Os planos encantados da Jurema: as cidades e reinos em uma breve análise antropológica

Os planos encantados da Jurema: as cidades e reinos em uma breve análise antropológica
28 de junho de 2019 Luís Felipe Cardoso Mont’mor

Os planos encantados da Jurema: as cidades e reinos em uma breve análise antropológica

Por Luís Felipe Cardoso Mont’mor

Foto de Laila Santana

Podemos entender a Jurema enquanto uma religião híbrida, suas origens estão entre os indígenas do nordeste, sua transformação acontece com a invasão dos europeus, a diáspora africana e a entrada do Kardecismo em terras brasileiras. Um dos principais elementos da Jurema, enquanto religião, é a devoção à árvore de mesmo nome, que tem propriedades mágico-curativas e também é uma planta encantadora, ou seja, ela funciona como um portal entre o mundo dos vivos e dos mortos, estes últimos são os Mestres que se encontram em outro espaço da realidade do pós vida.

Simas e Rufino, em sua obra Fogo no Mato: A ciência encantada das macumbas, 2018, afirmam que: “A condição de encanto é a da experiência enquanto existência, superando assim as noções fechadas de vida e morte. A supravivência não é a vida nem a morte”. Então ser encantado é uma experiência singular que transcende a morte e reessignifica a vida; tanto é que a Jurema trata plantas como se fossem Mestres, que têm um ensinamento para dar, por exemplo, o Mestre Aroeira, que é ao mesmo tempo uma árvore que tem potência curadora e a Cabocla Jurema, que recebe o mesmo nome da árvore homônima à religião.

A Jurema também recebe o nome de Catimbó, sendo esta uma nomenclatura mais antiga, que pode significar cachimbo, mato venenoso ou feitiço. O cachimbo constitui um objeto de grande importância para os encantados do Catimbó-jurema, sejam eles Mestres ou Caboclos, esses últimos que geralmente são espíritos encantados dos povos indígenas que viveram no nordeste.

Os principais centros difusores desta religião são os estados da Paraíba e Pernambuco, sendo que Rio Grande do Norte e Ceará também constituem estados com forte presença deste culto. Os lugares antigos onde os juremeiros habitaram e que são conhecidos pelos juremeiros modernos se tornam lugares encantados, que servem de portal de comunicação entre os planos material e encantado. São esses locais o sítio do Acais, em Alhandra e a mata do Catucá, em Abreu e Lima, Paraíba e Pernambuco respectivamente. Esses locais são conhecidos como cidades encantadas, locais esses materializados por sua historicidade e presença física no mundo empírico. Lá juremeiros fizeram catimbó e giras foram feitas, a terra fora encantada através do rito.

Na Jurema existem ainda objetos encantados, como taças com água, que representam príncipes e princesas, a praia de Tambaba, no litoral sul da Paraíba também é um local encantado onde diz a narrativa que para lá vão as almas dos Mestres que morrem, lá eles se encantam e depois de sete anos podem se comunicar com os vivos.

Dito isso, temos que eventos e festividades são realizadas com frequência por juremeiros que viajam de suas cidades em busca da ciência da jurema, ou seja, o aprendizado e a sabedoria presente neste sistema religioso. Grandes personagens da Jurema são Malunguinho, que era quilombola que atuavam nas matas de Pernambuco, no Catucá; Zé Pilintra, que andou, segundo contam na Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Rio de Janeiro; assim como os diversos Caboclos, que são de etnias indígenas presentes em vários locais do nordeste, como os Canindé e Tapuias.

Os personagens do Catimbó-jurema, nomenclatura identirária que funde a antiguidade e a contemporaneidade, foram feiticeiros durante a vida material, malandros, capoeiristas, brincantes da cultura popular, podemos supor, e também bravos guerreiros e militantes que lutaram contra as injustiças sociais. Como passaram para os reinos da Jurema, este é um mistério. Para que um Juremeiro se torne um encantado é necessário o ritual do tombamento, onde se toma o chá da árvore e, em alguns casos, se insere a semente dentro do corpo, de forma mágica ou não, quando sua pele é cortada e uma semente inserida. Existem documentos que provam que no período colonial os indígenas bebiam uma porção feita da Jurema, que fazia com que eles tivessem acesso ao mundo encantado. Atualmente o Catimbó-jurema não utiliza esta bebida dos primeiros habitantes do Brasil. O efeito de transe pós ingestão da bebida que atualmente é feita, depende do indivíduo e a mesma é produzida de forma diferente por um Mestre, de terreiro a terreiro, se utilizando de sua ciência. Geralmente esta bebida feita no Catimbó-jurema atual envolve o álcool.

Os rituais do Catimbó-jurema podem ser feitos com Tambores, e esses ritos são geralmente chamados de Toré ou apenas com os Maracás, quando se faz o ritual de mesa e a Jurema de chão, onde todos sentam em banquinhos ou diretamente no chão. Nas mesas e Jurema de chão geralmente os Mestres trabalham mais do que “brincam”, como acontece nos torés ou juremas batidas (com tambor).

Quando falamos de encantaria, não podemos deixar de comparar o Catimbó-jurema com as encantarias do Maranhão, por exemplo, com o Terecô e a Pajelança. Nessas tradições, o conceito de encantaria possui uma eficácia e importância significativa se compararmos com o Catimbó-jurema. Lá também existem falanges de reis, príncipes e princesas turcas, que, por algum motivo vieram parar no Brasil, além dos Caboclos indígenas já conhecidos pelo Catimbó-jurema. Cada um com sua linha, ou seja, seu espaço delimitado de trabalho e habilidades mágicas.

O encante é um lugar paralelo ao mundo que conhecemos cotidianamente e pode estar presente em rochas, furnas, como entre os Tabajara contemporâneos da Praíba, rios, árvores e locais da mata e até nas profundezas terrestres. Animais também podem ser encantados. A letra desta toada, que são as cantigas de invocação, expressam bem este elemento do encante: No fundo do mar tem uma pedra; debaixo da pedra tem ciência, quem tiver perturbado neste mundo, peça a Deus pra lhe dar a paciência”.

Podemos dividir a encantaria do Catimbó-jurema em três planos: 1. O plano astral-mítico-encantado, que são locais não localizáveis no mundo material; 2. O plano simbólico, que é representado pelas toadas, pela literatura e pelos objetos e 3. O plano físico, que são locais fora do terreiro e presentes na natureza tidos como encantados. Esses planos não estão isolados, mas possuem íntima relação e os diversos juremeiros entrevistados em pesquisa têm uma inclinação maior ou menor para um dos planos especificamente.

O Catimbó-jurema possui um segredo, encanta a realidade nordestina, preserva tradições populares, como o coco de roda e os personagens históricos; nos apresenta uma nova possibilidade de ver o Brasil, país multicultural por excelência; a refletir o mundo pós-colonial e reconstruir a história dos povos excluídos.