A Jurema sagrada na Amazônia: representação e preconceito religioso nos bois-bumbás de Parintins

A Jurema sagrada na Amazônia: representação e preconceito religioso nos bois-bumbás de Parintins
29 de agosto de 2019 Diego Omar da Silveira e Ericky da Silva Nakanome

A Jurema sagrada na Amazônia: representação e preconceito religioso nos bois-bumbás de Parintins

Por Diego Omar da Silveira Ericky da Silva Nakanome

Foto de Daniel Silva Brandão

Existem poucas abordagens sobre a Jurema Sagrada fora do Nordeste, especialmente na Academia. E na Amazônia – onde esse culto parece ter chegado com as levas sucessivas de migrantes ali aportados nos séculos XIX e XX, esse continuou a ser um saber transmitido de geração em geração entre iniciados nos terreiros. A manipulação das plantas, os cantos rituais e outros elementos do universo encantado da Jurema mantiveram-se, assim, presentes no Candomblé, na Umbanda, no Tambor de Mina e em outras religiões de matriz afro-indígena na Região Norte do país.

A invisibilidade é fruto de um intenso esforço do Estado, aliado histórico do cristianismo hegemônico, em eliminar – senão fisicamente pelo menos simbólica e ideologicamente – as expressões religiosas dissidentes, principalmente as nativas e aquelas trazidas da África. Isso fica claro quando constatamos que não há para a Amazônia, por exemplo, nenhuma história das religiões, apenas “histórias da Igreja”, sendo a maioria delas uma apologia dos processos de catequização. Também nas escolas, nenhuma palavra sobre as espiritualidades não-cristãs: nada de pajelança, nem sobre deuses e entidades indígenas ou sobre plantas curativas e seus “poderes”. Existe um esforço institucionalizado em mantê-las na invisibilidade ou quando muito, nota-se a redução das encantarias à categoria de lendas amazônicas.

Mesmo do ponto de vista numérico, na maioria dos estados ou cidades da Região quase não há identificação de afrorreligiosos, muito embora existam um sem número de searas, centros, terreiros e curadores/as espalhados pelas capitais e interiores. Dados de associações dos povos de terreiros, ainda carentes de sistematização mais elaborada, chegam a mencionar mais de cinco mil terreiros em Belém e Manaus. E em pesquisas que desenvolvemos em Parintins (no médio-baixo Amazonas) constatamos um fenômeno intrigante: mesmo em uma cidade em que ninguém nunca se declarou pertencente às religiões afro-brasileiras, catalogamos aproximadamente trinta lugares de culto dessas tradições. Ao conversar com mães e pais de santo pudemos sentir o peso do preconceito e da violência religiosa dirigida contra eles, o que quase sempre os levou a uma existência discreta, sem autodeclaração, às vezes com o apagamento de qualquer militância e afirmação identitária.

Mas isso tem mudado! E uma nova realidade que emergiu dos processos de descolonização dos imaginários, das políticas afirmativas implementadas na última década e do empoderamento de homens e mulheres negros – inclusive com as leis que obrigam o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígenas nas escolas e universidades – tem causado reações. Vivemos há poucos dias um desses embaraços, que, lido de forma crítica, deve nos animar a seguir em frente na afirmação da diversidade e do respeito religioso como pilares de uma democracia madura.

A mesma Parintins que mencionamos cima é conhecida nacionalmente (e internacionalmente) por sediar todos os anos um dos mais importantes festivais folclóricos do país. Durante o último final de semana de junho, em uma arena com capacidade para mais de vinte mil pessoas, os bois-bumbás Caprichoso e Garantido se apresentam e trazem à baila vários elementos da cultura popular brasileira e amazônica. Inserido no ciclo junino desde o seu nascimento há pouco mais de um século, o festejo continua permeado por elementos da fé local: Nossa Senhora (do Carmo, de Nazaré, Aparecida) sempre presentes e santos surgindo em alegorias e nas toadas (o ritmo que embala as apresentações). Às vezes apareciam timidamente nas letras menções a entidades e encantarias, mas nada que contestasse o caráter católico da festa.

Ocorre que pelos fatores elencados acima (e cremos que o fortalecimento das culturas afro e dos povos de terreiro tem tudo a ver com isso) os bois parecem ter se animado a recuperar suas origens: na última década acentuaram-se as referências estéticas africanas, a sonoridade tornou-se mais próxima a dos pontos e giras e as canções passaram a falar em “consciência negra” ou mesmo em um “boi de negro”. Em 2019, o Caprichoso decidiu rever sua história, colocando em cena a ideia de um “boi-de-santo” que brinca para pagar promessa, mas com uma leve alteração no enredo: talvez esse bumbá tenha sido fruto não apenas de uma devoção católica, mas uma oferenda aos caboclos e ao povo das ruas… e o terreiro em que ele brincava talvez não fosse apenas uma menção ao quintal de terra batida, mas um espaço de culto afrorreligioso. Há suficientes indícios que corroboram essas hipóteses.

Além disso, o tema que o boi encenou no Bumbódromo permitia a ousadia: “um canto de esperança para a Mátria Brasilis”. O eixo escolhido foi a presença do elemento feminino na gênese e no cuidado do mundo. E na esperança estavam associadas as ideias de respeito e convivência fraterna com a natureza e entre diferentes culturas. Como o festival acontece durante três noites consecutivas, o Conselho de Artes do Caprichoso achou por bem cantar na segunda noite a esperança pela fé. Mas não era o caso de ratificar apenas a fé já legitimada pelo poder e, por isso, o eixo proposto foi a Jurema Sagrada como força feminina, de resistência. Todos os elementos remetiam à multicultural formação religiosa brasileira, com uma exposição privilegiada dos motivos afro-indígenas.

Já na abertura, intitulada “Mátrias da fé”, a “mãe Aparecida”, negra e sincretizada, vinha ladeada por Nhandecy (representação mátria de muitos povos nativos) e Yemanjá (a grande mãe para as religiões de matriz afro) – alegorias com cerca de vinte metros de altura. O texto de abertura remetia à pujança do feminino, mesmo quando sufocada pela tradição patriarcal, afinal estamos em uma país de milhões de Marias. O apresentador, o levantador de toadas e o amo do boi traziam em suas roupas uma mistura de elementos cristãos e de outras tradições. Na marujada de guerra (os ritmistas) predominava o amarelo ouro ao invés do azul (cor do Caprichoso): no peito uma santa, mas com indicação clara das cores de Oxum. A celebração folclórica trouxe o “boi-de-encantaria” do Maranhão, celebrando a origem nordestina da brincadeira e dos fundadores do boi. Ao fim da toada o que se cantava era: Toca/ Esse tambor!/ Parintins virou congá/ É axé, Caprichoso, é patuá/ Juremá/ Ié, ié, ié/ Juremá.

O espetáculo tinha vários pontos altos: a vaqueirada (grupo cênico que protege o boi) veio como São Jorge para enfrentar o dragão, representação das maldades contemporâneas, inclusive a corrupção, o racismo, homofobia e o feminicídio. Santo católico, mas figura reconhecidamente apreciada pelas religiões afro-brasileiras e afroindígenas devido à grande força que o sincretismo exerceu sobre essa figura, que passou a representar duas divindades trazidas da África, em alguns lugares o orixá Ogum e em outros o orixá Oxóssi. Nas lanças que cada vaqueiro estava empunhado, o símbolo estampado na bandeira da Umbanda. A figura típica trazia o “sacaca da floresta”. A música que embalou a apresentação tinha como mote uma homenagem ao Pai Daniel (primeiro babalorixá da ilha) que também foi “Dono do Boi” (antiga categoria, equivalente ao atual cargo de presidente) e a alegoria o propósito de trazer um grande terreiro para a arena. Os tuxauas (líderes guerreiros das tribos) encarnaram uma linha de caboclos e o amo do boi versou lembrando que o mesmo Daniel, que no passado cantava no curral Zeca Xibelão (reduto do Caprichoso), era também responsável por um importante centro de umbanda na cidade. Em seguida cantou um ponto enquanto o boi negro se apresentava com as ferramentas dos orixás gravadas em sua barra.

A lenda amazônica trouxe as “As três princesas turcas” do Tambor de Mina e as indumentárias dos itens femininos revelaram as nobres da Turquia ajuremadas nas linhas da espiritualidade amazônica, uma história que revela em suas entrelinhas encontros há muito negados. Para finalizar a noite, o ritual indígena era “Kalankó: um canto para a Jurema Sagrada” – uma rememoração da importância da Toré para os índios do Nordeste, como rito de reconstituição da identidade étnica e que, não raro, agregou elementos religiosos indígenas e africanos.

Não tardou para que um clima virulento marcasse os comentários nas redes sociais. Havia transmissão ao vivo pela TV Cultura, o que permitia um público ampliado para o espetáculo. E aos poucos que destacaram a ousadia e a necessidade de tratar com seriedade a presença das religiões afro no Festival, surgiram centenas de comentários criticando duramente a apresentação. Os argumentos podem ser resumidos em quatro linhas básicas: 1) desvirtuaram o nosso folclore e o que está sendo apresentado não diz nada sobre nós; 2) os torcedores não entendem o que está sendo apresentado porque os argumentos são acadêmicos (“um tratado antropológico”); 3) o Caprichoso trouxe Macumba para a arena e isso é inadmissível; 4) o foco deixou de ser a Amazônia (Jurema e Toré são coisas do Nordeste) e a nossa identidade não passa pelas religiões afrobrasileiras – ela continua sendo católica.

Era evidente que havia mais vigor e paixão no caso dos últimos argumentos, já que eles tocavam em pontos fundamentais da identidade local e soava absurdo àqueles que se portavam como “fiéis” que o catolicismo estivesse ficado em segundo plano. Mesmo quem admitia o sincretismo criticava tantos orixás e turbantes na arena e houve até quem antecipasse punições divinas à agremiação folclórica em função de ter despertado a ira divina.

Na segunda feira, dia 01 de julho, quando a apuração terminou o boi rival, Garantido, sagrou-se o campeão, o clima de preconceito e discriminação tornou-se ainda mais denso. Partindo de: “bem feito, perderam porque mexeram com Macumba” até “queremos nosso folclore de volta” e a “feitiçaria não deve entrar na festa”. Uma suposta umbandista postou em sua página que ao lidar com as forças do além é preciso saber fazer bem feito, já que as “entidades se vingam” e outra cartomante do local proclamou “ser vergonhoso fazer feitiço lá na frente, com todo mundo vendo”.

Ainda que implicitamente, os argumentos convergiram todos para um mesmo ponto: o problema não é a existência de uma tradição religiosa e de seus praticantes em território amazônico, o que, aliás, quase todos reconhecem; o problema é o empoderamento desses praticantes, a aspiração à legitimidade do culto, a visibilidade daqueles que permaneceram por décadas apagados nas periferias, silenciados perante a religião hegemônica e ao Estado. A tônica comum que prevaleceu é de que a Jurema ou qualquer outra religião só pode existir como “folklore” (estereotipada e parada no tempo), não como força política, cuja fé empreende uma demanda por representação e respeito no espaço público!

O apontamento do suposto exagero no reconhecimento da raiz afro do bumbá contrasta também com a aceitação tácita do boi católico, abençoado pelo panteão já há muito conhecido de todos, com recorrentes homenagens à padroeira de Parintins na arena – o inclui rezas e cantos devocionais durante as apresentações de Caprichoso e Garantido. Até hoje não conhecemos qualquer questionamento dessas práticas. Mas soou um desvirtuamento falar em tantas entidades ou blasfemo dizer que um terreiro iria baixar na arena. Singularidades de uma determinada configuração social ou sinais dos tempos? Cremos que um pouco das duas coisas.

Todo o ocorrido em Parintins nos coloca diante da necessidade de se repensar os processos de representação (e representatividade) das religiões afro-indígenas no Brasil, bem como nos leva a enfrentar de maneira mais decisiva o elemento atávico do preconceito religioso. Quem vive na Amazônia e estuda a Amazônia pode testemunhar que fala-se ainda muito pouco (das ruas aos ambientes acadêmicos) em espiritualidades ou cosmologias indígenas; ou ainda sobre a necessidade de visibilizar os espaços de culto afrobrasileiros, seus protagonistas e saberes tradicionais. Esse silêncio reforça a invisibilidade, sufoca as memórias e histórias desses grupos e sustenta uma representatividade desigual das religiões nos espaços públicos, de tal modo que as minorias nunca podem assumir o protagonismo. Para usar um jargão mais antropológico, os subalternos nunca podem falar.

Como expressões culturais já consolidadas – e até mesmo reconhecidas como patrimônio cultural pelo IPHAN – os bois-bumbás são quem melhor pode canalizar essas vozes. Seus artistas podem (e devem) exercer sua liberdade para tratar de temas relevantes e tanto melhor se estiverem do lado das minorias. O que o Caprichoso expôs não era obviamente um roteiro didático sobre a Jurema nem muito menos uma bricolagem de textos acadêmicos. Foi uma tentativa, a nosso ver bem-sucedida, de dizer que ela está na Amazônia e de que podemos apresentá-la ao público por meio da arte (e da arte como educação), seja através das canções ou da beleza plástica das alegorias e das indumentárias, ambas aliás repletas de simbologia. Essa tentativa de representação foi ainda mais vibrante porque encampou as bandeiras dos movimentos indígenas e negros: nos negamos a fazer blackface e trouxemos povos de terreiro para arena. Compreendemos que a melhor forma de combater a discriminação e o racismo estrutural é potencializando essas outras vozes religiosas da Amazônia e suas epistemologias. Como consta em um trecho da toada “Fumaça de Ervas”: “Sou Boi Caprichoso/ e trouxe pra arena/ Jurema Sagrada pra nos ensinar:/ o amor, só o amor pode curar/ (a alma, o corpo, a mente, o espírito, o mundo)/ o amor, somente o amor pode salvar!