A subalternidade da Jurema nos meios de comunicação: A mídia contribuindo nos crimes de racismo religioso

A subalternidade da Jurema nos meios de comunicação: A mídia contribuindo nos crimes de racismo religioso
29 de junho de 2019 Henrique Falcão Nunes de Lima

A subalternidade da Jurema nos meios de comunicação: A mídia contribuindo nos crimes de racismo religioso

Henrique Falcão Nunes de Lima

Foto: Beto Figueiroa

O que aconteceria caso os meios de comunicação difundissem dados e ideias que contribuíssem para o desejo de genocídio e epistemicídio dos corpos e das ideias dados como subalternos? Este texto tem o intuito de expor como os meios de comunicação, desde suas primícias até a grande mídia, influenciaram na imagem negativa dos terreiros, com ênfase naqueles que praticavam a Jurema Sagrada (também chamada de Catimbó), taxados preconceituosamente como espaço de cultos pecaminosos e tendo seus praticantes como indivíduos maléficos e inconfiáveis, auxiliando na construção da imagem simbólica do mal.

Desde o uso de cartas, expansão dos jornais impressos até as televisões mais próximas da atualidade, os meios de comunicação auxiliaram (e auxiliam) na construção de uma imagem negativa do espaço ao culto de religiosidades afroindígenas e por conseguinte de seus praticantes (juremeiros e juremeiras), sendo esses continuamente relacionados a estigmas negativos, diabólicos e demais sinônimos maléficos. Criaram a concepção simbólica do “vilão”, favorecendo a subalternidade desses povos que como consequência vivem até a contemporaneidade com uma autoestima abalada por contínua intolerância religiosa.

Através de uma construção proposital, historicamente imposta nos diversos povos ancestrais não cristãos que já habitavam o Brasil antes da chegada dos colonizadores, até os escravizados dos variados territórios do continente africano[1], o modelo cristão sucedeu um padrão de vida universalista, baseado sempre na perspectiva ocidental (isto é, eurocêntrica), negligenciando demais epistemologias remanescentes dos considerados subordinados, ou seja, indígenas e negros. Nesse contexto que a santa inquisição ainda estava no imaginário coletivo, as práticas de “Catimbó” não eram só ilegais, mas abomináveis para a hegemonia. Assumir uma identidade religiosa diferente era uma maneira de vida que coabitava com a resistência no ato de existir.

Com a chegada da colonização no Brasil o cristianismo foi implantado forçadamente como religião oficial desse grande território, contudo, os cultos indígenas já se faziam presentes a séculos. No Nordeste a devoção à Jurema Sagrada se apresentava com bastante força. As invocações espirituais através do Catimbó eram tão assíduas a ponto de incomodar os colonizadores, que consideravam aquelas práticas satânicas. Nesta situação, ocorreu o que considero um dos primeiros usos dos meios de comunicação[2] com o objetivo de reprimir uma religiosidade nativa. Alexandre L’Omi L’Odò, na sua dissertação de mestrado (2017), expôs através da paleografia o primeiro registro histórico completo mandando reprimir a Jurema no Brasil, mediante uma carta do governador de Pernambuco Henrique Luís Pereira Freire de Andrade até o Rei Dom. João V, pois o “reverendíssimo bispo”, como assim citado, aclamava o uso do enteógeno como um caso grave de feitiçaria.

Ao longo de toda fase colonial a repressão sob as práticas religiosas afroindígenas foram corriqueiras. No fim desse período as pesquisas acadêmicas sobre cultos e crenças unicamente afrocentradas foram crescentes com os clássicos das ciências sociais brasileiras[3]. Mesmo emitindo a teoria evolucionista da época sob os negros, os indígenas nordestinos e o culto da Jurema foram quase totalmente negligenciados, acarretando numa hierarquia dento das próprias religiões subalternas, ou seja: o culto de Orixás/Voduns viriam em destaque, fazendo-se até sinônimo de ascendência real (príncipes e princesas), pureza nagô; enquanto a Jurema viria como o lado B, o secundário da baixa magia, invocando “espíritos”, não divindades e em áreas ainda mais desvalidas que os barracões e roças de Candomblé.

Com isso, as notícias dos jornais das primeiras décadas de república frequentemente noticiavam em maior quantidade invasões, quebras e prisões contra sacerdotes catimbozeiros, muitos até mesmo denunciados por Babalorixás, que concordavam que a condição de status da Jurema era inferior à do Candomblé, o chamado “nagôcentrismo” instigou a desigualdade entre uma tradição e outra, e em consequência como a mídia evidenciava suas narrativas sobre essas religiões dissidentes.

Com o Estado Novo varguista implantado em 1937 através do golpe ditatorial, foi proibido por lei qualquer manifestação do que era chamado de “baixo espiritismo”. Em Pernambuco, sob domínio do governador Agamenon Magalhães, as repressões foram contínuas e a criação do Serviço de Higiene Mental da Assistência a Psicopatas contribuía para efetivar prisões e internações de pessoas consideradas “feiticeiras” e/ou “charlatões”. Zuleica Dantas Pereira Campos no seu artigo A Polícia no Estado Novo Combatendo o Catimbó (2009) descreve como foi propositalmente planejado a imprensa expor as normas sociais religiosas. Os jornais[4] eram as principais fontes de informação para divulgar a intimidação do Estado perante os terreiros de Catimbó.

Desdobrei transcrições de manchetes e matérias que eram publicadas nos jornais da década de 1930, principalmente a partir de batidas policiais, que trago como locus de destaque na minha composição textual. Tomei como base principal o livro Xangôs do Nordeste (1937) de Gonçalves Fernandes além do artigo da professora Campos.

Perceber que os jornais evidenciavam que os indivíduos reprimidos “se manifestavam” foi bastante visto durante as leituras, o que deu alicerce para afirmar que os praticantes da Jurema foram possivelmente mais penalizados que os de Candomblé[5], pois foi mais costumeiro encontrar a exposição de sujeitos que, segundo os jornais, se manifestavam com caboclos (como visto em Xangôs do Nordeste logo no início do capítulo intitulado “Baixo Espiritismo”, p. 129) do que aqueles que mantinham mais vínculos com os Orixás. Além disso, analisando os objetos apreendidos eram citados utensílios comuns as mesas e quartos de Jurema até os dias de hoje, como a apreensão dos cachimbos.

Nos desdobramentos dessa pesquisa foi perceptível compreender que a chamada “quebra dos Xangôs” que deu corpo a tantos trabalhos acadêmicos, não foi só uma quebra de Xangôs, mas também (e até com mais ênfase) uma quebra aos terreiros de Catimbó, ou “guerra aos catimbozeiros”. Enquadrar tudo como “Xangô” remete a secundarização que a Jurema foi concebida. Notabilizar os catimbozeiros apagados é indispensável para reinterpretarmos o que de fato ocorreu, pois se já comentam pouco sobre esse período, ainda discorrem com equívocos e omissões.

Na metade do século XX a televisão é implantada no Brasil, um novo meio mais moderno e completo é introduzido, estreia então o audiovisual no país. Esse meio não ficou de fora na perpetuação da intolerância religiosa. Programas sensacionalistas tomavam como estratégia de audiência a mostra de matérias que relacionavam tragédias ou casos chocantes com práticas religiosas afroindígenas, conservando o estigma do “baixo espiritismo” tão difundido perante os âmbitos da Jurema.

Acentuo um estudo de caso que foi a ocorrência do estupro seguido de assassinato do menino Flânio da Silva (9 anos) no Brejo da Madre de Deus (agreste pernambucano) no ano de 2012. Segundo as noticias difundidas nos jornais televisivos e online, o garoto fora sacrificado num ritual macabro de magia negra, pois próximo ao corpo, encontraram artefatos como: velas, garrafas de cachaça e alguidares (objetos que estavam naquela localidade há anos, portanto evidentemente velhos, e relacionadas as práticas de terreiro); parte dos responsáveis do crime foram colocados como sacerdotes, tendo suas identidades divulgadas na mídia com a palavra “pai” antes dos nomes, indicando o cargo supremo dentro de um terreiro.

A divulgação irresponsável do caso findou na revolta popular dos moradores locais, os próprios policiais que tentaram conter os ânimos foram apedrejados. Houveram depredações nas casas dos criminosos envolvidos e além disso a destruição de oito terreiros da cidade que não tinham nenhuma relação com os participantes do crime, mas lamentavelmente receberam as consequências após a parcialidade midiática nesse acontecimento trágico, que proferiu o sacrifício humano como prática nativa dos terreiros, apontada como “magia negra”. Os verdadeiros sacerdotes e sacerdotisas foram hostilizados e afugentados da cidade. O Quilombo Cultural Malunguinho, instituição pernambucana de luta pelo direito do Povo de Terreiro, realizou um grande seminário no ano de 2012, no palácio de Iemanjá em Olinda, convocando toda mídia para o debate, no intuito de combater estes crimes de racismo religioso na mídia. A ação gerou frutos, e após a intervenção dos terreiros nesse debate, as editorias de jornais e de programas sensacionalistas de TV, começaram a tratar de forma respeitosa os assuntos ligados às religiões de matrizes africanas e indígenas. O Estado pernambucano, até hoje não reparou os danos morais e sociais que os terreiros sofreram decorrente à este caso, seguindo até hoje omisso ao terror vivido por todo povo de terreiro.

Concluindo, é importante enfatizar como os canais televisivos dirigidos por seguimentos de igrejas evangélicas, principalmente os neopentecostais, perduram nas suas programações imagens que induzem a intolerância religiosa. A Rede Record de Televisão que tem como proprietário o Bispo Edir Macedo, o mesmo responsável pela IURD – Igreja Universal do Reino de Deus, mantém na programação cultos com a presença de “exorcismos”, cujo “endemoniados” afirmam estar incorporados com entidades cultuadas em terreiros de Catimbó/Umbanda/Candomblé.[6] Essas imagens divulgadas na TV aberta educam uma gama de telespectadores que consomem esses conteúdos como verdades e procriam discriminação a partir da fé. Uma mídia laica e que respeite a diversidade religiosa é necessária para prosseguirmos democraticamente. Os meios de comunicação no Brasil, ainda precisam de muito processo educativo contra o racismo e intolerância religiosa, cabendo aos órgãos de justiça, como o Ministério Público, insistir em reprimir os atos ainda vistos nos meios de comunicação. Enquanto os catimbozeiros/juremeiros, candomblecistas e umbandistas não ocuparem os meios de comunicação, a mídia não representará nunca a face de nosso povo, com suas fés e formas tradicionais de vida.

Notas

[1] Sejam Bantus, antigos Daomeanos ou Yorubanos.

[2] É importante frisar a diferença entre “comunicação”, que seria tudo que envolve a ação humana com os demais indivíduos, permitindo socialização desde a pré-história, de “meios de comunicação”. Saliento essa nota de rodapé para distinguir a tradição oral indígena (comunicação) das cartas entre o governador e o rei português (meio de comunicação). Tomo como base o teórico da sociologia da comunicação Juan Bordenave.

[3] Com ênfase no autor Raimundo Nina Rodrigues.

[4] Segundo Campos (2009, p. 310), um jornal que atuava excessivamente nesse tema era o “Folha da Manhã”, de propriedade do próprio Agamenon Magalhães e que agia de forma intencionalmente catequista. Qualquer ação policial era relata nesse jornal, o que ficou conhecido como “guerra aos catimbozeiros”.

[5] Também chamado de Xangô Pernambucano.

[6] Como analisado no artigo Negócios, Poder e Fé (2012) de Ronaldo de Almeida.