Descolonizar o Brasil: por uma epistemologia da ciência (en)cantada da Jurema

Descolonizar o Brasil: por uma epistemologia da ciência (en)cantada da Jurema
29 de junho de 2019 João Paulo de Lorena Silva

Descolonizar o Brasil: por uma epistemologia da ciência (en)cantada da Jurema

 João Paulo de Lorena Silva

Foto de Junior Nascimento – Varal Cultural

Mestras e Mestres de outro-mundo, caboclos, boiadeiros, pretas e pretos velhos, exus e pombagiras, malandros e marinheiros, crianças e orixás baixam nas bandas de cá. Os santos que por aqui circulam praticam o cruzo, encantam a vida com seus versos e toadas, vadeiam nos sambas de roda, bebem cerveja e correm atrás de doce, brincam e riem enquanto dançam nos corpos dos catimbozeiros e juremeiros. Há nesses santos um certo devir-mundo, que nos possibilita pensar/praticar possibilidades imanentes de vida, encarnadas no chão vivo do Brasil, descolonizadas de um modo de conceber o Sagrado que privilegia o espírito em detrimento das potências do corpo. Nesse sentido, para abrir a gira deste texto, interrogo: o que pode nos ensinar a ciência encantada da Jurema? Podem os saberes produzidos por essa tradição cultural/religiosa abrir caminhos capazes de descolonizar a aldeia que chamamos de Brasil?

De acordo com Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino, na obra “Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas”, o culto da Jurema, também chamado de Catimbó, compreende “um conjunto de atividades místicas que envolvem desde a pajelança indígena até elementos do catolicismo popular, com origem no Nordeste”. Tais atividades se propõem a curar os doentes, auxiliar as pessoas nos problemas práticos do cotidiano, oferecer consolo aos que sofrem, defender os pobres, assistir os excluídos socialmente e celebrar a vida na simplicidade dos encontros tecidos por entre as pedrinhas miudinhas da existência humana. Jurema, que hoje dá nome ao culto, é uma árvore que floresce no agreste e na caatinga nordestina. É da casca de seu tronco e de suas raízes que se faz uma bebida mágico-sagrada capaz de, por um lado, alimentar e fortalecer os encantados do outro-mundo e, por outro lado, permitir aos seres humanos um contato com as mestras e mestres dos reinos místicos do Juremá[1], por meio do transe de possessão.

Para os juremeiros, Alhandra, no litoral sul da Paraíba, é a cidade que representa os reinos do Juremá na terra, pois lá teriam sido anunciados os poderes dos mestres. Roger Bastide, em seu livro “Sociologia do folclore brasileiro”, explica que o Catimbó era, em tempos remotos, uma festa de colheita e de preparação da Jurema entre os povos indígenas, “mas tornou-se pouco a pouco um culto destinado a fazer descer os espíritos das florestas, dos rios e das montanhas, os encantados, nos corpos dos catimbozeiros, para que respondessem às consultas dos infelizes e dos doentes”. Esse culto, ao longo dos últimos séculos, disseminou-se no litoral, zona da mata, agreste e sertão do Nordeste, assimilando elementos de religiões de matriz africana – como o Xangô de Recife –, do catolicismo popular e, mais recentemente, de algumas linhas da Umbanda (ASSUNÇÃO, 2010). Trata-se de um culto que resistiu e resiste ao projeto colonial de matriz eurocêntrica, branca e cristã, ajuremando a vida com a esperteza dos caboclos-caçadores, (en)cantando as folhas para se livrar do assombro do desencanto, praticando a poética das matas, rios e mares para fazer da política um território de possibilidades.

A Jurema é ciência, assim dizem os mestres e praticantes dessa sabedoria popular. Contudo, não se trata de uma ciência como a produzida pela modernidade ocidental, que opera com a instituição de uma narrativa única e exclusivista sobre o mundo das coisas. Os saberes engendrados pela ciência da Jurema são saberes encantados, nascidos nas frestas das encruzilhadas, sincopados na ginga dos catimbozeiros, cuspidos no chão para dobrar a morte, cantados e ritualizados de modo a embelezar a vida. Nessa perspectiva, como nos ensinam Simas e Rufino, “o encantamento é elemento e prática indispensável nas produções de conhecimentos”. Isso porque é “a partir do encante que os saberes se dinamizam e pegam carona nas asas do vento, encruzando caminhos, atando versos, desenhando gestos, soprando sons, assentando chãos e encarnando corpos”. Desse modo, aprendemos com os juremeiros que uma outra epistemologia é possível. Uma forma de pensar/praticar o mundo não dicotômica, onde o humano e o divino se entrelaçam no vento, no banho do rio, na comida que partilham, na bebida sagrada, na dança e na memória dos ancestrais que se inscreve no corpo em transe.

No Brasil, aldeia ancestral que desde a chegada dos colonizadores europeus sofre os efeitos do desencantamento e da morte, celebrar a Jurema é continuar a luta dos nossos antepassados indígenas e africanos que regaram este chão com suor e sangue. É descolonizar os nossos corpos da catequese cristã que imprimiu sobre o prazer e a alegria a decadência do pecado e a sujeição a uma forma de transcendência desencarnada da natureza. Nesse Brasil, conforme defendem Simas e Rufino, “a rua e o mercado são caminhos formativos onde se tecem aprendizagens nas múltiplas formas de trocas”; a “mata é morada, por lá vivem ancestrais encarnados em mangueiras, cipós e gameleiras”; nos “olhos d’água repousam jovens moças; nas conchas e grãos de areia vadeiam meninos levados”; as “curas se dão por baforadas de fumaça pitadas nos cachimbos” da Jurema, “por benzeduras com raminhos de arruda e rezas grifadas na semântica dos rosários”; as encruzilhadas e suas esquinas tornam-se “campos de possibilidade, lá a gargalhada debocha e reinventa a vida, o passo enviesado é a astúcia do corpo que dribla a vigilância do pecado”. Trata-se de um projeto de país que não se rende à ideia colonial de uma humanidade desvinculada da natureza. Uma humanidade que não aprendeu a reconhecer que o rio que está em coma é também o nosso pai, avô e ancestral. Que a mata derrubada é também a nossa mãe e avó.

A epistemologia (en)cantada da Jurema, entrelaçada aos saberes produzidos pelas tradições da Umbanda, do Candomblé, do Batuque, do Xangô de Recife, do Tambor de Mina, das Encantarias, do catolicismo popular, das teologias da libertação e de todas as manifestações religiosas que, em um movimento minoritário, se propõem a abraçar e defender os povos da mata, os excluídos da história, os subalternizados e a mãe natureza, tem muito a nos ensinar. Como explica o filósofo e historiador indígena Ailton Krenak, em “Ideias para adiar o fim do mundo”, o “nosso tempo é especialista em produzir ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar e de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta e faz chover […]”. Os juremeiros são parte dessas pequenas constelações, capazes de criar um Brasil e um mundo outro.

 

Referências

 ASSUNÇÃO, Luiz. O reino dos mestres: a tradição da jurema na umbanda nordestina. Rio de Janeiro, Pallas, 2010.

BASTIDE, Roger. Sociologia do folclore brasileiro. São Paulo: Anhembi, 1959.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mórula, 2018.

Notas

[1] A palavra Juremá, escrita com o acento agudo, diz respeito aos reinos, aldeias e cidades encantadas da Jurema Sagrada. Lá vivem as/os mestras/es e caboclos, espíritos de indígenas que, em vida, desenvolveram habilidades no uso de ervas curativas.