Freud e Bonhoeffer: da religião que infantiliza e do cristianismo não religioso para o ser humano em estado adulto

Freud e Bonhoeffer: da religião que infantiliza e do cristianismo não religioso para o ser humano em estado adulto
13 de maio de 2019 Francisco Santos e Nelson Lellis

Freud e Bonhoeffer: da religião que infantiliza e do cristianismo não religioso para o ser humano em estado adulto

Por Francisco Santos e Nelson Lellis

Sigmund Freud (juntamente com Karl Marx e Friedrich Nietzsche) aparece, no livro O Conflito das Interpretações, de Paul Ricoeur, como um dos mestres da suspeita. Estes mestres são assim chamados por suspeitarem das ilusões criadas pela consciência humana. A religião fora etiquetada como um fator negativo por estes autores. Marx entendeu que a chamada superestrutura (onde estava alocada a religião) era, a bem da verdade, comandada pela estrutura, e não o contrário. Ou seja, a economia e a relação com a mesma determinavam os valores que diziam ter seu gênesis na abstração religiosa. Nietzsche considerou que os valores do cristianismo deveriam ser destronados, uma vez que o sujeito religioso era levado a não perceber sua vida presente, negando-a, em seus processos de dor, diante da crença em uma vida pós-morte.

Para Freud, a religião infantiliza o ser humano. Sem adentrar ao uso que faz do Complexo de Édipo, o psicanalista austríaco entende que a relação do fiel com o Pai celeste é de amor quando se vê dependente, e de ódio, quando se vê reprimido. Mas obedece ao Pai porque não há outra saída. O que se deve observar também é a questão feminina na religiosidade judaico-cristã. Para o teólogo alemão Wolfhart Pannenberg, o aspecto da figura do pai para a psicanálise e consequentemente para a religião, tem seu início a partir do próprio Antigo Testamento. Nele, em raras vezes, o Deus de Israel é chamado de pai. Isso constituiu um problema para que o povo de Israel pudesse assimilar um Deus concebido como pai e mãe, posto que “do êxodo e da tradição sinaítica uma parceira feminina” não fazia parte. Assim afirma Pannenberg: “A transferência de uma diferenciação sexual à compreensão de Deus implica, em todos os casos, politeísmo, e por isso teve que ser descartada para o Deus de Israel”. Nesta perspectiva reforça-se a figura paterna em detrimento da materna, o que fica mais bem evidenciado na exposição do Complexo de Édipo como núcleo das neuroses.

Foi em 1907, no artigo “Atos obsessivos e práticas religiosas”, que Freud lançou mão do fenômeno da “neurose obsessiva” para interpretar a religião. É importante lembrar que para Freud a psicanálise não é religiosa nem antirreligiosa, apenas um método que tenta desvelar o que existe no inconsciente humano que interfere diretamente no seu comportamento particular e social. Cabe aqui algum esclarecimento, mesmo que superficial, sobre neurose, obsessão e neurose obsessiva.  De acordo com o dicionário de psicanálise Larousse, tradução da língua francesa, em 1914, Freud divide as psiconeuroses em dois grupos opostos: as neuroses narcisistas (o que seria a psicose hoje) e as neuroses de transferência (histeria, neurose obsessiva e histeria de angústia).  O que nos interessa, no caso, seria a neurose obsessiva. Obsessão consiste em uma ideia fixa e persistente que determina a conduta de uma pessoa, conduzindo a comportamentos que frequentemente são contra a vontade da pessoa obcecada.

Neurose obsessiva é a expressão que Freud utilizou por volta de 1894 para caracterizar desconforto e conflito psíquico causador de sofrimento e que se relacionava diretamente com os desejos inconsciente do indivíduo cuja marca principal tem origem em questões sexuais ligadas ao já citado complexo de Édipo. A dificuldade da percepção da neurose obsessiva, no entanto, se dá pela proximidade existente das atividades psíquicas comuns. Importante destacar que as obsessões apresentam componentes sacrílegos, o que favorece, em termos de religião, atitudes que promovam a negação, ou ocultação, via mecanismo de defesa, de pensamentos injuriosos, obscenos, e outros que conduzem ao sentimento de culpa, principalmente.

Nos termos de reflexão freudiana, a religião faz com que o fiel tente ocultar seu conflito de amor e ódio ao Pai. Ao mesmo tempo, é ali que, como em estado infantil, se sente amparado. Para estudo aprofundado do tema, o caso publicado por Freud em 1909, intitulado O homem dos Ratos, aborda com riqueza de detalhes as questões que envolvem a neurose obsessiva.

De acordo com a psicanálise freudiana, o princípio do prazer e o princípio da realidade podem ser observados em cada indivíduo, distinguindo-se nitidamente a realidade material da força psíquica de cada um. Em relação ao princípio do prazer este assunto foi abordado por Freud no final da primeira guerra mundial. É necessário que o termo pulsão fique claro, para que se entenda a forma como Freud aborda o princípio do prazer. Existem duas teorias possíveis sobre as pulsões que são apresentadas por Freud, a primeira que seriam as pulsões sexuais e de autopreservação, e a segunda seriam as pulsões de vida e de morte.

Com a exposição simples desses aspectos já se pode imaginar como a religião interfere no comportamento do fiel, especialmente porque, para as religiões cristãs, assuntos que abrangem questões sexuais, de vida e de morte, se tornaram seara enorme de controvérsias.

O que isso quer dizer?

Enquanto o fiel permite que a religião estabeleça ou contribua para perpetuação de certos tabus, sua realidade será influenciada por desejos fixados no seu período da primeira infância. Sua realidade será, portanto, um cenário voltado para questões de figuras e símbolos mentais, que pouco ou quase nada, refletem sua realidade, apesar da obscuridade em que ainda se encontra os sintomas obsessivos, por serem de ordem puramente mental, a repetição de alguns atos e a permanência da dúvida, pode contribuir para que o indivíduo “civilizado” ou “religioso” dissimule sua agressividade mortífera.

Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) foi um pastor luterano que escreveu importantes livros como Ética, Discipulado, Vida em Comunhão, dentre muitos outros. O livro Resistência e Submissão: cartas e anotações escritas na prisão, documenta suas experiências durante seus últimos anos de vida (1943-1945) na Alemanha nazista.

A foto abaixo registra Bonhoeffer como espião na Agência de Inteligência Militar Alemã (Abwehr), uma antagonista da Gestapo (polícia nazista).

A foto abaixo registra Bonhoeffer como espião na Agência de Inteligência Militar Alemã (Abwehr), uma antagonista da Gestapo (polícia nazista).

Imagem encontrada na reportagem: istoe.com.br

Os britânicos obtinham informações sigilosas através de Bonhoeffer, negociando, assim, o assassinato de Hitler. O bispo Georg Bell redirecionava as mensagens a Winston Churchill, primeiro-ministro da Inglaterra. O pastor luterano ajudou a planejar muitas ações a fim de livrar judeus da morte, enquanto muitos outros líderes religiosos se submetiam e apoiavam o governo e ações de Hitler.

Em 1944, ocorreu a Operação Valquíria, a maior tentativa de eliminar Hitler. Nesta época, Bonhoeffer estava preso pela polícia da Gestapo. O plano falhou e a identidade deste protestante fora descoberta. Por este fato, o pastor foi condenado e executado por enforcamento no dia 9 de abril de 1945.

E o que Freud tem a ver com isso?

Clifford J. Green, em seu livro Bonhoeffer: A Theology of Sociality, disse que o pastor não lera Freud, mas que suas análises sobre religião eram basicamente semelhantes. Enquanto que para Freud a religião era a fase onde a infantilidade humana passava por processos constantes de manutenção (através de rituais, por exemplo), para Bonhoeffer, o cristianismo precisava ser um movimento sem religião para o ser humano em estado adulto. Neste aspecto, para ambos, o cristianismo não servia para amadurecer, nem servia para o indivíduo moderno como ferramenta – seja social ou subjetiva.

Para Bonhoeffer, era inadmissível um cristão ser favorável ao nazismo. Óbvio que muitos levantariam suas bandeiras contrárias questionando o desejo de eliminar Hitler. Todavia, as relações na guerra acontecem sempre pelas vias extremas. Os acordos com o nazismo foram e sempre serão impossíveis – a não ser que ele saia vencendo.

E o que isso tudo tem a ver com fiéis brasileiros?

Não apenas com cristãos brasileiros, mas num sentido bem amplo, o sonho de Bonhoeffer parece não ser ainda uma realidade. As igrejas, em sua grande maioria, realizam suas manutenções a fim de que seus membros vivam infantilizados, tornando a realidade em ilusão, voltados para os rituais, para as mágicas, regando seu narcisismo. E na esfera sócio-política, inclina-se para o lado repreensível. Os estudos sobre Bonhoeffer devem ser resgatados nas comunidades cristãs. E o objetivo NÃO é pela “eliminação do outro”, mas para que haja resistência e ética num ambiente onde dissonantes decisões acerca da educação, posicionamentos violentos acerca do ser humano, discursos de ódio sobre minorias, desrespeito com a diversidade e cultura, têm sido as cores desse quadro que ocupará museus no futuro (algo que o Brasil está atrasado; necessita urgentemente de um museu em relação à ditadura).

A expectativa é que fiéis amadureçam a religião, e não o contrário. O cristianismo não religioso, como desejado por Bonhoeffer, só será construído por gente em estado adulto. Enquanto a religião dominar o ser humano (e não inversamente), será ela mesma ferramenta dos podres poderes. Deste modo, certamente, Freud (e muita gente) já explicou. Não há nenhum mistério nisso.