O juremeiro e sua ciência: observações sobre a Jurema Sagrada em Alhandra (PB)

O juremeiro e sua ciência: observações sobre a Jurema Sagrada em Alhandra (PB)
28 de junho de 2019 Francisco Sales de Lima Segundo

O juremeiro e sua ciência: observações sobre a Jurema Sagrada em Alhandra (PB)

Francisco Sales de Lima Segundo 

Fotos de Laila Santana

A Jurema Sagrada é uma prática espiritual largamente difundida na zona da mata da Paraíba e Pernambuco, mas que tem em Alhandra (PB) uma referência fundamental. Mas antes de seguirmos em frente, é importante dizer que a jurema é uma árvore dos “gêneros Mimosa, Acácia e Pithecelobium” (SANGIRARD JR., 1983, p. 191), encontrada com bastante abundância no semiárido nordestino, e que, antes mesmo da colonização, era cultuada como um elemento sagrado por diversas etnias indígenas da região, por conta de suas propriedades psicoativas.

Este pequeno município de litoral sul da Paraíba está situada a cerca de 40km da capital, João Pessoa. A cidade foi fundada a partir da instauração do aldeamento de Arataguy, no final do século XVI, logo após a consolidação da conquista da Paraíba, que repercutiu com a fundação da cidade de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), em 1585. Mas como essa religiosidade vem a ser polarizada no litoral da Paraíba, ainda não está bem claro para os estudiosos do tema.

O que se sabe é que este agrupamento indígena criou um ambiente propício para interação de diversas etnias distintas, que, mesmo rivais entre si, passaram a unir-se e a vivenciar um novo fluxo cultural. Dialogando, primeiramente, com elementos do catolicismo popular, na Jurema faz-se presente o uso dos santos e rezas católicas, assim como as manipulações da santíssima trindade para fins mágicos, reconfigurando alguns dos cultos indígenas com a incorporação de signos e narrativas católicas. Nesse sentido, a Santidade, ainda no século XVI, foi a primeira manifestação que evidenciou esse intercâmbio cultural, em que o xamanismo indígena incorpora a devoção aos santos católicos, em que “o índio, ‘mesmo católico’ não deixou de acreditar em seus deuses, de cultuar os espíritos da floresta ou de reverenciar seus ancestrais” (SILVA, 2005, p. 26).  Segundo Cascudo, durante esse século, colonos e mestiços confiavam “nas práticas indígenas dos pajés, indo às reuniões escondidas, bebendo fumo, aceitando as soluções terapêuticas dos nativos, como sopro, defumatório e sucção, para alívio dos males” (1978, p. 192). A influência negra também se faz presente, com as nações banto vinda de Angola, que também veneravam seus mortos e eram    responsáveis por cultos vegetalistas, que prontamente interagiram com as práticas indígenas.

Sendo assim, é o catimbó do litoral sul da Paraíba que consegue sintetizar parte destas práticas culturais. Herança de todo o universo mítico e da tradição de conhecimento da Jurema Sagrada, o “catimbó é o melhor, e o mais nítido dos exemplos desses processos de convergência afro-branco-ameríndia. As três águas descem para a vertente comum, reconhecíveis, mas inseparáveis, em sua corrida para o mar” (CASCUDO, 1978, p. 21). Aqui, o catimbó poderia ter duas definições possíveis, ainda segundo Cascudo: a primeira de que seria sinônimo de “mandiga, feitiçaria, sortilégio, casa de feitiços, sessão ou prática de feitiçarias”. Já a segunda é o mesmo que “cachimbo cumprido e fumarento” (idem, p. 31), fazendo referência à fumaça exalada nos rituais catimbozeiros, responsável por fazer limpezas energéticas. Assim, a construção do imaginário do juremeiro, como uma pessoa associada a algo maligno, diretamente ligado à prática da feitiçaria, ou, mais especificamente, do catimbó, tem repercutido desde a colonização. Por conta disso, a Jurema e os adeptos do catimbó foram historicamente perseguidos tantos pelos colonizadores portugueses, por meio da inquisidora Igreja Católica, que a atribuiu aspectos “demoníacos”, pela polícia já no século XX, visto que a sua prática pública era proibida pela legislação, e, atualmente por setores evangélicos neopentecostais.

E atualmente, ainda que a Jurema esteja associada a outras religiosidades, principalmente a Umbanda, é importante também compreendermos que ela também se faz autônoma. Isso porque a Jurema guarda uma multiplicidade de significados que a transcende, podendo ser entendida como: um “plano espiritual”, ou a falange da Jurema; uma índia metafísica; a própria bebida feita de partes da planta – o vinho da Jurema; o lugar de culto e oração – a mesa da Jurema; ou as Cidades da Jurema, um lugar invisível, mas que tem suas representações também manifestadas no espaço, a partir da consagração rituais de árvores de jurema.

Os rituais do antigo catimbó alhandrense consistiam, fundamentalmente, na evocação das entidades dos mestres juremeiros que se comunicam com os participantes dos trabalhos espirituais, e são eles que possuem certa centralidade dentro do culto. Para Vandezande (1975), “os ‘mestres’ ou ‘mestras’ são pessoas que viveram outrora, na maioria em Alhandra, que tiveram atividade mediúnica, geralmente junto aos pés de Jurema que guarda sempre o nome deles” (p. 166). O culto a árvore também é um elemento basilar na cosmologia juremeira, e que nos é apresentada aqui como um lugar transcendental: as Cidades da Jurema. Nelas, está um canal de comunicação com os mestres, que detém o saber da ciência da Jurema.

A ciência da Jurema é um conceito central deste conhecimento que sintetiza e organiza todo um campo semântico dos fundamentos basilares da sua cosmologia, onde habitam seus mitos, segredos e mistérios, e só tem acesso quem detém a experiência desse saber, os cientistas da Jurema, seja para a utilização dos seus preceitos mágicos, na aplicação de plantas para a cura de enfermidades, ou mesmo na solução das angústias íntimas dos sujeitos que procuram a intervenção espiritual dos mestres juremeiros. E dentro do campo juremeiro, ter ciência no plano material, na manipulação das ervas e das práticas mágicas, implica, necessariamente, em ter acesso aos segredos do mundo espiritual onde habitam os ensinamentos acumulados por inúmeros espíritos dos mestres juremeiros, que acumularam ali todo o saber dessa relação com o invisível, e que está por trás de uma natureza transcendente.

E essa experiência vivenciada cotidianamente não é algo somente adquirido com o tempo. Esse potencial, segundo os juremeiros alhandrenses, também é um “dom que vem de nascença”, e que vem a ser reconhecido pelos sujeitos mais velhos. Diante disso, são muito comuns em Alhandra narrativas sobre problemas psicológicos em crianças, como depressão ou comportamentos agressivos, por exemplo, e que acontecem quando ocorrem os primeiros sintomas da mediunidade, geralmente por volta dos 10 anos de idade. Isso requer a intervenção de um juremeiro experiente, no sentido tanto de instruir aquela entidade que está causando desordem na criança, como também de orientar os pais quanto às recomendações necessárias para o seu devido desenvolvimento espiritual. E com um pouco mais de idade, elas já começam a receber entidades. E, em alguns casos, já passam a realizar consultas desde de criança, entre outras atividades mediúnicas. Assim, o conhecimento do juremeiro não é necessariamente adquirido, mas vem com ele desde o seu nascimento, em que já desponta com a informação do tipo de trabalho que ele poderá realizar.

Nascer com o dom de ter poderes mediúnicos é algo que marca, de maneira inequívoca, as aptidões mágicas destes cientistas e o saber que o permeia, e que vai refinando-se com o passar dos anos e com a experiência acumulada. São eles que trabalham na ciência, operando todo um repertório de práticas mágicas, e que fazem uma leitura diferenciada dos saberes do mundo espiritual para as pessoas que os procuram para solucionar todo tipo de problema. Trabalhar na ciência é uma metáfora corriqueira na região, para dizer que determinado juremeiro experiente, e que detém notório saber dentro do culto, tem poder de cura através das plantas e de outros preceitos mágicos, força essa sempre atribuída aos mestres encantados, mediados pela ação mediúnica dos cientistas, que é largamente difundido em Alhandra e região. O valor é conferido, geralmente, com o reconhecimento de uma vida dedicada a esse ofício, o que não exclui a atividade de pessoas mais jovens, desde que tenham seus dotes mediúnicos identificados pelos mais velhos e passem a se dedicar a esse trabalho espiritual. Portanto, trabalhar na ciência é manejar a força espiritual de cura em sua máxima potência, e que traz um entendimento mais amplo do mundo invisível.

Em relação às curas do corpo físico, numa época em que o atendimento médico, feito pelo povo de bata branca para a população fora dos centros urbanos, era muito precário, uma das formas de tratamento era exatamente contar com receitas de ervas e banhos, além da fumaça exalada pelos cachimbos dos mestres, para o tratamento das mais diversas enfermidades. Para Cascudo, “o mestre curador, para o povo, é o depositário de segredos seculares que os doutores ignoram e odeiam justamente por tanta ‘inveja’ a tanta sabedoria desinteressada” (1978, p. 190). Esse tipo de atividade espiritual tem um forte apelo popular em toda a região, até mesmo por pessoas não ligadas ao culto, que, em certa medida, legitimam estas práticas.

Trabalhar na ciência é um trabalho espiritual que requer muito refino, e os juremeiros alhandrenses fazem uma distinção interessante: entre quem “trabalha manifestado” e quem “trabalha com o pensamento”. No primeiro caso, temos aqui uma atividade espiritual voltada para a incorporação mediúnica, em que os médiuns “recebem” suas entidades e são os espíritos que operam as curas mediadas por eles. Já no segundo, temos um trabalho em torno da concentração, no qual o cientista recebe o sujeito em um espaço reservado, geralmente a mesa onde realiza suas consultas. Lá ele escuta seus problemas, medita sobre ele, e, com isso, encontra uma possível solução. E cada cientista tem a sua ciência, trabalha especificamente nela, e não chega a compartilhá-la com outras pessoas. Também não há apenas um tipo específico de trabalho, que se identifique como de ciência, especificamente. Seu Inácio Gabriel (conhecido cientista de Alhandra, que chegou a ser prefeito da cidade, e faleceu em 2009), por exemplo, costumava receitar remédios alopáticos em suas consultas. Também os rezadores e rezadoras, que são profundos conhecedores da espiritualidade, também têm sua atividade associada ao trabalho de ciência no campo juremeiro de Alhandra.

E todo o conhecimento desse campo espiritual vem dos mestres, “donos dos ‘bons saberes’” (CASCUDO, 1978, p. 165), que são os verdadeiros detentores da ciência da Jurema, e é neles que está todo o repositório de ensinamentos que são passados aos juremeiros e aos cientistas, seja nos transes mediúnicos, ou por meio da intuição. São eles que navegam nos mistérios do invisível, e que trazem as mensagens do “mundo do além” para os adeptos encarnados na Terra.

Trabalhar com essas energias sutis requer muito cuidado por parte dos cientistas, e fazer trabalhos com finalidades maléficas, valendo-se da ciência não é bem visto por eles. Geralmente, pauta-se a aplicação desses conhecimentos apenas para as curas de enfermidades físicas, para problemas psicológicos, ou mesmo trabalhos que não visem prejudicar ninguém. Dessa forma, o trabalho de ciência não pode ser usado de maneira irresponsável, e nem mesmo em troca de benesses materiais. Levar a cabo este projeto para a Jurema não é tarefa fácil. Requer muita abdicação, e resistir às constantes requisições por trabalhos das esquerda[1], que costumam envolver certa quantia em dinheiro pelo serviço prestado. A fé no aspecto benéfico da Jurema é algo de grande afeição por parte dos cientistas, cujo trabalho para caridade representa uma retribuição ao “dom dado por Deus”, de uma incumbência em que não cabe qualquer retribuição monetária.

Mas, com a entrada na Umbanda no município, a partir de meados da década de 1960[2], surgem formas rituais mais elaboradas, e percebe-se neles um discurso em que sentem que a tradição de conhecimento da ciência da Jurema está se perdendo com o passar dos anos. Muitos são os fatores que promoveriam essas transformações, desde o desinteresse dos mais jovens, a forte influência dos cultos neopentecostais no município, até a própria inserção de elementos umbandistas dentro do culto da Jurema. Além disso, com a morte de juremeiros mais experientes, que foram referências dentro do culto, também dão uma sensação de que essa tradição estaria se extinguindo. E no contexto alhandrense, não há como pensar no culto da Jurema sem a atividade dos cientistas, especialistas na ciência da Jurema. E com o trabalho de ciência sendo realizado por poucas pessoas, como Seu Joca Mão de Pau, e D. Zita do Abiaí, o que antes tinha alcance para além do município, hoje esse conhecimento ganha um futuro cheio de incertezas. Ainda assim, as memórias acerca dos cientistas da Jurema seguem vivas no imaginário dos juremeiros alhandrenses.


Referências

CASCUDO, Luiz da Câmara. Meleagro: pesquisa do catimbó e notas da magia branca no Brasil. Rio de Janeiro: Agir, 1978.
SANGIRARDI JR., Ângelo B. O índio e as plantas alucinógenas. São Paulo: Ed. Alhambra, 1983.
SILVA, Vagner G. da. Candomblé e Umbanda: caminhos da devoção brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2005.
VANDEZANDE, René. Catimbó: pesquisa exploratória sobre uma forma nordestina de religião mediúnica. Recife: Dissertação de mestrado/UFPE, 1975.

Notas
[1] Direita e esquerda têm aqui a conotação de forças espirituais de polaridades distintas. Direita para linha do bem, da cura e da luz. E esquerda para os trabalhos do mal, feitos para prejudicar alguém, ou para obter alguma benesse material de forma fácil e rápida.
[2] Na década de 1960 há uma considerável influência do campo umbandista na política, no sentido de assegurar uma legislação que legitimasse a livre expressão de suas práticas. E âmbito estadual, a resposta oficial vem com a Lei Estadual 3.443, de 06 de novembro de 1966, promulgada pelo então governador da Paraíba, João Agripino, que “dispõe sobre o exercício dos cultos africanos na Paraíba”, e regulamenta os espaços das religiões afro-brasileiras, seguindo uma tendência de que já vinha acontecendo em outros estados.