Amélie Boudet, uma existência pelo ideal espírita

Amélie Boudet, uma existência pelo ideal espírita
19 de março de 2019 Ana Cláudia Archanjo

Amélie Boudet, uma existência pelo ideal espírita

 Por Ana Cláudia Archanjo

 O contexto é o século XIX, na luminosa Paris. Os brados Liberté, Égalité, Fraternité (liberdade, igualdade, e fraternidade) ainda ecoavam pelas ruas e pelos salões da sociedade francesa. Apesar das encantadoras ideias, a prática não alcançava as mulheres. A liberdade de ser, a igualdade para agir e a fraternidade para respeitar as decisões alheias, parece ter demorado para se fazer presente na história feminina.

A francesa Amélie Gabrielle Boudet nasceu no ano de 1795, em Thiais. A confortável situação financeira do núcleo familiar proporcionou-lhe boa formação cultural, adequada aos moldes sociais. Assim, Amélie concluiu seus estudos na Primeira Escola Normal Leiga, de orientação pestalozziana. Trabalhou como professora das chamadas primeiras classes de alfabetização e se tornou importante referência para a esfera da pedagogia francesa, sendo frequentemente consultada quando se tratava de assuntos referentes à educação.

Os estudos no famoso instituto de Johann Heinrich Pestalozzi foi o estímulo necessário para que Amélie trabalhasse em favor das crianças e dos menos favorecidos. É também sua formação que a aproxima do Professor Hypolite Leon Denizard Rivail e em 1832, após um breve período de namoro, resolvem se casar. A parceria de ideais, incentiva o casal a trabalhar por projetos educacionais. A nobre Amélie não exitou e empenhou seus esforços no Instituto Educacional Técnico, também conhecido como Instituto Rivail. Infelizmente, a respectiva instituição não teve vida longa.

O interesse do professor Rivail pelo fenômeno das mesas girantes dá-se pelo ano de 1854 e é em 1855 que passa a adotar o pseudônimo Allan Kardec. A incansável Amélie acompanha os interesses do marido pelo mundo da espiritualidade. Pela parceria e compartilhamento de ideais, foram considerados um casal admirável, porém, fora dos opressores padrões sociais, haja vista que Amélie era nove anos mais velha do que Kardec e não tiveram filhos. A personalidade dela não cabia nos tradicionais moldes estereotipados de esposa.

Foto luzespirita.org.br

Sempre dinâmica, frequentadora de saraus, artista plástica, poetisa, requisitada orientadora educacional e os três livros de sua autoria (Fabulae Primaveris (1825), Notions de Dessin (1826) e L’Essentiel dans les Beaux-arts (1828)) eram sempre solicitados pelas escolas francesas. Além disto, possuía grande habilidade para administrar os negócios familiares.

Dona de intensa disposição para viver, tornou-se presença relevante, não somente como esposa do codificador da doutrina espírita, mas também como pilar para a própria doutrina, especialmente para as tomadas de decisões posteriores ao falecimento, ou seja, desencarne conforme a doutrina espírita de Kardec, em 1869.

Aos 74 anos, vivenciou o luto de forma equilibrada e corajosa. Logo se pôs a trabalhar para edificar o trabalho do marido. Sabia que enfrentaria a árdua batalha do preconceito, afinal era mulher, idosa, culta e dedicada às artes. E isto não a desanimou. Compreendia que a luta não seria apenas pela manutenção da memória de Kardec, enquanto seu esposo, mas, sobretudo levantou a bandeira do espiritismo e cercou a doutrina com os cuidados necessários para não se desestruturar.

Pela sua firmeza de opiniões, a senhora Kardec, tornou-se figura forte e por vezes não quista nas reuniões do mundo espírita, que embora rico de ideais fraternos, se mostrava hostil às presenças femininas enquanto força motriz para a doutrina.  A rejeição não intimidou a destemida Sra. Amélie Boudet.

A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas foi o primeiro centro espírita oficialmente legalizado no mundo, fundada em 1º de abril de 1858, por Allan Kardec. O pesquisador, Adriano Calsone, em sua obra “Madame Kardec, a história que o tempo quase apagou” (2016), informa-nos que a respectiva sociedade, tinha como membros o máximo de cinco mulheres e um número significativamente maior de homens. É neste áspero cenário que Amélie Boudet apresenta o documento denominado “Constituição Transitória do Espiritismo”. O mesmo foi elaborado por Kardec, em dezembro de 1868, no entanto, o codificador da doutrina não teve tempo para apresentá-lo aos seus membros.

A constituição continha diretrizes doutrinárias para os membros da Sociedade Parisiense de Estudo Espíritas. Teria sido apenas uma apresentação do documento, caso a sociedade estivesse coesa em relação ao ideal das respectivas diretrizes, mas não estava. Os membros estavam confusos, alguns presos às ideias fenomênicas, outros tentando inserir novas propostas como a teosofia, enfim, não foi simples levar e explicar qual seria a orientação adotada para o espiritismo a partir daquele momento.

Somente a força, inteligência e perspicácia de uma mulher como Amélie Gabryelle Boudet poderiam fazer o diferencial nesta tarefa delicada que definiria e garantiria o futuro do espiritismo, tal como Kardec aprendeu junto aos espíritos, a saber, uma doutrina que possui a relevância do aspecto educativo e moral. A recepção do documento não foi boa e inclusive, a senhora Kardec foi processada pelos homens da sociedade parisiense de estudos espíritas. Sua postura destemida e firme, sua inteligência e cultura, possibilitou que ocupasse espaços e ecoasse sua voz num ambiente prioritariamente masculino, quer seja na sociedade francesa, como na espírita. E tal possibilidade não estava adstrita ao casamento.

Muito mais teríamos para relatar a respeito de uma mulher tão importante para a Doutrina Espírita, mas neste momento de reflexão, basta saber que as mulheres sempre estiveram presentes em momentos de lutas históricas, ainda que muitos apostassem na redução de suas existências, como foi o caso de Amélie Gabrielle Boudet. Tentaram transformar sua tão bela historiografia em um vulto intitulado “esposa de Allan Kardec”, mas sua energia vital e força de resistência sempre foram maiores e não caberia situar sua contribuição significativa a um plano secundário.

Referências

CALSONE, Adriano. Madame Kardec: a história que o tempo quase apagou. São Paulo: Vivaluz, 2016.

SAUSSE, Henri. Biografia de Allan Kardec. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2012.