O racismo e os seus mecanismos de naturalização da perversão: mídia, recreação e epistemicídio

O racismo e os seus mecanismos de naturalização da perversão: mídia, recreação e epistemicídio
5 de agosto de 2019 Liliane Martins e Thiago Teixeira

O racismo e os seus mecanismos de naturalização da perversão: mídia, recreação e epistemicídio

Por Liliane Martins e Thiago Teixeira

É muito comum que nós, negros e negras, olhemos ao nosso redor e percebamos que o mundo não nos representa. As imagens, os símbolos, os corpos que são lidos como belos, os modelos e as insígnias que são apresentadas como as aceitáveis, as imagens de heroínas e heróis e as figuras que remetem ao sagrado são, reiteradamente, deslocadas do horizonte da negritude.

Edgar Efrén López Ramos

Edgar Efrén López Ramos

Ao crescermos cercados por estímulos que, dia após dia, nos mantém apagados, criamos uma anticonsciência de quem somos. Nós assumimos uma leitura de mundo que nos oportuniza conhecer a realidade, mas, ao mesmo tempo, nos expropria desta concretude. Paradoxal, não é mesmo?

Este processo, embora perverso e altamente danoso às negras e negros, acontece sem que atentemos a ele e que vejamos, de forma objetiva, os seus resultados. O caminho de naturalização desta violência acontece porque todos os dias somos atravessados por leituras de mundo que não nos afirmam e, mais, quando nos mostram, fazem de uma maneira que menospreza as nossas potencialidades e valores.

Há uma diferença abissal entre mostrar nossos corpos e escutar as nossas narrativas, de modo a perceber que podemos dizer quem somos e que como existimos. Ainda existem pessoas que, de forma muito dissimulada, afirmam a não existência do racismo e que, seria melhor que deixássemos de lado essas discussões. Só podemos pensar que na mente destes deslocados, ao “não falar do assunto, ele desapareceria” e isso, sem dúvida, é apenas uma forma de querer nos colocar uma mordaça para não os incomodarmos. É bem o perfil dos “senhores” que não conseguem perder o seu lugar de destaque e que se amedrontam ao ver e ouvir os que (supostamente) deveriam se manter satisfeitos na posição de subalternos/as, mas não querem e não vão mais estar neste lugar.

É muito cruel o modo pelo qual vemos os nossos corpos serem, ao longo dos tempos, motivos de chacota. Eles são demarcados e apresentados, sobretudo, numa espécie rasa de humor que se alimenta da violência e que não consegue alcançar níveis mais elevados por regozijar da alienação das pessoas, como o motivo em si do riso.

É muito comum perceber que esse tipo de humor se vale da expropriação das identidades e da evaporação da dignidade daqueles que são grifados como os “exóticos”. Esta expropriação da dignidade se dá o instante em que o humor racista se vale de um dos seus instrumentos mais agressivos: o estereótipo. Eles existem como demarcação de uma organização do nós versus eles. Os estereótipos, enquanto indicativos do humor em sua marcação racista, aparecem como um dos braços do “racismo recreativo”.  Em sua obra Racismo recreativo, Adilson Moreira demonstra que a função deste braço é solapar a competência de negros e negras, ou seja, enfraquecer a possibilidade de que as suas existências sejam lidas enquanto atores/as e autores/as sociais.

Vale lembrar, como como afirma este autor que “os estereótipos presentes em piadas e brincadeiras racistas reproduzem  imagens negativas que foram utilizadas na nossa história para legitimar a opressão das minorias raciais”.  É importante frisar também que a construção desta fraqueza moral foi, ao longo dos tempos, retroalimentada a fim de naturalizar um lugar subalternizado “destinado” aos negros e negras no Brasil, com a “validade”, inclusive, de um discurso “científico” e “religioso”.

Outro grande show de horrores acontece em alguns canais de TV, quando as religiões de matrizes africanas são reincidentemente hostilizadas. Ali acontece uma dupla violência:

  1. a mais grave está no processo de demonização dos Orixás, Nkisis e os Vodúnsis, isto é, na descaracterização das raízes múltiplas do Candomblé e, mais, lendo-as por uma lente que não as representa. Vale grifar que o demônio, tão aclamado nestes palcos, não é conhecido pelos e pelas candomblecistas;
  2. ao dizer que estas referências de sagrado devem ser expulsas, exorcizadas e aniquiladas, o efeito que se cria extrapola aquela relação do showman com o espectador. Ela cria uma onda que reverbera e reitera comunicações e ações de violência. Neste caso, o discurso de ódio toma a forma de jogo simbólico. O discurso de ódio forma numa estrutura cíclica: ele alimenta e mantém esse lugar, onde o jogo que dá segurança às pessoas para que deem vazão às suas perspectivas higienistas e segregadoras ganhe força e se tornem naturalizada, estável e aparentemente perene.

As mídias são poderes e, mais, a sutileza de seus efeitos está na composição do desejo e na formação de consciências e verdades. A sua máxima acontece como uma alma que adentra as pessoas e torna legítimo o que se pensa, o que se quer e o que se acredita como “normal”, “belo” e “aceitável”. Embora, nós pensemos que estatutos “do que se pensa, quer e acredite” seja pulverizado, aleatório e disforme, essas categorias não são acidentais, ou seja, elas têm rosto e lugar político. Elas narram a história e publicizam, como afirma Chimamanda Ngozi, um jogo das “histórias únicas”.

A impressão de ser sempre a primeira ou sempre a única dentro de vários espaços, perpassam a vida de muitas mulheres negras, uma atriz protagonista nas novelas, uma repórter no jornal, uma medalhista olímpica, a solidão da mulher negra não se dá somente no aspecto pessoal, ela se estende no campo profissional, como diria Sueli Carneiro, “é verdadeiro que as mulheres negras são socialmente desvalorizadas em todos os níveis inclusive esteticamente” e a mídia contribui para que essa variável continue sendo uma constante.

O que faz com que uma criança negra se sinta insignificante no contexto histórico de seu país? Talvez o fato de seu país ter sido o último a abolir a escravidão e mesmo assim não porque quis, mas por pressão externa de outros países, pois diferente da história contada nos nossos livros em suas duas páginas onde aprendemos somente que éramos escravos.  Por volta de 1865 já havia uma pressão para esse fim,  já que o Brasil era então o único país na américa a continuar com o regime escravocrata. Uma sequência de fatores contribuiu para que esse regime terminasse, mas a nossa história ainda é contada por pessoas brancas. Ela é, por exemplo, romantizada no 13 de maio, onde se enaltece a “bondade” da Princesa Isabel. Este processo, por sua vez, esconde toda uma história de resistência e luta da população negra por justiça e liberdade, história essa que precisa ser recontada para que se resgate a verdadeira essência e valores do povo negro.

A forma de contar a história é também uma maneira de naturalizar e  legitimar o racismo. A história contada na escola até os dias de hoje é a mesma escrita por apenas uma ótica: a ótica dos brancos, por mãos brancas e para os brancos. Precisamos ficar atentos, isto é, contar nossas histórias às nossas crianças, pois a autoestima se constrói também a partir do orgulho de si mesmo e de seu povo. As nossas crianças precisam saber que somos descendentes de reis e rainhas, da maravilhosa cultura de danças e rituais sagrados africanos e que foram adaptados e hoje se configuram nas religiões de matrizes africana no Brasil, da agricultura avançada, das técnicas de mineração que resistem até hoje nas minas de Ouro Preto em Minas Gerais entre outras partes do país, técnicas essas que o homem branco não dominava. Eles não escravizaram apenas os corpos das pessoas negras, mas também nosso conhecimento.

O epistemicídio não começa na graduação quando estudamos apenas teorias eurocentristas, ele começa do ensino infantil e se perpetua como uma política que dá sequências à manutenção da população num lugar de subalternidade e inferioridade não reconhecendo o lugar e o valor do mesmo na construção desse país.

Enquanto sujeitos em construção e muitos de nós, fomos universitários e universitárias negros/as, muitos sendo os primeiros da geração de uma vida que tem acesso à universidade, temos como obrigação fazer o resgate dos nossos. Este compromisso nos aproxima do conceito outsiders within, de Patricia Hill Collins. Nele incorporamos a oportunidade de criar, a partir do lugar da subalternidade, novos conhecimentos que somente esse olhar pode construir, para que possamos deixar de nos sentir estrangeiros dentro de nosso próprio país e assim recriar os estímulos que afirmam as nossas representações, as nossas referências, a nossas realidade, os nossos heróis e heroínas. Defendemos uma reconstrução dos valores e, por consequência, dos modelos midiáticos nos quais eles são representados e pulverizados. Este interesse visa também ressignificar, longe destes modelos de morte e enfraquecimento, a nossa negritude enquanto consciência de quem somos.

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