Nossos passos vêm de longe. Nossa resistência também!

Nossos passos vêm de longe. Nossa resistência também!
16 de abril de 2019 Daniela Tiffany Prado de Carvalho

Nossos passos vêm de longe. Nossa resistência também!

Por Daniela Tiffany Prado de Carvalho

Cotidianamente vejo e ouço pessoas expressando desânimo. Desalento pelas perdas, crimes, tragédias e ausências de perspectivas nesta triste conjuntura. Vivemos a abertura democrática no Brasil e confiamos nos direitos e garantias fundamentais asseguradas na Constituição de 1988. Sob a premissa da igualdade, buscamos o fim da discriminação de gênero, raça/etnia, origem, religião, orientação sexual ou outra distinção de qualquer natureza. O que não contávamos é que as reações às nossas conquistas colocariam em risco a jovem Democracia, e nos trariam riscos também.

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O assassinato de Marielle Franco é uma representação brutal do ódio às mulheres, negras, lésbicas e periféricas que ousam denunciar que a desigualdade está no cerne da sociedade brasileira. Marielle tornou-se a vítima emblemática de um sistema corrupto e violento. Morreu por tudo que era e pela sua capacidade de representar, em seu corpo e falas, as vozes ceifadas de tantos de nós. Esta mulher fenomenal encarnava no tempo atual as lutas que lhe precedem. E o tiro que interrompeu brutalmente a sua vida também espalhou as sementes que perpetuarão a sua existência. Somos sementes resistentes de uma árvore-memória, inquebrantável.

Nas eleições de 2018, mais deputadas foram eleitas para as Assembleias Legislativas e Câmara Federal. Dentre elas, mais negras, feministas, antirracistas, lésbicas, trans e defensoras aguerridas dos direitos do povo. Mulheres contra privilégios, contra (de)reformas trabalhistas e previdenciárias, contra a flexibilização do porte de arma, privatizações irrestritas, contra o avanço do conservadorismo e os ataques da extrema-direita. Marielle se faz presente em tantas outras mulheres. Antes eu me reconhecia nela, agora reconheço mais dela em mim.

Conhecemos bem a luta pela vida e pela dignidade. Somos descendentes de mulheres e homens que lutaram pelo fim da escravidão. Herdeiras de uma força ancestral que gestam o futuro das próximas gerações. Muito do que hoje sentimos como retrocesso ainda é muito mais do que vislumbravam aqueles que nos precederam. Desejam ser livres, antes de saberem que a justiça social é o embrião da liberdade. Os sonhos do passado tornam-se legados para o horizonte.

Sinto que ainda carregamos nossos grilhões e precisamos resistir contra a ira dos Senhores que louvam a propriedade, a família (deles) e Deus (à imagem e semelhança deles também). Querem restringir a política às suas convicções e isso coloca a sociedade em grande risco. Só conseguiremos enfrentar os sérios problemas que temos se assumirmos práticas de vida comunitárias, com respeito às diversidades e comprometidas com o bem comum.

Considerando que nossas práticas expressam nossa consciência coletiva, insisto que precisamos desbancar a pretensão dos “semideuses” da politicagem habitual com a sabedoria das pessoas comuns. Através do meu trabalho como assessora parlamentar, percebo que a proximidade honesta com as pessoas e o interesse pela realidade cotidiana da população menos favorecida é o que permite o melhor exercício da representatividade em um cargo público.

Esta sabedoria é uma conquista de quem se reconhece no mundo como parte de algo que lhe transcende e assim constrói um mundo que não é estreito para ninguém. Está para além da religião, reflete cultura e tradição. Exige um alargar de sentidos e efetiva responsabilidade com o sagrado, com a natureza e com as pessoas. Precisamos assim contagiar a política.

Pelo conhecimento dos que me precedem, tenho forças para seguir adiante. O desânimo não cabe, temos o compromisso de resistir e ainda viver melhor!