Sobre a morte de Mãe Stella de Oxossi

Sobre a morte de Mãe Stella de Oxossi
28 de dezembro de 2018 Washington Luís Santos Oliveira

Sobre a morte de Mãe Stella de Oxossi

Por Tat’etu Ria Nkise kamugenan

Todos nós, de candomblé ou de outra tradição religiosa, recebemos com muito pesar a notícia do falecimento de Mãe Stella de Oxóssi ,uma das principais Ialorixás do país, que nos deixou aos 93 anos. Mãe Stela, que durante muito tempo esteve à frente do Ilê Axé Opo Anfonjá, em São Gonçalo do Retiro, na Bahia foi, sem dúvida nenhuma, uma das pessoas que mais bravamente lutou contra o preconceito religioso, contra a ignorância para com as religiões de matriz africana, principalmente o candomblé.

Maria Stella de Azevedo Santos, que se iniciou ainda nova no candomblé teve mais de 80 anos de contribuição com a religiosidade de matriz afro. Foi escritora de nove livros sobre a religião e inúmeras vezes representou a tradição do candomblé em diversos espaços de diálogo e produção do conhecimento.

Mãe Stella – Foto: Mário Cravo Neto

Uma de suas pautas mais importantes era a defesa do meio ambiente como manutenção de nossa crença. Ela enfatizava sempre a máxima yorubá : “kosi ewé kosi orisá( sem folhas, sem orixá), o que reafirma a necessidade de entendimento da natureza como elemento imprescindível ao culto, e que, preservá-la e respeitá-la significa garantir a harmonia e presença de nossas divindades conosco, entre nós.

Sacerdotisa desde 1976, Graduada em Farmácia pela Escola Baiana de Medicina, em 2009, ela recebeu o título de Doutora Honoris Causa da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) E em 2013, a Ialorixá foi eleita imortal da Academia de Letras da Bahia (ALB). Ele ocupou a cadeira 33 (Poltrona Castro Alves)

Mãe Stella vivia com a companheira Dhomini e se mudara, de Salvador para Nazaré das Farinhas em 2017, após sofrer um AVC. Já estava debilitada e com pouca visão.

O ilê Asé Opo Afonjá deve ficar sem atividades no próximo ano em cumprimento aos preceitos e ritos fúnebres necessários, em situações como essa. Ainda não se tem um herdeiro ou herdeira para o trono de Mãe Stella, que se dará a futuro após jogo de búzios, em que Oxossi apontará quem é o escolhido(a)  para dar sequência à casa. Esse  é um momento tenso em toda comunidade, uma vez que precisa ser bem conduzido e com muita responsabilidade.

Uma das tensões causadas no pós-morte de Mãe Stella é sobre o ritual do axexê (cerimônia fúnebre da religião que contempla vários rituais necessários, quando da partida de alguém do santo). Isso porque a ialorixá teria tido desavenças com alguns filhos da casa e a companheira dela resolveu não liberar o corpo para ser velado no terreiro. Sem querer entrar na resolução do mérito, sabemos que é necessário o corpo presente  em alguns procedimentos ritualísticos e é uma pena que, para Mãe Stella , que tanto representou para o candomblé, não seja tudo feito conforme mana a tradição do candomblé. Agora à tarde, a justiça determinou que o corpo de mãe  Stella seja transferido para Salvador, mesmo a contragosto da companheira.

O que fica são os ensinamentos, o legado, a garra de uma mulher que sempre via no orixá o motivo de sua estada na terra. Que nesse momento em que ela nos deixa, Oxóssi a conduza ao lugar de destaque que merece. À mãe Stella nosso eterno N’zambe Naquatesá, como dizemos na tradição bantu, nosso muito obrigado pelos ensinamentos, pelo exemplo de como se deve levar, com responsabilidade e afeto, a vida no santo.