(Des)aprendendo com Eva: Da opressão à libertação

(Des)aprendendo com Eva: Da opressão à libertação
16 de abril de 2019 Juliana Henrique

(Des)aprendendo com Eva: Da opressão à libertação

Por Juliana Henrique

Estimada companheira,

Pergunto-lhe: Quando falamos de Eva, quais são os primeiros pensamentos que vêm à cabeça? Calma, calma! Já sei! Que a mulher provocou o homem, que hoje sofremos (parto, menstruação) por causa de Eva, que a mulher deve se submeter ao homem porque foi feita da costela dele e por aí vai.

Certa vez ouvi uma amiga proferir: “Ah Eva danada, um dia me encontrarei com você, no Paraíso, e prestaremos conta de tanto sofrimento. Um dia te pego!” E fui crescendo com essas informações que nos são ensinadas e que ainda está fortemente enraizada. Lamentável! Isso causa-nos um incômodo, uma sensação de naturalização de inferioridade, de impureza, de exclusão de uma vida digna. Esses são os efeitos de uma antropologia misógina, isto é, ódio ou aversão às mulheres. Acrescento uma curiosidade: Tu sabias que temos na Bíblia duas versões sobre a criação? Confira Gn 1, 1-31 e Gn 2, 5-25. Pergunto-lhes: Qual a versão verdadeira? Por que temos duas versões se a verdade é única?

Sharon Mccutcheon

E para reparar, redimir o que Eva fez, trazem a imagem de Virgem Maria, que tornou-se dogma na Igreja Católica. Sempre virgem Maria, como se o sexo fosse pecado, como se o sexo tornasse uma pessoa impura. Isso é uma construção estranha, até hoje fico a refletir. O interessante é que constroem a imagem de Maria, como recatada e do lar, que obedece, que serve, mas esquecem da Maria que luta, como é retratada no Magnificat. Vale considerar que os trajes de Maria referem-se a sua época, provavelmente hoje ela usaria shorts, saia, vestidos, camisetas… Aqui no nordeste então!? Muito quente.

Tanto as interpretações misóginas e reguladoras, respectivamente, sobre Eva e sobre Maria ajudam-nos a compreender a importância da teologia feminista. Vejamos:

“A partir da teoria e teologia feministas, o compromisso pela igualdade de direitos e a erradicação da discriminação, opressão e violência levou a uma metodologia de desconstrução e reconstrução.”[1] Como podemos nos respaldar no Profeta Jeremias 1,10 “Vê, hoje te confiro,  autoridade  sobre as nações e sobre os reinos, para arrancar e derrubar, para arruinar e demolir, para construir e plantar.” E continuamos, para desconstruir, é necessária uma revisão das estruturas simbólicas que se perpetuam e mantêm relações assimétricas de poder. Para reconstruir, é necessário elaborar concepções e práticas alternativas do fazer teológico.[2]

Este método requer pelo menos cinco passos: 1) Suspeita; 2) Recuperação de memórias e tradições esquecidas ou colocadas à margem; 3) Crítica, correção e transformação de conceitos; 4) Repensar o modo como o mundo acadêmico opera; 5)Auto-avaliação crítica. Estes cinco passos são desdobramentos do processo contínuo de desconstrução e reconstrução. A suspeita, um tema originalmente apresentado por Paul Ricoeur, remove literalismos e desconstrói a hegemonia acadêmica. A recuperação de memórias subversivas ou marginais entabula reconstruções de saber. A crítica e correção retornam retomam a desconstrução, no intuito de questionar universalismos. Repensar como o mundo acadêmico opera implica reconstruir paradigmas, epistemologias e superar a cisão entre teoria e prática. Por fim, a autoavaliação crítica coloca todo labor teológico à disposição da comunidade para que suas pretensões de verdade sejam verificadas.[3]

Diante do método supracitado, podem perguntar: como utilizaremos o método feminista na leitura da Bíblia, ela não é a palavra de Deus? Bem, justamente por considerar a influência da ‘Bíblia’ no Ociedente e no Oriente, por ser compreendida por algumas pessoas como: apenas REVELAÇÃO DIVINA, por outras apenas como PRODUTO DOS SERES HUMANOS e por outras que consideram a indispensável INTEGRALIDADE entre as leituras teológicas e antropológicas. Constatamos que a Bíblia pode  ser utilizada como instrumento de opressão ou de libertação, porém cabe-nos enfatizarmos que comumente ela tem sido utilizada para legitimar exclusão-opressão-marginalização-preonceito-misoginia-sexismo-violência-machismo – vividas por mulheres, e homens, pobres, marginalizados, índios, negros, em contextos Patriarcais ou de dominação masculina pautados numa interpretação unilateral e fundamentalista, que tem classe, gênero e etnia dominantes. Desintegrando assim o indispensável diálogo entre fé e razão, entre religião e ciência, entre texto e contexto. A religião judaico-cristã nasce em contexto Patriarcal ou de dominação masculina, e alguns  textos  subverte  a  lógica  de  relações  centradas  no  homem,  no  senhor,  cabe-nos garimparmos  tais leituras, como por exemplo  o encontro das mulheres com Jesus. Pois já está  mais  do  que  na  hora  da  Igreja  reconhecer  que  tem  construído  modelos  de masculinidades e feminilidades, pautadas no dualismo superior e inferior, razão e emoção, pensamento  e  sentimento,  mente  e  coração,  entre  outros,  pergunto-lhes:  Na  natureza humana  existe  uma  desintegração  de  tais  características?  Pode  a  mulher  e  o  homem desintegrar  essa  natureza?  Viveria  a  mulher  e  o  homem  apenas  com:  o  coração  ou  o cérebro;  a  emoção  ou  a  razão;  o  sentimento  ou  o  pensamento?  Existiria  ‘vidas’  se  não houvesse a indispensável integração na copulação entre a mulher e o homem? Se todos os seres humanos são frutos dessa integralidade, logo somos pessoas masculinas e femininas. E quem desintegra e cria desigualdades e situações subhumanas?[4]

Bem, considerando o esclarecimento da bíblia como produto divino e humano, nos aproximaremos de forma mais confortável da Bíblia, buscando leituras que libertem os seres humanos das correntes ideológicas que inferiorizam, que discriminam, que excluem, pois como diz a carta de Paulo aos Gálatas 3,28 “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher, porque todos vós sois um em Cristo”. Desta maneira, busca-se integrar e respeitar as diferenças que discriminam, escravizam, inferiorizam, tais como de etnia, de classe e de gênero.

Para isto, interpretando à luz de Azaria e Silva (2012, p. 40-41) traremos que em Gn 1, 27 “E criou Elohim o ADAM à sua imagem e semelhança. Criou-o à imagem de Elohin, macho e fêmea os criou.” Considerando esta citação bíblica, compreendo a música de Pepeu Gomes, nos versos do refrão: “Ser um homem feminino, não fere o meu lado masculino, se Deus é menina e menino, sou masculino e feminino.” Em Gn 2-3 refeletimos que “A mulher não é uma criação secundária, porque um ish – ‘homem’- recebe sua identidade sexual apenas pela criação de uma ishah, enquanto se fala antes apenas do adam, ‘terrestre’, sem qualquer definição sexual.” Acrescenta-se a essas informações que Adão e Eva são traduções estranhas das palavras ADAM e CHAVA, palavras hebraicas que significam, respectivamente, filho/com origem/criado da terra e aquela que dá a vida, logo Adão como o primeiro homem e Eva como a primeira mulher, nunca existiram. É claro que existiu um primeiro homem e uma primeira mulher de onde tivemos nossa origem, porém não da forma que se tem divulgado e aceitado. Há registro que os primeiros seres humanos vieram da África.[5]

Veja, em outras culturas e suas respectivas religiões existem interpretações da criação similares às duas explicações da criação que encontramos na Bíblia, citaremos os SUMÉRIOS, os BABILÔNICOS e a ACÁDIA.

Segundo os SUMÉRIOS, a deusa     ‘NAMMU’, a mãe de ‘ENCHI’, o deus da sabedoria, criou o homem de barro e água em estado perfeito. As pessoas que nascem defeituosas foram criadas por ‘ENCHI’ e seu irmão NIAMAH quando estavam embriagados brincando competitivamente em criar seres defeituosos. O propósito da criação era que o homem pudesse servir aos deuses e fazer seus trabalhos manuais.

Da mesma forma entre os ‘Babilônicos’, o deus ‘MARDUCH’ criou o homem do sangue do deus traidor, o KINGU. O homem, por ser parte de deus morto, é considerado o mais inteligente dos seres vivos capaz de ajudar os deuses em seus serviços manuais e de menor importância.

Pela tradição ACÁDIA, o deus ANCHI junto coma deusa NINTO criaram do sangue de um deus e do barro, sete figuras masculinas e sete femininas. As figuras foram colocadas em forma de outeiro durante nove meses até se transformarem em humanos.

E criou Elohim o Adam à sua ‘imagem’. Criou-o à ‘imagem’ do Elohim, macho e fêmea os criou.[6]

Os esclarecimentos supracitados consideram as tentativas dos seres humanos, em sua diversidade, de compreender sua origem, sendo assim desde as sociedades originárias existiam essa tentativa de explicação, óbvio que a partir de elementos presentes na cultura da época, como o barro e a água, que perpassam as culturas e os fenômenos religiosos. Como apresenta-nos o filósofo escocês

Parece certo que, de acordo com o progresso natural do pensamento humano, a multidão ignorante deve, num primeiro momento, nutrir uma noção vulgar e familiar dos poderes superiores antes de ampliar sua concepção para aquele ser perfeito, que conferiu ordem a todo o plano da natureza. Seria tão razoável imaginar que os homens habitaram palácios antes de choças e cabanas, ou que estudaram geometria antes de agricultura, como afirmar que conceberam a divindade sob a forma de puro espírito, onisciente, onipotente e onipresente, antes de concebê-la como um ser poderoso, ainda que limitado, dotado de paixões e apetites humanos, de membros e órgãos.[7] (HUME, 2005, p. 24-25).

Sendo assim, cabe-nos questionar a tentativa de monopolizar e hierarquizar o fenômeno religioso. Cabe-nos refletirmos, se diante dos esclarecimentos que respeitam o fenômeno religioso e a ciência, se de fato o principio da monogamia e da heteronormatividade ainda se aplicam como fundamentos morais e de discriminação que causa a morte de pessoas homossexuais, de pessoas adeptas as religiões afro, o feminicídio?

Questiono: Se há respaldo da monogamia, da heteronormatividade, da família tradicional, quero explicações sobre quais estados nos referimos. Pois, todas as pessoas sabem que os homens, ainda que casados possuem amantes (homens e/ou mulheres), mais de uma família. Então, quer dizer que se aplica apenas à MULHER? Comumente ouvimos falar, para justificar a heteronormatividade e controle social, Deus criou Adão e Eva e não Adão e Ivo, logo a homossexualidade é frescura, então, diante da informação que nunca existiu Adão e Eva, quais conclusões podemos tirar? E de qual família estamos falando? Da família de papai e mamãe, que inúmeras vezes o papai não registra o filho, que estupra a esposa, que pensa que ela vive em função dele, que a torna empregada da casa, que inúmeras vezes vai à Igreja para se apresentar como o “bom homem” e quando chega em casa bate na mulher, espanca os filhos, estupra à filha? E a culpa ainda é da menina, ou da criança, ou da idosa que seduziu o homem? Afinal, de que Deus e de que família estamos falando? Para mim, Deus e a Deusa são Amor e afastam qualquer tipo de MEDO e PRECONCEITO.

Ah! Quem eu sou? Sou Juliana Henrique, sou feminista. Isso, fe-mi-nis-ta! Sei que o termo foi distorcido para descredibilizar a Luta. Comumente acredita-se que feministas são feias, odeiam homens, são bruxas, não se depilam, são homossexuais (sem preconceito). Eu sou feminista, dizem que sou linda, amo os homens, sou princesa e bruxa (como as obras de Amanda Lovelace), me depilo, sou heterossexual. Sou feminista, sabes por que? Porque feminismo, segundo o dicionário jurídico, é um Movimento que buscar equipar a mulher ao homem, no que atina aos direitos, emancipando-a jurídica, econômica e sexualmente.[8]

Quero ter vez, voz e lugar em casa, na igreja, na sociedade, na política, na universidade, na teologia, na educação, no trabalho. Quero ser respeitada por Ser Mulher, com ou sem crianças. Ah! Sempre falam das “bruxas”, mas por que não falam que os homens de uma religião, de uma classe a mataram? Para aprofundar a leitura ler: Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva de Silvia Frederici.

Agora entenderam a importância da teologia feminista? É um ato PROFÉTICO de denúncia e anuncio para a construção de mulheres livres, vivas e por direitos.

 

a história

das mulheres

se escreveu em meio

ao cheiro de queimado

por séculos

& séculos.

agora, não mais!

essa é a luta

de todas as que venceram

as chamas do preconceito

e da opressão

& descobriram como

amar profundamente

a si mesmas,

do jeito que são.

a

bruxa

não vai para

a fogueira

neste livro

amanda lovelace

 

Referências 

[1] DEIFELT, Wanda. Da cruz à arvore da vida: epistemologia, violência e sexualidade. In: Epistemologia, violência e sexualidade: Olhares do II congresso latino-americano de gênero e religião. São Leopoldo: SINODAL/EST, 2008.

[2] Ibden

[3] Ibden

[4] Reflexão de HENRIQUE, Juliana. A revelação de deus a partir da práxis libertária e libertadora do encontro das mulheres com Jesus. São Leopoldo: CEBI/EST, 2019. (Monografia)

[5] Interpretação livre de: AZARIA, Gad; SILVA, Severino. Bereshit: Deus e a criação. João Pessoa: Ideia, 2012.

[6] Ibden

[7] HUME, David. História natural da religião. São Paulo: UNESP, 2005.

[8] DINIZ, Maria Helena. Dicionário jurídico universitário. São Paulo: Saraiva, 2010.