povos vizinhos, como entre egípcios e cananeus, eram praticados com atos sexuais entre dois homens e por conta disto, para haver essa diferenciação, os hebreus vetaram esta prática. Sendo assim, não uma proibição divina, mas uma forma de se diferenciar dos comportamentos de outras civilizações.

No momento narrado dentro do livro de Levítico, o povo hebreu havia saído da escravidão no Egito, reestruturando-se como nação e cultura no processo de retorno a Canaã, afirmando sua identidade a partir da negação de expressões culturais egípcias. Assim, negavam também suas formas de culto, como a própria Torá salienta:

Não procedam como se procede no Egito, onde vocês moraram, nem como se procede na terra de Canaã, para onde os estou levando. Não sigam as suas práticas (Levítico, 18, 3).

Existem diversas outras interpretações históricas, além de gramaticais, sobre o significado das palavras escritas nesses versículos que são de extrema importância, já que o objetivo das nossas escrituras é gerar diversas formas de decifrá-los e, por conseguinte, obter novas reflexões sobre eles. Porém, para quem procura uma solução espiritual seguindo uma visão religiosa dos textos, essas interpretações não são satisfatórias. Como então trazer uma solução por intermédio de um olhar por dentro da crença?

Daí consideramos a segunda forma de encararmos tal questão. Numa visão dentro da doutrina, não existe uma solução para a proibição em si, mas a tradição escrita e oral judaica nos abre portas para apelarmos aos valores mais importantes no judaísmo: a vida e a relevância da singularidade do ser.

O sistema punitivo na Torá funciona de acordo com um princípio que se assemelha ao da intervenção mínima do direito penal brasileiro, em que se deve utilizar a lei penal como seu último recurso (ultima ratio), quando não existe outra forma de solução. No caso da Torá, que se evite tirar a vida de um indivíduo.

A tradição judaica não traz uma interpretação da Torá escrita sem antes depender da Torá oral nos escritos talmúdicos e de rabinos e pensadores posteriores. Apesar da declaração da pena, a Torá oral dificulta e burocratiza qualquer ação penal na sua versão escrita. Uma pessoa poderia ser condenada à morte apenas se fosse pega em flagrante. Isso em diversas gravidades e condenações encontradas na Torá. No ato sexual entre dois homens, o casal deveria ser pego em absoluto flagrante por, pelo menos, duas testemunhas que ainda precisariam avisar aos dois homens que estavam cometendo um ato proibido, para ter certeza de que tinham consciência da ilicitude.

Além disso, é reconhecível que muitas vezes, por questões da época e momentos em que certos textos foram escritos, alguns valores presentes na Torá se tornam contraditórios, fazendo com que dificulte a decisão de qual interpretação deve ser adotada. Quando isto acontece, a tradição rabínica determina que seja escolhida uma forma de interpretação que valorize mais a vida do indivíduo que sua condenação. Somos ordenados a escolher a leitura que está de acordo com a sua mensagem. A Torá é um livro de afirmação da vida. Escolhemos aquela que respeita a humanidade do outro.

Uma pergunta que pode surgir é: se afinal, o judaísmo tenta dificultar a condenação de certos atos, por que existem as penas? Há diversas respostas, como a de que existem por uma questão de controle sobre a população da época em que foram escritas ou até que são apenas uma forma de induzir uma pessoa a pensar duas vezes antes de praticar qualquer ação. Gosto de trazer a seguinte resposta: elas existem para testar nossa ética. Ver até onde podemos enxergar a humanidade no outro e sentir se realmente existe a necessidade de condená-lo e acabar indo de encontro com nossa ética judaica de compreender o próximo.

Para os judeus, a Torá representa tudo o que há de mais importante na humanidade, até na forma em que é produzida. Na sinagoga, ela fica envolta em um tecido enfeitado e guardada num armário especial (Aron haKodesh). É um pergaminho feito em um papel específico de pele de um animal kosher, escrita usando uma pena de ave com tinta feita à base de suco de nozes de carvalho e resina, enrolado em duas hastes de madeira. Todo o material utilizado pertence a um reino da natureza, que em sua completude, representa a formação do nosso mundo.

Nosso mundo, na visão judaica, nos foi entregue com desafios, questões, dúvidas, para que nós, como humanidade, nos unamos e trabalhemos em conjunto para dar continuidade a solução, construção e reparação do mundo, que em hebraico chamamos de tikun olam. Da mesma forma, a Torá nos foi entregue com questões que muitas vezes mexem com nossos valores, mas com o propósito de ver até que ponto o valor que damos ao próximo, seguindo uma ética de empatia, pode ser mais divino do que seguir estritamente nossos textos ancestrais.

Um valor judaico que reflete essa ideia é “svara”. É uma palavra aramaica que literalmente significa “razão”, mas os rabinos expandiram o conceito de uma mera dedução lógica para englobar profunda intuição moral. O que seu pensamento lhe diz é certo, contanto que você esteja mergulhado nos princípios, valores e textos da tradição. Os rabinos elevaram “svara” ao nível da Torá. Eles dizem que é “d’oraita“, ou seja, é diretamente de D’us. Há um total de zero registros de condenação à morte por atos sexuais proibidos em toda a história do judaísmo, assim como em diversas proibições, simplesmente porque foge da nossa ética de dar valor a vida e ao próximo.

Para o judaísmo, como dito anteriormente, somos cocriadores que ajudam no processo do desenvolvimento universal, sendo cada um de nós, portador de parte do divino. Desta forma, dentro da humanidade, cada pessoa tem sua missão existencial e importância a partir de sua individualidade. Se a sua identidade, qualquer que seja, lhe faz bem e te induz a fazer o bem ao próximo, então ela é divina. Como a própria Torá nos fala, somos todos criados à imagem de D’us. Esse é um valor imensurável da nossa tradição. É uma ideia simples e profunda que deveria guiar nossas interações com todas as pessoas. Se vemos cada pessoa como criada à imagem de D’us, podemos ver humanidade e dignidade em todos. A verdadeira inclusão é construída sobre este fundamento.

Outro valor, haurido da Torá, que também ajuda a medir nossas interpretações e ações éticas consistem no aforismo: “Ame o teu próximo como a ti mesmo”. O rabino Hillel afirmou certa vez que esse é o valor fundamental da Torá. Começa com amar a nós mesmos. Devemos amar e aceitar nosso todo, nossa identidade, e criar a capacidade de estender esse amor e aceitação aos outros.

E é a partir desses valores que mostram a importância de cada ser humano, toda forma de amor e respeito para a existência do nosso mundo e a continuidade do universo, que enxergo minhas identidades como indispensáveis. Ou mais: como essenciais. Tanto para minha vida, minha existência, quanto para a sociedade. E são com elas, como judeu e LGBT, que me apresento e me prontifico a ajudar nosso mundo, podendo oferecer-me para o que for necessário, assim garantindo uma sociedade de respeito, dignidade, amor e tudo de mais profundo que consigo sentir e trazer dos meus valores. Não só ancestrais, mas universais.

E assim, dizer: Hineini.

 


REFERÊNCIAS
ROZENBERG, Shoshana. A Guide To The Term “Hineini”, 2016. Disponível em:  <https://dafaleph.com/home/2016/1/4/a-guide-to-the-term-hineini>. Acesso em: 10/08/2019.
BALKA, Christie. Twice Blessed: On Being Lesbian, Gay, and Jewish. 1991.
Site: www.significados.com.br/homossexualidade/
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