O espaço Sagrado do corpo na Jurema

O espaço Sagrado do corpo na Jurema
28 de junho de 2019 Andre Nascimento

 O espaço Sagrado do corpo na Jurema

André Nascimento

Foto de Laila Santana.

O catimbó-jurema é um sistema religioso cujas origens remetem aos grupos indígenas que no passado, habitaram grande parte do Nordeste brasileiro, mas que ainda hoje, mantem-se vivo graças as ações dos novos mestres e mestras juremeiras. Culto ancestral baseado na crença de cidades e reinos encantados habitados por mestres espirituais detentores de uma sabedoria muito antiga. O catimbó-jurema passou por diferentes transformações ao longo dos séculos: no XVI, integra à sua estrutura religiosa algumas referências do catolicismo português trazido pelos missionários jesuítas. No XVII, negros africanos escravizados e índios aldeados, exercem uma influência mútua em seus respectivos sistemas religiosos tornando-os mais complexos e diversificados. Nos séculos posteriores, o hibridismo com o candomblé e a umbanda, por exemplo, tornou possível novos arranjos aos cultos afro-luso-ameríndios.

Dentro deste universo religioso tão plural constituído por diferentes espacialidades elaboradas para sediar as experiências com o sagrado, penso que o corpo humano seja uma das categorias espaciais mais importantes. Assim como os terreiros, barracões, tendas ou ilês, “o corpo é um templo em menor escala”, assim afirmou Richard Sennett. Um espaço construído a partir de investimentos simbólicos e materiais que tem como principal função mediar o contato entre o mundo dos homens e o mundo místico no qual habitam os mestres, mestras, reis, encantados, caboclos, pretos-velhos e outros espíritos desencarnados.

No catimbó-jurema, assim como em outras manifestações religiosas de caráter mediúnico-espiritualista, o corpo é, sem dúvida, um mecanismo essencial na comunicação entre os homens e os espíritos; tão importante, que em muitas religiões atua como a base principal de seus sistemas de crença. Desde que as primeiras manifestações religiosas foram organizadas, o homem procurou representar suas divindades tendo como referência principal o corpo humano. Mesopotâmicos, persas, fenícios, egípcios, gregos, romanos, as sociedades da Mesoamérica, assim como os diversos grupos indígenas do Brasil, tinham em comum, complexos religiosos baseados na antropomorfia. No entanto, nenhum outro instrumento foi capaz de manifestar de maneira mais clara e mais intensa a interação do homem com o mundo sobrenatural, que o seu próprio corpo.

Nas religiões onde o transe de possessão acontece, o corpo é compreendido como “sacrário” dos ancestrais evocados durante as cerimônias para interagir com os adeptos e aqueles que vão aos templos para pedir favores ou prestar homenagens aos guias espirituais. Em se tratando das religiões afro-luso-indígenas, o processo de construção do corpo-templo se dá a partir de uma série de rituais iniciatórios: banhos a base de ervas, sacrifícios de animais e oferendas diversas. O noviço se abstém de sexo; alimenta-se exclusivamente com as comidas sagradas que representam e contém a energia dos seus pares espirituais – o axé. Durante os dias de preceito, priva-se temporariamente do contato com outros membros da casa. É preciso purificar o corpo para receber o sagrado. Por meio de uma complexa ritualização, particular de cada terreiro ou nação, o corpo passa a estar simbólica e efetivamente ligado as divindades tornando-se, a partir de então, um espaço consagrado.

A preparação e inserção do indivíduo na jurema, representa a introdução numa estrutura sociológica capaz de criar uma experiência de “multiplicidade compartilhada” que envolve o médium, a entidade e a comunidade religiosa. Usado coletivamente, o corpo-veículo, é o elo entre a mestria espiritual e seus discípulos encarnados. Durante o processo da “incorporação” acontece simbolicamente, um deslocamento das barreiras espaço-temporais: o médium “traz” de volta à terra os espíritos de antigos feiticeiros, médicos, pajés, curandeiras, homens e mulheres comuns com todo o seu conhecimento ancestral; personagens possuidores de saberes milenares que são repassados às novas gerações durante os “toques” de jurema. Em terra, reis encantados, caboclos, mestres e toda sorte de entidades, expressam-se por meio do corpo do médium, o seu caráter, suas preferências, seus defeitos, sua ciência. Estes espíritos elegem líderes entre os encarnados e os marcam com o seu sinal: a semente de jurema, ou o pó – atim. Implantado no corpo do indivíduo, torna-se símbolo de seu compromisso para com os espíritos. Mais tarde aquela semente poderá dar origem a uma nova ciência e quem sabe, a uma nova “cidade encantada”, reforçando a concepção de que na jurema o corpo físico é constantemente transformado e ressignificado.

A mestria juremeira fala: aconselha, adverte, critica, previne. Aceitar a mediunidade significa ceder o corpo inteiro para ser tomado por poderes místico-espirituais. A fim de destacar a personalidade e a identidade do mestre, o médium tem seu corpo paramentado com vestes e insígnias que representam seu mentor. Na cabeça: chapéus, lenços ou turbantes. No pescoço: amuletos, joias e os colares de conta – as guias. Nas mãos: bengalas, punhais, cigarros, charutos, taças de vinho, champanhe ou cachaça. Elementos simples, que manipulados por estas entidades tornam-se instrumentos poderosíssimos e imprescindíveis para a concretização dos trabalhos mágico-religiosos. Estes itens não possuem apenas uma dimensão estética. Na verdade, o corpo-receptáculo e tudo que ele ostenta, como as vestes e as coreografias, além de outros demarcadores corporais e identitários, devem estar em consonância com a liturgia juremeira. O corpo-mediúnico materializa uma “hierofania”, isto é, a revelação do sagrado de modo físico, palpável.

O momento da possessão é performático: o indivíduo tomado pelo espírito, se agita como se estivesse preparando o espaço corpóreo para que a entidade venha habitá-lo por alguns momentos. Este processo pode ser demorado e interrompido várias vezes até se efetivar. “Incorporado”, a postura e a voz são alteradas e o médium assume uma “nova identidade”. Giram e dançam com a firmeza dos caboclos; pulam e correm com a energia dos espíritos infantis; caminham de forma lenta e compassada quando “atuam” os pretos e pretas-velhas, ou aparentam estar ébrios, como alguns mestres e exus. Percorrendo o salão, os mestres e mestras riem, conversam, bebem, cumprimentam, fazem amigos, estabelecem laços de compadrio e amizade, oferecem os seus serviços “mágicos” para resolver problemas de saúde, no amor ou no dinheiro.

O catimbó-jurema é um sistema onde o corpo é estimulado pela sonoridade. A música – cantada ou apenas tocada, viabiliza o estado de transe. A possessão está quase sempre ligada a uma estimulação sensorial e sonora, sejam os cânticos sagrados repetidos como mantras, sejam os tambores e as maracas ou mesmo, o som das mãos batendo palmas. Estes sons cadenciam os ritmos das cerimônias e auxiliam na performance corpóreo-ritualística.

A atuação corporal se inscreve de maneira subjetivada em cada indivíduo. Todo o repertório gestual registrado no corpo do médium, é resultado de investimentos mnemônicos internalizados e vivenciados individual e coletivamente. Neste sentido, a “família de santo” cumpre um papel fundamental auxiliando no desenvolvimento mediúnico dos membros da casa. Neste processo, os guias espirituais também atuam de modo significativo, fornecendo os mecanismos para que a união entre matéria e espírito se concretize.

O corpo-hierofânico na jurema, externa uma atividade psicológica e materializa aquilo que se concebe primeiramente no imaginário. É que alguns dos espíritos encantados na jurema são cultuados como energias elementais às vezes, sem formas físicas bem definidas. O corpo humano é mais uma vez, a referência para dar contornos a estes seres. Estas representações imagéticas cumprem uma função pedagógica figurando nos altares sagrados dos terreiros. A corporalidade no catimbó, constitui-se como uma das “linguagens” mais eficientes sendo capaz de reencenar aspectos míticos do cosmo juremeiro – é possível compreender algumas das mensagens dos mestres e mestras observando seus gestos, suas ações, sua coreografia.

Por fim, reiteramos que a jurema se configura como um sistema religioso que privilegia e constrói corpos proativos; não mais subjugados pelas ações colonialistas e “civilizatórias” das religiões dominantes que no passado condenaram e demonizaram as práticas corporais dos cultos afro-luso-indígenas. Na jurema, a corporeidade ganha sentido político, pois as entidades auxiliam na desconstrução das classificações social, de gênero ou de origem étnica. O mesmo “corpo-aparelho” que “recebe” espíritos nobres, como príncipes, rainhas e fidalgos, por exemplo, “recebe” também, ex-escravos, mestras, prostitutas e ciganos. Na jurema, o corpo do médium serve a um propósito de resistência, no sentido de dar visibilidade aos discursos e personagens que as narrativas e as instituições oficiais trataram de invisibilizar. Médium e entidade em comunhão, tornam-se essenciais na constante reatualização dos mitos e tradições desse sistema religioso.