CHUTA QUE É MACUMBA? Entre os símbolos e o atos de violência

CHUTA QUE É MACUMBA? Entre os símbolos e o atos de violência
8 de setembro de 2019 Thiago Teixeira

CHUTA QUE É MACUMBA?

Entre os símbolos e o atos de violência

Thiago Teixeira

 

Embora o desejo de criar uma cortina de fumaça sobre as estruturas e os eventos de violência tenha se tornado cada vez mais usual, fica difícil negar a realidade a ponto de escamotear os efeitos mais densos e perversos de violência que contornam os nossos processos representativos de mundo. Compreendemos que violar significa, de modo profundo, impedir, enfraquecer e utilizar potencias e tecnologias de poder que enfraquecem e esvanecem a vida do outro. Sendo assim, mesmo que muitos indivíduos afirmem insistentemente que as estruturas de violência não existam, elas não deixam de contornar as relações sociais, de acentuar os corpos que são lidos como legítimos, em detrimento dos que são constituídos e mantidos em lugares de ilegitimidade.

Karina Carvalho de Oliveira

De forma objetiva nós podemos observar uma relação intrínseca entre o discurso e o poder. Aliás, é possível que afirmemos de modo imediato que o poder desliza pelos campos discursivos. O estreitamento entre esses dois campos faz com que, de modo escancarado ou não, as insígnias de poder demasiadamente restritivos se entranhem nas nossas relações, componham a nossa percepção e alterem drasticamente os modos pelos quais enxerguemos a nós mesmos e aos outros.

É importante grifar que o discurso é ato e, mais, que as suas tessituras podem ser inclinadas à dinâmicas agudas de degradação, mesmo que não estejamos tão conscienciosos desses processos. Adilson Moreira em seu texto Racismo Recreativo, aponta para os efeitos nocivos e, ao mesmo tempo, naturalizadores da segregação que se escondem atrás do “humor racista”. Ora, quando um humor pode ser considerado racista? Segundo o pensador o humor, nessa órbita, desempenha técnicas de violência e de segregação, pois “causa dano moral aos indivíduos porque afeta diretamente a expectativa deles serem tratados como sujeitos em uma sociedade baseada no reconhecimento do mesmo status moral dos indivíduos”.

Certamente você já deve ter escutado a expressão que dá nome ao nosso artigo. É possível dizer também que esse ato de fala foi acompanhado por risos. Ora, podemos ampliar o debate e pensar em todas as vezes que algum elemento constituinte das identidades de grupos minoritários é enfraquecido estereotipado e alocado nos lugares de desimportância. Esse efeito diz muito sobre o contrato  narcísico entre os que se vem como sujeitos e que, de modo perverso e vetorial em relação as violências estruturais.

Esse pacto narcísico toma forma no instante em que esse sujeito que requisita a si mesmo enquanto norma, discurso e  poder — na modalidade de destruição — em detrimento de outras expressividades. Ao declarar “chuta que é macumba” o sujeito norma dissimula a existência de outras perspectivas de mundo e as reduz ao dispensável, ao passível à violação, ao lugar do  abjeto.

A tentativa de manter uma ordem fabricada nesse poder infantil, hostil e centralizador, faz com que o sujeito norma não alcance a possibilidade. Ele não sabe lidar com a diferença, posto que a sua perspectiva é reduzida demais. A sua resposta à diferença  é o ódio. A construção simbólica que ele estabelece com o mundo que o cerca, sobretudo com os mundos plurais que o desestabiliza, é nutrida pela cólera. Assim, o seu pacto narcísico é selado pelo desejo odioso partilhado entre os seus pares, retroalimentado e selado nos atos de destruição. O efeito simbólico que se desenha no ato de fala, no riso e no pacto narcísico de destruição faz com que toquemos as bases da nossa composição real. Os artifícios que constroem as nossas representações, os nossos atos de fala e as técnicas nas quais nós construímos as relações designam os princípios valorativos que nos tornam mais ou menos capazes de ampliar o que é possível conceber como vida.