O polegar opositor e a busca da paz

O polegar opositor e a busca da paz
16 de janeiro de 2019 Marcus Tullius

O POLEGAR OPOSITOR E A BUSCA DA PAZ

Por Marcus Tullius*

Sim, eu busco e sou a favor da paz.

Não. Eu não sou a favor nem da posse, nem do porte e nem da difusão das armas.

©  Jorge Villalobos

Não. Não dá para comparar o poder de destruição de uma arma de fogo em casa com um liquidificador. É de um reducionismo sem tamanho, uma afronta [mais uma] à racionalidade brasileira.

O que estamos vendo é uma discussão a posteriori, uma vez que o período propício para a discussão [o período eleitoral] não foi utilizado. Ou, o cumprimento das promessas para quem fez arminha com o polegar e o indicador. Isso me fez lembrar, inclusive, a definição de ser humano apresentada pelo documentário Ilha das Flores [quem não viu, veja!], de Jorge Furtado, em 1989: “Os seres humanos são animais mamíferos, bípedes, que se distinguem dos outros mamíferos, como a baleia, ou bípedes, como a galinha principalmente por duas características: o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor. O telencéfalo altamente desenvolvido permite aos seres humanos armazenar informações, relacioná-las, processá-las e entendê-las. O polegar opositor permite aos seres humanos o movimento de pinça dos dedos o que, por sua vez, permite a manipulação de precisão.” A habilidade, na época, permitia um sem número de melhoramentos no planeta, como plantar tomates. Hoje, o polegar opositor é usado para fazer arma. Enfim, foi só um parêntese… uma lembrança.

Justificar a assinatura do termo por um referendo de 2005, portanto 14 anos após a consulta, é perder totalmente a noção de tempo, de espaço e de mudança dos comportamentos e fenômenos sociais.

Como cristão católico, me atento ao que diz o Magistério acerca dos assuntos, principalmente aqueles que dizem respeito à humanidade, ao ser/estar no mundo, às relações. Há quem confesse a mesma fé e mantenha outra opinião. O Catecismo da Igreja Católica expressa claramente que a corrida armamentista não garante a paz. Garantir posse é acirrar essa corrida, uma vez que as empresas fabricantes são grandes interessadas e quem deseja ter a posse da arma não a quer simplesmente para enfeite em sua casa. Quem deseja possuir é porque tem a intenção de uso em algum momento. Diz o Catecismo: “A acumulação de armas é considerada por muitos como um processo paradoxal de dissuadir da guerra eventuais adversários. Veem nisso o mais eficaz dos meios suscetíveis de garantir a paz entre as nações. No entanto, esse processo de dissuasão suscita severas reservas morais. A corrida aos armamentos não garante a paz. Longe de eliminar as causas da guerra, corre o risco de as agravar.” (CIC 2315)

O Papa Francisco, repetidas vezes em discursos e redes sociais, alerta sobre a proliferação das armas e o seu comércio. Mais recentemente, no dia 7 de janeiro, no discurso ao Corpo Diplomático para as felicitações de ano novo, reforça: “Infelizmente, pesa constatar que o mercado das armas não só não parece sofrer interrupção, mas ao contrário existe uma tendência cada vez mais difusa para se armar por parte tanto dos indivíduos como dos Estados.”

Temos que nos preocupar. Com a humanidade toda e com os mais pobres. Conforme acena o Concílio Vaticano II, por meio da Constituição Pastoral Gaudium et Spes, “a corrida aos armamentos é um terrível flagelo para a humanidade e prejudica os pobres de uma forma intolerável.” (GS 81) Contudo, não percamos a esperança. A Gaudium et Spes [a esperança já está no seu título: As alegrias e ESPERANÇAS], no mesmo parágrafo, já nos motiva: “Advertidos pelas calamidades que o gênero humano tornou possíveis, aproveitemos o tempo de que ainda dispomos para, tornados mais conscientes da própria responsabilidade, encontrarmos os caminhos que tornem possível resolver os nossos conflitos dum modo mais digno de homens. A providência divina instantemente nos pede que nos libertemos da antiga servidão da guerra. Se nos recusamos a fazer este esforço, não sabemos aonde nos levará o funesto caminho por onde enveredamos.” (GS 81)

Utilizemos o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor para dar as mãos e promover a paz.