“Deus”, para que te quero? Maquiavel e Saramago para a compreensão do cenário político-religioso brasileiro.

“Deus”, para que te quero? Maquiavel e Saramago para a compreensão do cenário político-religioso brasileiro.
22 de outubro de 2018 Nelson Lellis

Política e Religião 

“Deus” pra que te quero? Maquiavel e Saramago para compreensão do cenário político-religioso brasileiro. 

Por Nelson Lellis e Leonardo Alvarenga

 

“Os fins justificam os meios”. Essa máxima foi cunhada a partir da leitura de Maquiavel em sua obra mais conhecida, “O Príncipe”. Nele, o autor sintetizou o caminho para um governante manter-se no poder numa Europa fragmentada e violenta. De acordo com o sociólogo Fernando Henrique Cardoso: “É certo que Maquiavel não prega a esmo que os fins justificam os meios; assim como tampouco dá seus conselhos aos homens comuns. Só aos príncipes, em momentos decisivos, caberia ‘fazer o mal’ quando ele fosse necessário para salvar a república ou a si mesmo”. Em alguns trechos Maquiavel afirma que “Não se pode dizer que haja virtude em exterminar concidadãos, trair os amigos, não ter fé nem piedade nem religião; pois é possível conquistar o poder por esses meios, mas não a glória”. O filósofo acentua o quanto são decisivos os meios para se obter poder, ainda que isso lhe custe a glória. E a glória é tudo.

“O príncipe pode obter a simpatia do povo por vários meios; no entanto, como estes variam conforme as circunstâncias, não se pode indicar uma regra precisa, razão pela qual passaremos adiante. Apenas para concluir, direi que um príncipe precisa ter o povo a seu lado, do contrário não terá apoio nas adversidades”. Nessa importante declaração, Maquiavel sinaliza o que é imprescindível à governabilidade (fim): o apoio popular (meio).

O que essa observação mais do que relevante do jogo de poderes tem a ver – ou nos ajuda a compreender – a relação atual entre religião e política no Brasil? Verifica-se cada vez mais uma “presença” religiosa na esfera pública e mais precisamente na política institucional brasileira. Algum religioso diria que em um espaço democrático vale tudo, até mesmo o direito de um fiel expressar suas convicções religiosas. Fazendo uso da Constituição de 1988, ele dirá: “A Constituição Federal, no artigo 5º, VI, estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias”. Não nos enveredaremos no campo jurídico, uma vez que não é nosso principal foco. O que acontece no cenário político contemporâneo é diferente do que em tese a lei preconiza. Presencia-se a instrumentalização da política ou da religião como meio para determinados segmentos da religião ou da política imporem sua visão de mundo a uma sociedade plural. Não se pode supor que a sobreposição numérica de um determinado segmento religioso seja a razão suficiente para se estabelecer uma regra. Essa forma de governar não é democrática, sim imperialista e por que não “fundamentalista”? O poder em um Estado Democrático de Direito emana do povo, não de Deus. Esse é um dos avanços de uma república (res publica – coisa do povo). O povo é tudo.

Ficamos a pensar se a maioria dos brasileiros se declarassem pertencentes a outra fé que não a cristã. Se os que hoje se declaram cristãos, aceitariam o argumento do qual se valem para impor sua visão de mundo ou arrogariam o direito e respeito à diversidade. O que está em jogo é o poder. Para estar no poder, a religião majoritária é, via de regra, o caminho mais garantido de ascensão. Declarar-se ateu e concorrer a um cargo político é dar um tiro no pé. Com uma população majoritariamente religiosa, o candidato que se declarar ateu e contra a religião assinará sua própria sentença. Os discursos em favor da “família”, da “moral”, de “Deus”, tem na história mais recente do Brasil motivos para serem no mínimo suspeitos. Quem se lembra da “Marcha da Família com Deus e pela Liberdade”? Qual era a real reivindicação? Não era a intervenção militar que queriam? O que aconteceu depois? Não foi a censura, tortura e repressão à liberdade? Quem lembra da votação pelo impeachment de Dilma Roussef? Os parlamentares usaram a palavra “Deus” 59 vezes, quase o mesmo número de vezes que a palavra “corrupção”, citada 65 vezes. Menções aos evangélicos aparecem 10 vezes, enquanto a palavra “família” surgiu 136, de acordo com a transcrição dos discursos no site da Câmara dos Deputados. Além disso, a votação foi aberta pelo presidente da Câmara Eduardo Cunha (atualmente preso), evangélico, com os dizeres: “Que Deus tenha misericórdia desta Nação”. Será que realmente estavam preocupados com a religião em si, suas famílias, o combate à corrupção?… ou queriam mesmo se assentarem à direita do sucessor Michel Temer (um dos articuladores do golpe)?

Quem se recorda dos discursos da advogada Janaína Paschoal em defesa do impeachment? Novamente “Deus” estava presente: “Foi Deus que fez com que várias pessoas percebessem o que estava acontecendo com o nosso país e criassem coragem para se levantarem e fazerem alguma coisa a respeito”. Tudo isto nos leva a perceber que o problema está longe de “Deus”, mas se aproxima do “fator Deus”, como apontou Saramago ao analisar o atentado terrorista em Nova York, no ano de 2011: “Não é Deus, mas o ‘fator Deus’ (…) o que se exibe nas notas de dólar (do real também – ‘Deus seja louvado’) e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, e não a outra…) a bênção divina (…). Esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta” (grifo nosso).

O “fator Deus” é o meio. O poder é o fim. O objetivo de ter poder é ter mais “Deus” porque Deus mesmo é o umbigo. E para se conquistar isso… vale tudo!


Referências:

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. 292 p.

MAQUIAVEL, N. O PRINCIPE. Coleção: PENGUIN CLASSICOS. Edição: 1ª, 2010.

SARAMAGO, José. O fator Deus. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u29519.shtml. Acesso em 26/09/2018.

Sobre Leonardo Alvarenga

Pós-doutoramento em Sociologia Política (UENF – Faperj). Doutor em Ciência da Religião (PUC-SP/EHESS). O autor pesquisa sobre religião e modernidade no Brasil com foco nos evangélicos e protestantes.