A ponte da aliança: Ágora dos/das Habitantes da Terra e a mística do Bem Viver

A ponte da aliança: Ágora dos/das Habitantes da Terra e a mística do Bem Viver
19 de outubro de 2018 Marcelo Barros

Bem Viver

A ponte da aliança: Ágora dos/das Habitantes da Terra e a mística do Bem Viver

Por Marcelo Barros

É hora de retomarmos uma antiga cantiga de crianças que, antes da televisão, circulava por todo o Brasil: “Lá na ponte da aliança, todo mundo passa!”. Era uma cantiga de roda. Representava o contrário de um mundo ávido de construir muros e levantar barreiras que impedem o encontro das pessoas. Ao se darem as mãos para formar a roda e cantar a “ponte da aliança”, as crianças profetizavam para os adultos que, como propõe o Fórum Social Mundial, um outro mundo é necessário. Juntos, podemos torná-lo possível1. No entanto, esse mundo novo só ocorrerá se for mais lúdico e mais afetuoso.

No começo desse século, por mais de uma década, sob a liderança do presidente Hugo Chávez, vários países da América Latina conseguiram firmar organismos de diálogo e colaboração continental. Atualmente, governos de direita e submissos aos interesses norte-americanos dominam o cenário latino-americano e esvaziam esse grande projeto de integração já sonhado por Bolívar no início do século XIX2. Por isso, mais do que em outros continentes, na América Latina, é necessário e urgente um projeto como o da Ágora dos/das Habitantes da Terra.

Um olhar sobre o projeto da Ágora 3

Historicamente, o termo Ágora significa o local – praça ou arena na qual os cidadãos das antigas cidades gregas se reuniam e exerciam a cidadania. Embora de forma que hoje soa como elitista e injusta, já que excluíam estrangeiros, escravos, mulheres e crianças, a Ágora grega ensaiava uma primeira forma de exercício da cidadania e de democracia. Atualmente, um grupo de cientistas sociais, militantes e pessoas comprometidas com o futuro da humanidade propõe que se crie um diálogo de cidadania que possa representar a humanidade atual, como sujeito de direitos e de voz no mundo. Até agora, os governos têm a ONU e organismos a ela ligados. Alguns grupos étnicos e sociais têm seus órgãos representativos. No entanto, a humanidade, como tal, não é reconhecida como sujeito de direitos e de responsabilidade com a vida, com a justiça e a paz. Nessa realidade, a escandalosa concentração de riquezas no mundo provoca uma tragédia social com milhões de pessoas despojadas dos seus direitos humanos básicos. O papa Francisco afirma que se trata de uma multidão de pessoas descartáveis, como se fossem sobra de uma sociedade cruel. O projeto Ágora pensa em organizar ao lado da ONU (organismo de governos) uma OMHU, Organização Mundial da Humanidade Unida. Nessa linha, se propõe a proporcionar a todo ser humano uma carteira de identidade de habitante da Terra. E quer lutar para que esse documento seja reconhecido como um passaporte internacional que dê às pessoas o direito de se sentir como cidadão do planeta, para além da pertença a um país ou a uma cidade. No mundo inteiro, cresce a consciência de que os elementos necessários à vida, como a água, o ar, as sementes são bens comuns e não podem ser privatizados e mercantilizados.

De fato, ao falar em “habitantes da Terra”, temos consciência de que esses não são apenas os humanos, mas todos os seres vivos. A Ágora, formada pelos humanos quer também garantir uma relação de respeito e cuidado aos animais e as plantas, como detentores de direitos. Há uma proposta de se evoluir da Carta da Terra já aprovada pela ONU para a elaboração de uma Carta da Vida.

O projeto da Ágora prevê encontros locais, regionais e internacionais. Quer que, a partir das bases, as pessoas possam se sentir falando “em nome da humanidade”. No entanto, essa iniciativa não quer substituir às conferências internacionais e fóruns sociais existentes. Ao contrário, quer se somar a todas essas experiências coletivas e, na medida do possível, se integrar para fortalecer um processo permanente de discussão, aprofundamento e elaboração de uma nova constituição de cidadania do planeta.   

Onde há amor, aí está o Espírito…

Qualquer pessoa que olhe criticamente e de forma madura o que está acontecendo no mundo se sente chamado/a a trabalhar para mudar essa realidade. A respeito da Economia, a ditadura do mercado, considerado como absoluto e acima da vida humana, é grave demais para que esse assunto seja deixada apenas a cargo de governos e técnicos pagos pelas empresas multinacionais. No entanto, a crise ecológica e humana ainda se apresenta mais trágica. Ou empreendemos, quanto antes, os esforços necessários para mudar o modo como a sociedade está tratando o planeta (os solos, as águas, o ar, as florestas), ou será tarde demais para evitar a catástrofe. Com essa consciência social e política, muita gente está envolvida nesse esforço para transformar o mundo por meio de um diálogo em nome da humanidade. No entanto, sem dúvida, cada vez cresce o número de pessoas e comunidades que se sentem chamadas a entrar nesse processo por causa de sua fé e por um apelo espiritual ao qual tentam responder.

Na base das mais diversas correntes há um apelo divino ao amor, à solidariedade e à vida em comum. Essa vocação está inscrita no interior de cada pessoa. Na sociedade atual, essa vocação tem sido ignorada e menosprezada por uma cultura individualista que exalta o “cada um por si”. Entretanto, de um modo ou de outro, na juventude e em alguns grupos alternativos, essa sede de comunhão reaparece e orienta a busca de muitas pessoas por uma vida comunitária e uma relação de convivência que não seja só de trabalho, mas de vida em comunhão. Por isso, não deixa de ser surpreendente e, sem dúvida, lamentável que, em geral, as lideranças de Igrejas cristãs pareçam tão pouco sensíveis a esse movimento de unidade e de convergência da humanidade.

Em 2015, na sua carta sobre o cuidado com a Casa Comum, o papa Francisco propõe uma aliança das religiões a serviço do cuidado com a vida e em diálogo com toda a humanidade (Laudato sii, 89 e 209- 210)4. No Brasil, através da Comissão Justiça e Paz, a CNBB apoiou e participou dos primeiros fóruns sociais em Porto Alegre. Também o Conselho Nacional de Igrejas cristãs teve presença significativa em alguns desses fóruns. No entanto, parece que a maioria dos cristãos não consegue perceber que os fóruns sociais, a organização da humanidade em um coletivo de solidariedade corresponde à vocação das Igrejas cristãs de serem abertas a tudo o que é humano. É o que chamam de catolicidade e deveria ser característica de toda Igreja cristã.

“O deserto vai virar jardim” (Is 35)

Ao ouvir falar dessa proposta de uma nova aliança da humanidade, na qual todo ser humano será reconhecido como cidadão da Terra, se estabelecerá uma entidade mundial correspondente à ONU dos povos e a humanidade assinará uma Carta em favor da Vida, muitas pessoas pensarão ser um projeto totalmente utópico e mesmo irreal. Alguns chegam a pensar que está sendo formulado justamente quando a humanidade está chegando no fundo do poço de uma situação desumana e que parece sem saída.

Nas tradições espirituais, é quando a realidade histórica parece mais dura e pesada que do mais profundo do ser humano brota uma semente de esperança nova e de alternativas para além de todos os sonhos bons. Para quem estuda a história da escravidão negra nas Américas, é quase impossível acreditar que no auge do tráfico negro, quando as pessoas eram chamadas de “peças” e eram tratadas de forma pior do que animais, exatamente nessa realidade, as comunidades negras de diversas culturas e com tradições religiosas diversas foram capazes de, mesmo na clandestinidade e contra todas as possibilidades, criar e recriar belíssimas tradições religiosas que asseguraram a identidade afroamericana e garantiram ao povo escravo a fé na vida, a capacidade de se unir, se organizar e de lutar sem esmorecer por sua libertação. Essa história, de certa forma, repete uma experiência bíblica da cultura judaico-cristã, como também aconteceu na Arábia do século VII na experiência do profeta Muhamad e dos primeiros muçulmanos.   

De fato, conforme a história, foi quando o povo bíblico estava vivendo o cativeiro mais cruel e a ameaça de extinção, tanto de sua identidade cultural judaica, como da sua fé libertadora que os profetas e sacerdotes começaram a dar forma aos relatos e narrativas que hoje temos por escrito em nossas Bíblias.

De acordo com o relato bíblico, (a história pode ter sido um pouco diferente), no tempo do cativeiro da Babilônia, tanto para os mais ricos e mais jovens exilados, como para o povão pobre que ficou na terra para trabalhar para os seus novos senhores, as perspectivas históricas de liberdade e mesmo de sobrevivência étnica e cultural eram quase nulas. Eles tinham de falar o idioma do colonizador e não tinham como passar a seus filhos e netos a cultura e a fé de seus pais e mães. Na Babilônia, reis e nobres eram castrados para que não pudessem esperar mais que algum descendente seu retomasse a ideia de um reino de Davi.

Foi exatamente nesse contexto terrível que profetas e profetizas começaram a anunciar um próximo reinado divino e a vinda de um Messias que, mesmo sendo escravo (servo sofredor) libertaria o povo e traria um tempo novo de paz e de justiça.  A esperança messiânica surgiu do exílio e do cativeiro e nos deu de presente as páginas mais lindas de promessa do futuro que até hoje precisamos retomar para viver a luta: “As armas de guerra vão ser transformadas em instrumentos agrícolas, as feras vão comer pasto junto com os bois e todo o universo terá paz” (Is 2). “O deserto vai virar jardim” (Is 35).

Do mesmo modo, atualmente, na América Latina, os povos indígenas, cada dia mais massacrados e ameaçados em sua identidade, conseguiram expressar para si mesmos e até propor para toda a humanidade o novo e antigo paradigma do bem-viver.

A  Ágora dos Habitantes da Terra e o Bem-viver

Ao assumir o Bem-viver como objetivo do Estado, as novas constituições da Bolívia e do Equador tomam como primeira consequência a afirmação de sua natureza pluralista. Ambos os países se definem como países multi-étnicos e nos quais diversas culturas, idiomas e modelos de vida social devem ser assumidas e devem conviver respeitosa e complementarmente. Essa é a base da sociedade do bem-viver (o bem conviver) e é sobre essa mesma base que se fundamenta o projeto da Ágora dos/das Habitantes da Terra.

O projeto da Ágora está apenas se gestando como em um tempo de gravidez. Parte de organizações sociais e de iniciativas cidadãs como a luta pela democratização da água em alguns países da Europa e de outros continentes. Diferentemente, o paradigma do Bem-viver se enraíza em culturas ancestrais e se alimenta de tradições espirituais. Enquanto a Ágora parte de sociedades individualistas para criar espaços comunitários, O Bem-viver nasceu e se desenvolve em comunidades que resistem aos ataques e violências dos impérios. No entanto, ambos os projetos têm em suas raízes uma Ética da libertação de todos, em função da Vida. Essa Ética é alimentada por uma espiritualidade ecumênica de diálogo intercultural e inter-religioso. Recupera as expressões artísticas da dança, da comunicação corporal e da linguagem que faz da alegria um princípio da Mística e da Política. Tanto a Ágora como o Bem-viver intuem um processo social de gratuidade afetiva e afetuosa baseada em um grande carinho com a Vida, presente no outro (outro humano e outro ser vivo). Vai além da eficiência e  da produtividade. É pura gratuidade de amor. É profecia de amor no deserto. Ainda nos anos de luta revolucionária na Nicarágua, o monge e poeta Ernesto Cardenal escreveu muitos de seus poemas. Em um deles “En Pascua resucitan las cigarras” , o poeta afirma:

En Pascua resucitan las cigarras,
– enterradas 17 años en estado de larva –
millones y millones de cigarras
que cantan y cantan todo el dia
y en la noche todavía están cantando.

Solo los machos cantan:
las hembras son mudas.
Pero no cantan para las hembras:
porque también son sordas.

Todo el bosque resuena con el canto.
y solo ellas en todo bosque no los oyen.
¿Para quién cantan los machos?
¿Y por qué cantan tanto? ¿Y que cantan?

Cantan como trapenses en el coro
delante de sus Salterios y sus Antifonarios
cantando el Invitatorio de la Resurrección.
Al fin del mes, el canto se hace triste,
y uno a uno van callando los cantores,
y después sólo se oyen unos cantos,
y después ni uno. Cantaron la resurrección”5.


Referências

1 Esse foi o tema do Fórum Social Mundial em Montreal, agosto de 2016.
2 Ver: MARCELO BARROS, Para onde vai Nuestra América, Para uma Espiritualidade Socialista para o século XXI, São Paulo, Ed. Nhanduti, 2011.
3 Sobre isso, ver o site: www.habitantesdaterra.org
4 PAPA FRANCISCO, Laudato sii, Sobre o cuidado da Casa Comum, Documentos Pontifícios 22, Brasília, Ed. CNBB, 2015, pp. 58- 59 e 124- 125.
5 ERNESTO CARDENAL, Antologia, Cuadernos Latinoamericanos 6, Ed. Carlos Lohlé, Buenos Aires, México, 1974, p.75.