O protagonismo da Jurema: um olhar do presente sobre o passado ou sobre como o passado se faz presente

O protagonismo da Jurema: um olhar do presente sobre o passado ou sobre como o passado se faz presente
30 de junho de 2019 Michelle Gonçalves Rodrigues

O protagonismo da Jurema: um olhar do presente sobre o passado ou sobre como o passado se faz presente

Michelle Gonçalves Rodrigues

Foto de Kayo na Real

A pesquisa “Da invisibilidade à visibilidade da jurema: a religião como potencialidade política”[1] se iniciou no ano de 2010, quando participei da Pesquisa Socioeconômica e Cultural de Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiros[2]. A pesquisa indicou a existência de 1.261 casas de culto das religiões de matriz africana, afro-brasileira e afro-indígena em Recife e sua região metropolitana. Dessas casas, as lideranças de 892 terreiros se autodenominaram como pertencentes à Jurema (BRASIL, 2011), ainda que grande parte desses templos também abrigassem outros tipos religiosos. Diante destes dados foi instigante compreender um pouco mais a Jurema, embora seja o Xangô aquele mais amplamente relacionado ao campo religioso pernambucano.

Para tanto, a pesquisa etnográfica ocorreu no Terreiro Mensageiros da Fé, também denominado como Ilê Asé Oyá Egunitá, casa religiosa que abriga Jurema e Candomblé. O terreiro foi fundado pela ialorixá e juremeira Dona Dora e por Seu João Folha, também juremeiro e candomblecista. Hoje a casa religiosa é liderada por Dona Dora e pelo babalorixá e juremeiro Sandro de Jucá. Ainda acompanhei alguns rituais no terreiro Tenda da Casa Verde, onde Sandro também é a liderança.

Além dos espaços religiosos, acompanhei as atuações do Quilombo Cultural Malunguinho (QCM), uma associação direcionada à Jurema, liderada por Alexandre L’Omi L’Odò, João Monteiro e Sandro de Jucá, este último era o coordenador religioso do Quilombo à época da pesquisa. O QCM, que conta com a presença de outros juremeiros como membros, organiza anualmente um evento religioso, festivo e político, o Kipupa Malunguinho. Por fim, realizei diversas entrevistas com juremeiros e candomblecistas, ligados aos terreiros das cidades de Recife e Olinda, e os dirigentes da Associação Caminhada dos Terreiros de Pernambuco, responsável pela organização de uma Caminhada anual que visa primordialmente à tolerância religiosa.

O objetivo maior da pesquisa consistiu em observar os processos que propiciaram, e ainda continuam a favorecer, a visibilidade da Jurema na cidade de Recife e sua região metropolitana. Para isso, minha interpretação não se concentrou somente ao campo da religiosidade, ou propriamente aos espaços físicos dos terreiros, ela foi estendida para a vida civil dos juremeiros. Assim, a visibilidade da Jurema se tornou explícita pela dinâmica efetuada por seus religiosos, foram as ações dos juremeiros que fundam o processo de visibilidade da Jurema. Os adeptos da Jurema, enquanto agentes históricos, iniciaram várias ações que promoveram o debate em torno da religião, criando estratégias políticas de luta, de legitimação e de visibilidade daquela religiosidade originária dos povos indígenas. Neste sentido, pode-se elencar um grupo de estudos sobre a Jurema realizado no espaço do Arquivo Público Estadual João Emereciano, na cidade de Recife. O grupo se iniciou em novembro de 2004 e se estendeu até o ano de 2007. Somente neste último ano, algumas pessoas que participam das conversas se reuniriam e criaram o Quilombo Cultural Malunguinho – Histórico e Divino. Entretanto as ações externas desenvolvidas pelos integrantes do QCM, para além das discussões efetuadas no âmbito do Arquivo, tiveram início no ano de 2006, por meio de seminários em escolas públicas no período de uma semana, que envolviam como temática as questões sobre as religiões de matriz africana e indígena, a cultura negra e a intolerância religiosa. Como encerramento desse ciclo de seminários, ocorreu o I Kipupa Malunguinho[3], em 24 de setembro de 2006. A discussão sobre a figura de Malunguinho e sobre a Jurema, enquanto uma religião de matriz indígena e um saber popular, no período do grupo de estudos no Arquivo Público Estadual João Emereciano, foi legitimada pela a pesquisa histórica sobre o Quilombo do Catucá (CARVALHO, 2010).

Ainda à época do grupo de estudos, é criada a Semana Estadual de Vivência e Prática da Cultura Afro Pernambucana, instituída pela Lei Malunguinho 13.298/07. A Semana relembra anualmente figura de Malunguinho, líder do Quilombo do Catucá[4], e a data de sua morte, ocorrida em 18 de setembro de 1835. Como homenagem à Malunguinho, a semana acontece anualmente, sempre no período do dia 18 de setembro, sendo findada com o Kipupa Malunguinho nas terras onde existiu o Quilombo do Catucá, atualmente na cidade de Abreu e Lima. A realização de um ritual no próprio espaço onde se constituiu o Quilombo foi um artifício construído como forma de instrumentalizar a legitimidade requerida pelo QCM para a figura do líder quilombola e para a Jurema, uma religião de matriz indígena e que está presente na maioria dos terreiros de Candomblé em Pernambuco.

Na realização do I Kipupa Malunguinho, o argumento de legitimidade da Jurema já havia sido buscado, ao se recorrer às fontes históricas, e estava em um processo de construção, incorporação e repasse, por meio da mediação deliberativa efetuada pelos religiosos que se colocavam a favor dessa religiosidade no espaço do Arquivo Público. Desde então, o Kipupa Malunguinho vem se solidificando a cada ano, congregando sempre mais participantes e sendo a ação de visibilidade da Jurema mais expoente do QCM. Pode-se dizer que, atualmente, cerca de 3.000 pessoas compõem o público cativo do evento. Convites são enviados, contatos são feitos, alianças e parcerias com outras entidades são buscadas, além da presença de professores, que levam seus alunos ao evento, e representantes do poder público municipal, estadual e federal. Fotógrafos profissionais, documentaristas e pessoas ligadas à TV, também participam e dão como contribuição o material produzido durante o evento.

Dentre a atuação dos integrantes do QCM, a religião motiva as ações e os discursos políticos durante o Kipupa Malunguinho, inclusive justificando a necessidade dos religiosos se instrumentalizarem para o diálogo, com o poder público, sobre a construção de políticas públicas e sobre ações contra a intolerância religiosa. E, mais ainda, para começarem a ocupar esse mesmo poder público mediante o voto nos sujeitos que se colocam em apoio às religiões de matriz afro-brasileira e afro-indígena ou aos sujeitos que pertencem a essas religiosidades. Essa argumentação efetuada entre religião e política também pode ser encontrada na Caminha de Terreiros de Pernambuco.

A Caminhada dos Terreiros de Pernambuco tem um número de participantes maior por congregar os religiosos da Jurema, do Candomblé e da Umbanda. A Caminhada se inicia na área conhecida por Recife Antigo e se direciona ao centro da cidade, sob a vista dos mais diversos segmentos sociais e com a “cobertura” da mídia recifense. O evento surgiu a partir da discussão do projeto Memorial Águas de Iemanjá, no ano de 1997. Esse projeto diz respeito a um memorial, hoje já construído na Praia do Pina, em Recife, de referência religiosa para o Candomblé pernambucano. Porém, apesar do projeto ter surgido no ano de 1997, somente em 2007 o memorial é construído e a Caminhada toma corpo abrindo o Mês da Consciência Negra. Como havia, também, a necessidade de ações direcionadas à intolerância religiosa, ao racismo e aos preconceitos direcionados à população de terreiro, a Caminhada foi o instrumento político encontrado pelos religiosos para darem visibilidade a seus problemas.

Em sua primeira edição, a Caminhada foi um pouco tímida, o cortejo não era pelas ruas centrais de Recife, mas nos arredores do Memorial Águas de Iemanjá. E o nome da Caminhada era outro, Primeira Caminhada Contra Descriminação Religiosa e Racial. Nos anos posteriores a Caminhada é levada para o centro de Recife, congregando uma multidão de religiosos, como em 2011, quando cerca de 20.000 pessoas participaram, segundo as estimativas da Polícia Militar.

Do exposto, os casos do Kipupa Malunguinho e da Caminhada dos Terreiros foram elucidativos para a compreensão sobre o processo de visibilidade da Jurema, e, ainda, da religião como fomentadora de argumentos para o debate e participação na esfera pública. Pois, ambos os eventos pautam discussões sobre a intolerância religiosa e o resgaste e legitimidade de tipos religiosos discriminados. Em outras palavras, os discursos proferidos no Kipupa e na Caminhada constituem uma linguagem enfaticamente política, em que argumentos ligados ao conceito de Estado Democrático de Direito são utilizados ao se exigir o reconhecimento da liberdade religiosa, promulgada pela Constituição Federal de 1988.

Referências Bibliográficas

BRASIL, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Alimento: Direito Sagrado – Pesquisa Socioeconômica e Cultural de Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiros. Brasília, DF: MDS; Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação, 2011.

CARVALHO, Marcus Joaquim M. de. Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo no Recife, 1822-1850. Recife: Ed. Universitária UFPE, 2010.

Notas

[1] Tese de Doutorado defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco. Disponível em:

<https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/12063/1/TESE%20Michelle%20Gon%C3%A7alves%20Rodrigues.pdf>. Acesso em 03/06/2019.

[2] Financiada pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e com a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR).

[3] O termo quimbundo Kipupa significa agregação de pessoas. Logo, o Kipupa Malunguinho significa agregação de pessoas em volta da figura de Malunguinho.

[4] O nome Malunguinho, como empregado na forma diminutiva, é uma derivação do termo malungo de origem banto e que significa companheiro. Esse nome era dado por todos aqueles que escreveram documentos sobre o Quilombo do Catucá, porém apenas o mais famoso dos líderes fosse conhecido como negro Malunguinho (CARVALHO, 2010). Como uma liderança negra, Malunguinho passa a uma das entidades cultuadas pela religiosidade da Jurema, sendo considerada a principal por alguns dos religiosos.