Damares, a ministra da mulher que não sabe distinguir a função da mitologia para o reconhecimento do poder feminino

Damares, a ministra da mulher que não sabe distinguir a função da mitologia para o reconhecimento do poder feminino
30 de julho de 2019 Nelson Lellis

Damares, a ministra da mulher que não sabe distinguir a função da mitologia para o reconhecimento do poder feminino

Por Nelson Lellis

Um vídeo que fora gravado no ano de 2016 e divulgado em maio/2019, mostra a pastora Damares sugerindo que havia um manual prático de bruxaria para crianças de 6 anos no Nordeste. É importante que se diga o lugar onde pronuncia tal discurso: no “2º Encontro Mulher Viva” da Primeira Igreja Batista de João Pessoa-PE.

Valter Campanato/Agência Brasil

Valter Campanato/Agência Brasil

Recentemente, mercados editoriais têm recebido reclamações de instituições escolares, influenciadas pela confissão de fé dos pais de alunos, sobre a publicação de materiais que trabalham com o imaginário e a mitologia.

Isso vem à tona na semana em que Damares anuncia, no evento que ocorreu no Departamento de Estado Americano, que o Governo dará uma “atenção especial às religiões de matriz africana” e que os cristãos estão sendo perseguidos. Disse ainda que é preciso combater o ódio. De que maneira se os terreiros estão sendo destruídos por alguns criminosos de Cristo? Que tipo de narrativa está se querendo publicizar neste Governo?

Gostaria de pontuar uma questão importante sobre o uso da narrativa mitológica. “A República”, de Platão, nos seus livros II, III e IV, trabalha com a ideia de como a mitologia gesta sentido na sociedade e a constrói. Os mitólogos possuíam uma força singular. E para que a sociedade tivesse gravada na memória a narrativa mitológica que direcionava a vida em sociedade, existiam os aedos que cantavam e poetizavam tais manuais para facilitar.

Voltaire (e tantos outros) também disse que o mito religioso ajuda a manter a ordem social.

Para além dessa ideia de ordem, as narrativas míticas serviam para gestar sentidos e certo empoderamento em grupos emergentes. E as bruxas estão neste pacote.

Antes de falar da bruxa como mito, é necessário um pequeno espaço para falar das bruxas enquanto mulheres não vinculadas às escalas sociais privilegiadas e, por vezes, distanciadas da/pela religião oficial.

Sem conhecimento científico como se tem hoje, os “manuais de bruxaria” buscavam, sobretudo, o tratamento de doenças. Isso era visto como “magia”. O combate à esse tipo de prática na Idade Média ocorreu justamente por esta confusão. A igreja oficializou a perseguição em 1484 sob a ordem do Papa Inocêncio VIII. Desde então, todas as bruxas deveriam ser identificadas como hereges. Durante o período de perseguição, milhares de mulheres foram torturadas e condenadas à morte pelo fogo. Curiosamente, em sua grande maioria, camponesas, solitárias e que faziam uso de ervas e outros remédios naturais para o tratamento de doenças. O fato de não fazerem parte de uma rede social privilegiada, facilitou a tarefa da Inquisição. Se a mulher tivesse uma simples verruga ou outra cicatriz, poderia ser apontada como uma ligação com o diabo e era, consequentemente, queimada viva em praça pública.

No séc. XVII, houve rumores de que a esposa do rei francês Luíz XIV estaria ligada às práticas de feitiçaria. Desde então, baixou-se um decreto proibindo a perseguição e vários outros monarcas reproduziram o decreto. Apenas durante o séc. XVIII que as execuções terminaram.

Voltando ainda mais na história, na mitologia judaica, existe uma narrativa da primeira mulher que não foi Eva, mas Lilith. Há um texto do antropólogo brasileiro Roque de Barros Laraia, chamado “Jardim do Éden revisitado”, onde discute o tema não apenas por uma linha teológica/exegética, mas como se desdobra isso em forças de dominação simbólica. Lilith era a mulher que não se deitava por baixo, ou seja não se submeteu à dominação masculina. Como Adão deseja ficar sempre por cima, Lilith foge para o Mar Vermelho. Adão se queixa ao Criador e este envia três anjos (Sanvi, Sansanvi e Samangelaf) para buscar a mulher rebelde. Como Lilith não quer retornar, os emissários do Criador ameaçam afogá-la no mar.

Por muito tempo, a figura de Lilith foi utilizada para justificar a morte de recém-nascidos. E uma forma de proteger as crianças era escrever na porta os nomes dos anjos emissários.

Lilith, ao invés de ter sido afogada, foi transformada em um demônio feminino, rainha da noite, noiva de Samael (Senhor das forças do mal). Curiosamente, o texto de Isaías 34,14, cita seu nome, mas algumas traduções substituíram (erro crasso!) por outros nomes:

A Bíblia de Jerusalém manteve: “Os gatos selvagens conviverão aí com as hienas, os sátiros chamarão seus companheiros. Ali descansará Lilit, e achará um pouso para si”.

A versão do Peregrino chama de “mocho”, um animal que perdeu um membro.

Já a Almeida, “fastasmas”.

Já a Tradução Brasileira, NTLH e outras, escrevem “bruxa”.

As bruxas no imaginário da “religião oficial” sempre estiveram ligadas ao poder do mal. Socialmente, não se pode descartar sua imagem tão representativa dos grupos desprezados e autônomos.

No Nordeste, região onde a ministra Damares disse haver um manual de bruxaria, foi registrado no ano de 2017 um alto índice de violência contra as mulheres. 17% delas sofreram violência física no lar, conforme tabela abaixo:

Prevalência de violência doméstica por tipo

Estado Violência emocional Violência física Violência sexual
Aracaju 26,3 15,4 8
Fortaleza 27 18,9 6,9
João Pessoa 32,5 17,8 8,8
Maceió 30,2 18,4 8,6
Natal 34,8 19,3 8,3
Recife 28,6 17,5 5,1
Salvador 24 19,7 7,8
São Luís 19,7 12,5 3,6
Teresina 22,1 14,2 6,3

Fonte: Onu Mulheres e UFC

Segundo Nadine Gasman (ONU Mulheres Brasil), “o Nordeste é uma das regiões com mais desigualdades no país, com machismo arraigado e concentração de população negra. A pesquisa capta a complexidade da violência, que demanda respostas políticas”. A pesquisa também mostrou que as mulheres negras que já sofreram violência possuem diferença de salário (para menos) em comparação com a mulher branca, que também sofreu violência.

No livro “Quem tem medo de mal-assombro? Religião e infância no semiárido nordestino”, a antropóloga Flávia Ferreira Pires diz que os “mal-assombros” duram no indivíduo até o período de cristianização. O processo de crescimento da criança faz com que ela tenha contato com uma certa secularização daquilo que a assombrava. O que isso quer dizer? É a cultura religiosa que interpreta os mal-assombros e os substitui por outros. E para que servem as narrativas religiosas ou fantasiosas?

Só na região do Nordeste existem as seguintes estórias: Alamoa, Bicho Homem, Cabeça de Cuia, Cuca, Negro D’água, Quibungo, Vaqueiro Misterioso. Todas servem para dar explicação à sociedade de algo que antes era inexplicável, um mistério.

E o que as bruxas têm a ver com isso?

Considerando que as narrativas míticas, lendárias, serviram para gerar certo tipo de consciência social, ordenando, normatizando etc., e que as bruxas na história foram alvos de uma narrativa criada pela religião oficial que as injustiçou e, por isso, perseguidas… atentando ainda para a região do Nordeste, como um lugar de rica expressão cultural e religiosa, mas também de violência contra a mulher, a estória das bruxas poderia ser uma ferramenta singular de construção para o empoderamento feminino. E não haveria cristianização possível que apagasse seu ensinamento: que quando o Estado não chega e a religião oficial cria distâncias preconceituosas, ganha-se autonomia, independência, força, criatividade para vencer as doenças e tudo aquilo que ameaça a vida.

Talvez, o “manual de bruxaria” ajude a ensinar a não dominação masculina, a não dominação religiosa, a não dominação de forças opressoras. O manual de bruxaria tem muito mais a ensinar do que fabricação de vassouras.

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