Sobre o atentado à mesquita na Nova Zelândia

Sobre o atentado à mesquita na Nova Zelândia
31 de março de 2019 Patrícia Prado

Sobre o atentado à mesquita na Nova Zelândia

Por Patrícia Prado

“Ó vós que credes!  Quando se chama à oração da Sexta-feira, ide, depressa, para a lembrança de Allah, e deixai a venda. Isto vos é melhor. Se soubésseis!”  (Alcorão Sagrado Surata 62:9)

Sexta-feira, 15 de março de 2019. Reunidos em um espaço dedicado a oração e a adoração ao Deus Único e Uno[1], centenas de pessoas voltavam seus rostos em direção à Meca. Enquanto os corpos performavam a oração de sexta-feira, o tempo Kairós era brutalmente cortado pelas mãos de um terrorista. O tempo sagrado (ELÍADE, 1992) era assim, profanado pelo ódio daquele(s) que separam eles de nós.

As perguntas sobre os motivos e quem teria feito tal ato aparentemente teria respostas nas 74 páginas de um manifesto publicado na WEB por um dos responsáveis pelo ataque:  um australiano[2] de 28 anos que se auto identifica como branco e europeu, racista e fascista. Não apenas os motivos, mas as nomeações que o responsável pelo ataque terrorista faz sobre si mesmo, revela-nos aspectos importantes de sua auto identidade, e também de um retorno – ou talvez de um reavivamento – de ideologias racistas e excludentes. O ataque, segundo ele, seria um ato anti-imigração, anti-etnia e anti-cultural.

Mas, para além do que foi dito no manifesto, o ataque as Mesquitas Lindwood e Masjid Al Noor que vitimou dezenas de pessoas, é mais um evento que se alimenta e organiza de fatos ligados, também, a política internacional que podem ser vistos nos intermináveis conflitos em regiões como as do Oriente Médio, que levam a cada ano milhares de pessoas a deslocamentos forçados, até a instabilidade econômica de países como na América Latina, que tem mudado drasticamente os espaços geográficos.  As instabilidades provocadas pelas dinâmicas sociais, trazem à tona o ódio, a intolerância, o terror.

Imagem: Martin Hunter|REUTERS

Um outro elemento deve ser levado em conta nessa reflexão: a visão construída sobre o Oriente Médio e especialmente sobre os muçulmanos. Para Edward Said (2007) o Oriente é uma invenção do Ocidente, uma invenção que separa eles de nós em nomeações e adjetivos que os inferiorizam e os discriminam. A partir dessas construções, o ódio aos de origem árabe se espalha sobre os seguidores de uma das maiores religiões do mundo: o Islam. Um ódio infundado desde a ideia de que todo muçulmano é árabe até a de que o Islam é uma religião que prega a violência e a intolerância.

Nesse sentido urge a conscientização sobre eles e sobre nós: Quem são eles? Quem somos nós? Será que de fato, existe algo que nos separa a ponto de alimentarmos ideias de intolerância e medo para com eles? Seria a busca pelo diálogo inter-religioso um dos mecanismos de combate a tais pensamentos? Como a educação poderia contribuir nessa luta contra intolerância e o preconceito?

Essas são algumas das muitas perguntas que nos surgem ao olhar a conjuntura atual e os fatos que surgem dessa. Não podemos achar normal o retorno de nomeações como a de fascista. Nãos podemos achar natural o crescimento da xenofobia. Não podemos tolerar o crescimento da islamofobia. E não podemos porque concordar com tais ações é contribuir para o crescimento daquilo que nos separa, nos mata.

Imam Ali, o genro do Profeta do Islam – o Profeta Mohammad – dizia que ou somos irmãos na fé, ou somos parentes na criação (humanidade). E é clamando por essa fraternidade que devemos levantar nossas vozes na denúncia contra toda forma de discriminação e ódio; na construção, através da educação, de uma cultura de paz; da busca constante de uma aproximação que nos leve ao conhecimento, ao diálogo, ao outro. O tempo kronos caminha em passos rápidos, tensos, pesados. Mas, o Kairós ainda continua vivo, convidando-nos ao retorno a uma humanidade que vê no rosto do outro o vestígio de Deus (LÉVINAS, 2002).

[1] Segundo a Teologia Islâmica Deus (Allah, em árabe) é Único e Uno, diferente da Teologia cristã que compreende Deus como Único e Trino.

[2] Seguindo o exemplo da Primeira Ministra da Nova Zelândia, Jacinda Arden, o nome do autor dos atentados terrorista não será mencionado. Ver: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-47628043> Acesso em 19 de março de 2019.

Referencias

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes Editora, 1992.

LÉVINAS, Emmanuel. De Deus que vem à ideia. Trad. Pergentino Stefano Pivatto. Petrópolis: Vozes, 2002. p.85-114.

SAID, Edward. Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente. Trad. Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.