Encurvadas, nunca mais! Bíblia e Patriarcado: por uma hermenêutica de libertação

Encurvadas, nunca mais! Bíblia e Patriarcado: por uma hermenêutica de libertação
12 de abril de 2019 Odja Barros

Encurvadas, nunca mais! Bíblia e Patriarcado: por uma hermenêutica de libertação

 Por Odja Barros

A cultura patriarcal e o sofrimento das mulheres tem sido uma demanda totalmente silenciada pela maioria das igrejas e religiões patriarcais. Como pastora, atuando numa comunidade batista, tenho lidado todos os dias com os dilemas resultantes das leituras patriarcais da Bíblia que afetam a vida, os corpos e as histórias das mulheres. Seus corpos gritam e clamam por vida e libertação.

Foto Odj Barros - Encontro Espiritualidade, Sororidade e Existencia

“Ele usava a Bíblia para acabar comigo!” Essa é a declaração de uma das mulheres evangélica vítima de violência doméstica entrevistada pela pesquisadora Valéria Vilhena. “Ele estuprava, batia enquanto fazia sexo. Depois tomava banho, colocava a gravata e ia para Igreja. Eu perguntei se ele não se sentia culpado, ele respondeu que não, porque Deus já havia perdoado e ele era para andar de cabeça erguida”. “Ele usava a bíblia para acabar comigo.” O uso da Bíblia na maioria das igrejas evangélicas no Brasil tem reforçado uma cultura violenta e patriarcal de dominação em relação às mulheres. No ano de 2016, a mesma pesquisa acima referida, revelou que 40% das mulheres vítimas de violência doméstica se declaram pertencentes a uma Igreja Evangélica. Tais dados denunciam que o discurso bíblico-religioso das igrejas evangélicas procedente de uma leitura patriarcal e sexista da Bíblia tem contribuído para perpetuar e fortalecer uma cultura de violência que atinge a vida e a existência das mulheres.

“O patriarcado conta com Deus e a Bíblia ao seu lado”

O patriarcado é inimigo antigo que permanece aterrorizando a vida de mulheres. Phyllis Trible, em seu artigo intitulado “Despatriarcalizando a Interpretação Bíblica”, recupera essa afirmação de Kate Millet: “O patriarcado tem Deus ao seu lado”. Trible busca, a partir dessa referência, evidenciar a tendência patriarcal do cristianismo e dos textos bíblicos. Segundo Wanda Deifelt, uma das primeiras críticas feitas à Bíblia como escrito patriarcal usado contra as mulheres foi efetuada já no século XIX por Elizabeth Cady Stanton. Em 1985, um grupo de mulheres lideradas por Stanton publicou a obra inédita denominada The Women’s Bible. O que motivou inicialmente o projeto foi o contexto do movimento das sufragistas que defendia o direito das mulheres ao voto e à propriedade. Um dos problemas que as mulheres do movimento frequentemente enfrentavam era o uso de textos bíblicos, por parte de seus adversários, que afirmavam que a vontade de Deus era a submissão das mulheres, e que elas não deveriam falar em público. Textos bíblicos não só inibiam a participação das mulheres, mas também as tachavam de pecadoras, pois elas iam contra a vontade de Deus.

O uso constante da Bíblia para marginalizar, excluir e silenciar as mulheres a partir de uma interpretação bíblica patriarcal e androcêntrica, distorce e contradiz o paradigma teológico da igualdade entre mulheres e homens e não pode ser admitido como palavra autêntica de Deus. Trata-se, pelo contrário, de reflexo do pecado sexista que atingiu a Bíblia, suas traduções, usos e interpretações na história da tradição cristã. Por esta razão, muitas de mulheres de tradição cristã têm assumido o  desafio de entrar em um diálogo crítico com as tradições bíblicas. É imperativo que, nestes tempos de expansão dos fundamentalismos religiosos, possamos disputar as narrativas bíblicas. A partir das Leituras feministas é possível descontruir as interpretações patriarcais que oprimem as mulheres e construir hermenêuticas de libertação.

Encurvadas nunca mais: por uma hermenêutica de libertação

O texto de Lucas 13: 10-17 conta a respeito de uma mulher religiosa que sofria a dezoito anos de um mal que a fazia andar encurvada. Esta mulher é identificada como uma  “filha de Abraão”, ou seja , mulher de fé religiosa judaica e que sofria de uma mal que não permitia que andasse ereta, erguida. Sua coluna refletia o peso desse mal que a aprisionava há dezoito anos. Qual era o mal que prendia essa mulher numa posição encurvada de submissão sem permitir que ela andasse de cabeça erguida? Poderíamos nomear esse mal de patriarcado?

Não podemos permitir que tantas mulheres no seio das nossas religiões permaneçam encurvadas, silenciadas, submetidas ao peso da violência patriarcal. É por essa razão que as mulheres buscam ler a Bíblia a partir de uma hermenêutica de libertação. Não para salvar ou libertar a Bíblia do patriarcado, mas para salvar e libertar os corpos que sofrem subjugados pelo mal que oprime, encurva, silencia e mata. Fazemos leitura feminista da Bíblia para que possamos juntas, nos erguermos e gritarmos: Encurvadas, nunca mais!

 

Referências

Depoimento disponível em https://mulhereseig.wordpress.com/2017/03/09/.

DEIFELDT, Wanda. Os primeiros passos de uma hermenêutica feminista: A Bíblia da Mulher editada por Elisabeth Cady Stanton.  Periódicos EST Estudos teológicos V.32 N.1 1992.

TRIBLE, Phyllis. Depatriarchalizing in biblical Interpretation. Journal of the American Academy of Religion. Vol. 41, No. 1 (mar. 1973).

VILHENA, Valéria. Uma Igreja sem voz: uma análise de gênero da violência doméstica entre as mulheres evangélicas. São Paulo: Fonte editorial, 2011.